Troco o projeto Escola Sem Partido por um exemplar de ‘1984’

Trailer do filme ‘1984’ de Michael Radford.

REPARE: “ESCOLA SEM PARTIDO” é o mesmo que Escola Sem Sócrates. O filósofo grego foi condenado a tomar cicuta em 399 (antes da era comum) sob duas acusações: a primeira por criar novos deuses (ele mesmo entre outros, dizem as más línguas), a segunda por corromper a juventude. Está em “Eutífron”, escrito por Platão que, como filósofo (também dizem as más línguas), era um grande dramaturgo. Mas, doutor, divago.

Em editorial, a Folha de S. Paulo desta terça (6) concede um parágrafo àqueles que defendem o projeto ao concordar ou não negar “que exista o problema da pregação ideológica, no mais das vezes de orientação esquerdista, a distorcer o conteúdo das disciplinas”. Bobagem.

Que haja um, dois, três, quatro, cinco, dez professores da área de humanidades a disseminar ideias socialistas a seus alunos. Nenhum deles será capaz de “doutrinar” seus discípulos – até porque estes preferem as fake news disponíveis nas redes sociais (risos).

Quem precisa de doutrinação, não vai à escola, mas à igreja e iria ao partido político se partido político houvesse.

No mais é só distopia. Tal como imaginar que Jair Bolsonaro irá instalar uma ditadura militar no país. Por que razão se ele já dispõe de um presidencialismo de coalizão?

Troco, portanto, qualquer tentativa de restringir a liberdade de expressão, de manifestação, de pensamento por uma edição do “1984” de George Orwell, que em 1948 (ele só inverteu os números decimais) imaginou um mundo onde existia a “Thinkpol”, a teletela que tudo vê, o Grande Irmão e a  aritmética doutrinária: 2 + 2 = 5. Acredite.

Parece o pior do mundos. E de fato é. Porém não é o mundo da sala de aula. Esta, pelo contrário, talvez seja o último bastião onde pensar é só livre pensar. Mas, claro, é preciso pensar. Sócrates não pediria mais do que isso.

***Abaixo, reproduzo dois artigos que publiquei no Indústria & Comércio a propósito do “Monitor da Doutrinação”, um aplicativo que a Gazeta do Povo lançou na internet em 6 de dezembro de 2017 e, pano rápido, tirou do ar quatro dias depois.

Não por acaso, um diretor de redação do jornal certa vez escreveu: “De acordo com Orson Welles, autor do clássico ‘1984’…”

Aplicativo vai denunciar ‘doutrinação’ nas escolas

Indústria & Comércio – Marcus Vinicius Gomes – 6 de dezembro de 2017

NA QUARTA-FEIRA (6), a Gazeta do Povo surpreendeu os leitores ao anunciar o lançamento de um aplicativo voltado para o monitoramento da doutrinação nas escolas e universidades. O termo é esse mesmo: doutrinação. E vale para política, religião e comportamento.

Claro que o nome de batismo do aplicativo – Monitor da Doutrinação – remeteu, de maneira óbvia, ao livro “1984” de George Orwell, que certo diretor de redação do jornal, certa ocasião, escreveu ser de autoria de Orson Welles.

Que os deuses deem cambalhotas no caixão.

A polícia do pensamento, duplipensar, teletela e 2 + 2 = 5. Todo o mundo distópico do autor inglês novamente veio à tona. O jornal passa por estranhos momentos editoriais. Pôs fim à sua versão impressa em maio deste ano e construiu um portal de notícias que ainda não disse a que veio. Na primeira edição de sua revista impressa, que circula no fim de semana, trouxe encartado um catatau intitulado “Nossas Convicções”.

Estranhamente, não havia ali um fiapo de conceito jornalístico.

Com o “Monitor da Doutrinação”, o jornal parece distanciar-se da informação noticiosa e abraçar-se a um pontificado vazio, fruto da convicção não do jornal, mas de um ‘pastor de ovelhas’.

A reportagem que sustenta o lançamento do aplicativo usa jornalismo dúbio e indolente para embasar a necessidade do monitoramento. Isso fica claro em trechos como:

 “Diversos movimentos têm denunciado uma preocupação crescente sobre algumas condutas inapropriadas de professores dentro das salas de aula”.

Ou: “Embora haja discordâncias quanto à extensão do problema, é inegável que ele existe. A redação da Gazeta do Povo recebe com frequência vídeos com este tipo de denúncia. Em muitos casos, são vídeos antigos”.

