Uma crônica do direito: ‘Ala geriátrica, presente!’

Retorno às aulas e os iguais se encontram. No canto mais brega da sala, eles entreolham-se, vestidos em calças e camisas sociais, sapatos chulé 41, gravatas a engasgar-lhes os comentários, tosses roucas e indefectíveis cabelos brancos, quando cabelos há. Não importa, riem-se, brincam carnavalescos: ‘é dos carecas que elas gostam mais’.

O primeiro boceja, o segundo boceja, o terceiro boceja. Seguem-lhes as alegações finais. Noite mal dormida.

O Martins trouxe o pesado vade mecum a exasperar-lhe a artrite. Entre um pigarro e outro consulta o volume dez do CID. Artigo J41, inciso I. Vive às turras com a bronquite crônica. É micropurulenta, coitado.

A ala maternal da classe, no canto oposto, a sudoeste. O menino, piá de 30, oferece balinha de hortelã.

O Silva resmunga, o Naldo negaceia, preferindo pastilhas Valda, o Batista ignora-o. Procura febre. O menino insiste: há um saquinho cheio delas. Rende-se o Martins. Estica os dedinhos hesitantes, prestes a um acesso:

– Balinha de hortelã, inda morro disso, quem sabe amanhã.

Chega o Bacana, balançando as chaves. É doutor de não-sei-o-quê, jurisconsulto a um passo do exame da ordem. Talvez dois. Talvez três. Tira os cadernos, os livros, a caneta Montblanc, o computador, a barra de cereal, a garrafinha d´água e o comprimido das oito da noite. Ainda falta hora e meia. No sobrebolso da pasta, o código civil grita-lhe: socorro.

De olho no celular, o Sousa pergunta-lhe da saúde, aquela ingrata que o abandonou. Ele resolve contar.

Faz um mês que o Eronildes desentendeu-se com o grupo em uma questiúncula de fé. Sentou-se à frente, longe de pediátricos e geriátricos. Mire agora: tossinha seca, a intervalos de trinta segundos. Febre, hemoptise, suores noturnos. Fuma? Não. Bebe? Filosoficamente. Pneumotórax, é grave.

O Martins reclama, tiritante. Amaldiçoa o verão, os ventiladores, os abanos, os eunucos, os 26 graus. Puxa da bolsa o casaquinho e o cachecol. Tem as mãos frias, o esqueleto frio, a alma fria. Salvaram-no as meias de tricô.

Enfim, o professor. Traz mala de viagem sobre rodinhas, camisa amarfanhada, cabelos ralos, pele rubra, macilenta e rugas mil. Senta-se à primeira fila e eis constatado o engano. É aluno novo, desperiodizado ou coisa parecida. Ao fundo, sinfonia de tosse e rouquidão saúda-o. Alegro ma non troppo.

O professor sucede-o. Este de fato. Espreme-se na porta entreaberta, cumprimenta a todos, deixa papel dobrado sobre a mesa, investe contra a sala. É piá de 40, não mais.

A exposição enreda-se, complica-se, anuvia-se. O mestre e doutorando chafurda pelo direito constitucional em todas suas agruras. Quando os ponteiros do relógio, miseravelmente, avançam os derradeiros cinco minutos da aula, ouve-se barulho. O novo aluno faz-se tinto espumante, desesperado. Engasga, debate-se, ronca forte, gesticula esperançoso da hermenêutica. Por fim, comprime as mãos contra a garganta e torce para que alguém ali saiba algo sobre primeiros socorros e manobra de Heimlich. Com todos paralisados, ele agarra a mala ao seu lado e aperta-a contra o peito. Dois ou três segundos, talvez quatro, e ouve-se silvo agudo. Enfim, o homem respira.

É só nesse momento, não antes, não pouco antes, que o Martins ergue a cabeça e diagnostica:

– Refluxo gastroesofágico com esofagite. CID 10, capítulo K, inciso 21.0. É grave.

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