Vós, vossos, convosco: riqueza e beleza do idioma

As pessoas do discurso são eu, tu, ele, nós, vós, eles.

Existe a segunda pessoa do plural, a saber, vós, aplicável quando o sujeito da frase se dirige a mais de uma pessoa: digo-vos, expliquei-vos.

O pronome possessivo correspondente é vosso: isto é vosso (se empregar o pronome oblíquo: isto vos pertence).

Há as conjugações respectivas: sabieis vós? Direis vós? Se entenderdes, melhorareis culturalmente.

Décadas atrás, no Brasil, era usual a segunda pessoa do plural; hoje, não mais, o que não significa que ela haja sido revogada. Ela existe; não é usada, porém pode sê-lo, como recurso disponível para todos quantos queiram usá-la.

No país (Brasil) em que, por décadas a fio, descurou-se do ensino do idioma, em que integrava o etos do homem comum a sentença (típica de desleixo e da mediocridade) “deve-se saber escrever corretamente, mas falar, pode falar de qualquer jeito”; em que o comum do povo desdenhava do idioma (e ainda desdenha); em que há animadversão acadêmica pela gramática normativa (vide lingüistas sequazes das doutrinas de Marcos Bagno), o resultado foi o que só poderia ser: o de que, nas últimas décadas, os brasileiros  (sobretudo as gerações moças) aprenderam mal o idioma e desusam muito do quanto aprenderam. Pior: o idioma tornou-se desvalor, ao invés de ser tido e tratado como elemento de identidade cultural e componente da civilização.

Nos últimos cerca de 40 anos, acentuação, pontuação, conjugação, concordâncias, riqueza léxica, mesóclise, preposições, já mal sabidas pelas classes desinstruídas, porém ainda sabidas pelas estudadas, tornaram-se também ausentes destas, em proporção perceptível: ao invés de se manter conhecimento em uns e introduzi-lo em outros, deu-se o oposto, por culpa do sistema público de ensino lamentável e da mentalidade condescendente com o descaso e com o desleixo como práticas lingüísticas. Neste estado de coisas, o brasileiro médio deixou de adquirir recursos e de usá-los, a exemplo da bela mesóclise, das preposições, dos pronomes contraídos, do pronome reflexivo “se” e da requintada segunda pessoa do plural.

A segunda pessoa do plural, usada corretamente, é bonita, bem sonante e econômica: em lugar de dizer-se, por exemplo, “explico para vocês” (3 palavras) ela permite-nos dizermos “explico-vos” (uma palavra); em vez de dizer-se “é de vocês”, ela permite-nos dizermos “é vosso”. Ao invés de enunciar-se, por exemplo “vou dizer isto para vocês”, pode-se dizer “dir-vo-lo-ei”: em lugar de cinco palavras, emprega-se uma, que contém todos os elementos delas. Parece difícil? É fácil para quem aprendeu (aprendi com onze anos de idade).

Você, que aprendeu, use o que aprendeu. Aproveite o seu conhecimento; não se prive dele. Propicie o bom exemplo.

Os pronomes, os pronomes contraídos, as pessoas do discurso, a mesóclise, propiciam economia na comunicação e poupam o emissor dos circunlóquios prolixos a que o emissor se sujeita, se prescindir deles.

Saber bem o português e usá-lo corretamente é vantajoso e inteligente. Aliás, os pronomes, os pronomes possessivos, os pronomes contraídos, a mesóclise, os tempos verbais, os advérbios de modo, as pessoas do discurso e outros elementos do idioma, são recursos inteligentes, cujo emprego correto e corriqueiro denota que o seu usuário elevou-se à riqueza do idioma e capacitou-se para exprimir-se com precisão e clareza.

A segunda pessoa constitui riqueza e beleza do português, usável em qualquer situação, formal ou informal, oralmente ou por escrito, em textos formais ou informais, em situações profissionais, familiares, lúdicas; entre amigos, familiares, colegas,  estranhos  – em suma, em qualquer situação, entre todas as pessoas. Para usá-la, basta saber-se e querer-se usá-la.

Ela não contém formalidade, pedantismo nem nenhuma nota pejorativa. Ao contrário, empregá-la revela a capacidade de o indivíduo servir-se deste recurso do idioma, como meio de comunicação ao seu dispor.

Usemo-la! Estranhar-lhe-ão o uso? Sim, de começo, porém o ser humano a tudo se adapta, por efeito da habituação: habituemo-nos e habituemo-los (os outros) ao uso correto de todos os recursos do idioma. Demais, ninguém se deve inibir de empregar componente do idioma que se destina precisamente a ser usado.

Usemo-la! Ela é requintada, elegante, eufônica, bonita e correta.Assim convencido, convosco partilho o meu pensar, esperançoso de que vos persuada, para que vós também possais enriquecer e embelezar o vosso discurso.

*Arthur Virmond de Lacerda, por resolução pessoal, não obedece as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. que entrou em vigor no Brasil em 2009.

IMAGEM: DIVULGAÇÃO LIVRO “GUIA PRÁTICO DO PORTUGUÊS CORRETO”.

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