O sujeito oculto é a marca da informação empurrada goela abaixo. Não há na reportagem sequer uma mera informação estatística que sustente a decisão do jornal de criar um aplicativo para “acompanhar” professores.

O verbo é esse mesmo. Ou seria dedurar? Ora, um mapa de doutrinação que se pretende nacional deve estar embasado em dados expressivos. Não basta um número indeterminado de vídeos (outro sujeito oculto).

Os casos relatados nos jornais, ao que se sabe, refletem o calor do momento e a instabilidade político-econômica do país. Se houve ação do estado, ela foi isolada ou limitou-se a material didático em ocorrências pontuais.

Se a direção editorial imagina que, criando um serviço de Big Brother (uma referência ao livro, não ao reality show) irá ganhar a simpatia do leitor, engana-se.

“Ânsia” investigativa não é uma expressão pesada quando se constata, na leitura da reportagem, que a Gazeta pretende, ora em diante, reunir os casos de “doutrinação” registrados e identificar os envolvidos.

Professores, alunos, diretores, funcionários.

Ainda mais que sem qualquer respaldo legal. Não se tem notícia de que haja um movimento sério do governo ou do legislativo ou do judiciário para punir a discussão político-religiosa-comportamental nas escolas.

Assim fica difícil falar em liberdade de expressão, liberdade de pensamento, liberdade de imprensa e livre-arbítrio.

***

Repercussão negativa faz Gazeta tirar

do ar ‘aplicativo da doutrinação’

Indústria & Comércio – Marcus Vinicius Gomes – 11 de dezembro de 2017

NO ESPAÇO EXÍGUO de quatro dias, a Gazeta do Povo abriu e fechou a portas do aplicativo “Monitor da Doutrinação” – cujo objetivo era vigiar e punir professores, alunos e funcionários de escolas e universidades que ousassem exercer o livre direito de opinião no ambiente dos estabelecimentos de ensino.

O alvo era a doutrinação ideológica, religiosa e a moral. Em matérias sem assinatura, o que em geral indica que são de responsabilidade da direção do jornal, a Gazeta lançou o aplicativo na quarta-feira (6) para encerrá-lo às 21h34 do domingo (10), tomada de nítido constrangimento editorial.

Trata-se de outra das grandes façanhas da Gazeta do Povo: assumir posições que pouco ou nada dizem respeito ao leitor.

Diz o artigo publicado no site no domingo:  “A reação [de professores, advogados, empresários, jornalistas, etc. nos levou a refletir se a ferramenta era condizente com o papel da comunicação, a finalidade editorial e a personalidade da Gazeta do Povo”.

Logo adiante, porém, o jornal insiste: “Por outro lado, não concordamos com situações de abuso. Elas existem e têm se tornado muito frequentes, tanto com a manifestação recorrente de opiniões de caráter partidário quanto com a exposição de temas moralmente inadequados”.

Não deixa de ser coincidência, portanto, que a Gazeta tenha publicado logo abaixo da matéria um link das “convicções do jornal”, já editada em papel na primeira edição da revista de fim de semana, em junho deste ano, e agora relembrada em versão digital. Em resumo, um catatau que foge aos princípios editoriais comumente adotados por publicações noticiosas.

A Gazeta está tirando do ar o aplicativo “Monitor da Doutrinação”, o que não quer dizer que se desapegou daquilo que reza. “Entendemos, ainda, ser impossível que se prescinda totalmente do que se acredita. Nossos valores e visão de mundo são pano de fundo para nossos atos e manifestações. É algo inafastável da realidade humana. Naturalmente, vale também para docentes. Portanto, torna-se utópico querer que, em sala de aula, o professor apresente um conteúdo sem que isso seja influenciado por aquilo em que ele acredita”, diz a Gazeta no mea culpa.

Parece bonitinho. Mas vale dizer que há muito o jornal prescindiu do jornalismo. A ponto de, em reunião com a redação, um dos diretores ter discorrido longamente sobre o fracasso das escolas de comunicação, o que teria resultado, segundo ele, em uma insanável geração de maus jornalistas. Alguém levantou a mão para rebatê-lo. Lembrou-o que o mal não abatia apenas as faculdades de comunicação, mas também as de medicina, engenharia, economia, química, ciências sociais, filosofia, física e, last but not least, direito. Sim, o diretor de princípios resolutos é advogado.

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