Só a incredulidade salva

Menos de cinco horas depois do atentado contra o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), na quinta-feira, 6, uma postagem no facebook anunciava a farsa: 1) o candidato não foi ferido porque não havia sangue; 2) a faca com que Bolsonaro foi atacado era retrátil, idêntica à usada no teatro e no cinema. Trocando em miúdos: tudo não passou de uma fake news, um golpe bem urdido para turbinar e consolidar os índices do direitista nas pesquisas de intenção de voto.

Salvo a facada em Prudente de Morais na República Velha desferida por um soldado e evitada por um ministro que recebeu o golpe mortal à guisa de heroísmo (hoje duvideodó), atentados contra políticos não são a praia do brasileiro. A credulidade inibe. Em algum momento da história, o homem cordial (não revolucionário), aquele das 9 da manhã às 5 da tarde com pausa para o cafezinho, tratou de sapecar a pescoção os que duvidam, dando voz e vez aos que têm certeza. Estão aí as redes sociais a provar.

Houve sim mortes nesse mundão, mas não por motivos políticos. E quanto à João Pessoa?, alguém indagará. Foi caso passional, não político. Coisa de gente armada. Até 2005, um detector de metais instalado no hall de acesso da Assembleia Legislativa da Paraíba impedia a entrada de deputados com o revólver na cintura. Os casos, raríssimos, seriam cômicos não fossem trágicos. Há o do ex-deputado baiano ACM Neto que, em 2006, foi esfaqueado nas costas. A agressora, uma mulher, disse que o amava. O ferimento foi superficial, mas amar é…

João Pereira Coutinho, em coluna na “Folha”, diz que só a credulidade explica os recentes atentados contra políticos em meio a um mar de serenidade que se julgava sem marolas.

Há mesmo uma relação direta e doentia entre o crente (seguidor) e o líder (seguido) que estão na política assim na terra como nas seitas.

No Netflix, um documentário sobre a mente criminosa (“Inside the Criminal Mind”, 2018) encontra um denominador comum entre as ovelhas desgarradas. Gente disposta a abrir mão de tudo para seguir um pastor, um líder, um político carismático. Dá tudo no mesmo. Ele encontra uma necessidade nas pessoas, atende essas necessidades e cria outras que elas nem sabia que tinham. Doutrinação, transformação, alteração e redefinição. Eis o processo de lavagem cerebral. O facebook ajuda muito.

Uma pesquisa recente da Ipsos Miro mostra que o brasileiro é o campeão em credulidade, ou seja, tende a depositar fé em tudo que lê, ouve ou vê – é o inverso dos três macaquinhos.

No levantamento, italianos e ingleses estão entre os mais incrédulos; só 29% e 33%, respectivamente, não duvidam do que leem nas redes sociais. O brasileiro lidera a lista com folga: 62% deles acreditam – a média é 48% –, o que só reforça aquela máxima de P.T. Barnum de que nasce um otário a cada minuto. No Brasil a contagem se dá por segundos.

Bolsonaro foi esfaqueado por um maluco em Juiz de Fora (MG) e os “fake readers” (leitores de notícias falsas) se apressaram em desacreditar ou desmerecer a informação. O tucano José Serra foi atingido por uma bolinha de papel na campanha presidencial de 2010 e tratou-se do caso como um atentado. Qual era mesmo o tamanho da bolinha?

Agora mesmo há juristas e advogados que garantem que Lula sai da cadeia, pronto para incendiar o eleitorado, no dia 13, em uma combinação de efeméride e numerologia partidária. Sorte que será quinta, não sexta-feira. É o líder da seita. Alguém com talento de sobra para conquistar corações e mentes e irradiar confiança e felicidade. É o que o documentário da Netflix diz sobre os guias espirituais (e políticos): eles demonstram solidariedade e empatia com seus fiéis e parecem normais. Mas convém não chegar muito perto.

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