‘Saúde e fraternidade’: o lema que neo-conservadores e olavinhos detestam

A revolução francesa de 1789 (que os neo-conservadores e olavinhos detestam) introduziu fórmula protocolar nos documentos oficiais, de inspiração republicana e procedência francesa: “Saúde e fraternidade” (“Salut et fraternité”).

Usaram-na os republicanos franceses, tanto os de 1789 quanto os de 1848. Ela integrou a praxe oficial no Brasil republicano: ofícios e correspondência governamental contiveram-na até, creio, os anos 1960, mas ela é usável sempre, por quem deseje fazê-lo.

Dela serviam-se Augusto Comte (criador do Positivismo e de republicanismo de liberdades) e seus discípulos franceses, bem como os brasileiros, cuja grei emprega-a até ao presente.

Uma vez instaurada a república no Brasil, Carlos de Laet, monarquista e católico (e por isto, duplamente hostil à república laica), verberou o substantivo “saúde” na locução. Segundo ele, tudo estava errado na república brasileira, até a adoção daquela palavra naquela fórmula, em cuja defesa o então chefe do Positivismo brasileiro, Miguel Lemos, na publicação de número 103 do Apostolado Positivista do Brasil (1890), excertou o Dicionário de sinônimos da língua francesa, de Lafaye: “Saúde [salut] e saudação [salutation] vem do latim salus, saúde, de salvere, estar de boa saúde, de modo que o saúde [salut] ou a saudação [salutation] consiste em dizer esteja de boa saúde, bom dia, ou a desejar boa saúde.” (Tradução minha).

            Esclarece Lemos: “[…] a referida fórmula foi sempre assim vertida em nossa língua, tanto em Portugal como no Brasil, e de um modo equivalente em espanhol e italiano […]”; até em inglês (Healt and Fraternity).

            Prossegue:

            A fórmula republicana — saúde e fraternidade —  é uma das mais bem inspiradas e construídas. Ao passo que o primeiro termo significa o voto que fazemos pela conservação física da pessoa a quem nos dirigimos, o segundo exprime o grau de simpatia que deve unir todos os cooperadores do bem público, todos os cidadãos de uma mesma pátria, e mesmo todos os homens, pois tal harmonia moral é a suprema aspiração do progresso humano. Compare-se conscienciosamente a sugestiva e nobre concisão desta fórmula com os estilos antigos em que predominavam os protestos empolados e hipócritas, sem falar na invocação que neles se fazia de Deus, e reconhecer-se-á a superioridade daquela sobre estes.

            Por iniciativa do então vice-chefe do Apostolado Positivista do Brasil, Raimundo Teixeira Mendes, junto ao então ministro do Exterior e interino da Agricultura, Quintino Bocaiúva, foram abolidas (em 16 de novembro de 1889) as fórmulas teológicas na correspondência oficial (de que era corriqueira “Deus guarde a V. Excia.”)  e os tratamentos imperiais que marcavam vários graus de vassalagem. Em substituição a eles instituiu-se o tratamento republicano, na segunda pessoa do plural (vós) e a fórmula “Saúde e fraternidade”.

            A segunda pessoa do plural é riqueza de nosso idioma, válida na comunicação cujo destinatário é plural: dois ouvintes, dois interlocutores, dois destinatários ou mais. Digo a um, a você: digo-lhe; digo a um, a tu: digo-te. Digo a dois, a vós: digo-vos. O meu, o teu, o nosso, o deles, o vosso (de vocês). Falo com duas pessoas: falo com vocês, falo convosco. Agradeço ao público: agradeço-vos por vossa atenção.

Em geral e infelizmente os brasileiros carecem de desenvoltura na conjugação da segunda pessoa, ao revés do que se passa em Portugal. Ela não constitui lusitanismo, não manifesta pedantismo nem é difícil.  É belo recurso do idioma (também) dos brasileiros que, ao ignorarem-na, privam-se de enriquecer sua comunicação, de diversificá-la e de usarem-na com acurácia. Usemos a segunda pessoa do plural !

            O vocábulo “saúde” à guisa de saudação é de uso secular, como se evidencia por ofício de 1281, em que el-rei de Portugal exprimiu: “D. Dinis, pela graça de Deus Rei de Portugal e do Algarve. A todos los (sic) Alcaides e Comendadores e Meirinhos e Alvazis e Juízes e Justiças do Reino, Saúde.” Na mesma linha Alexandre Herculano aplicou-o amiúde em seu romance Eurico, o presbítero em que, em missivas, deparam-se-nos dizeres como “Ao Duque Teodomiro, saúde”, “Ao gardingo Eurico, saúde”.

            O padre Antonio Vieira, no sermão de S. Lucas, ensinou: “A palavra salutaveritis deriva-se da saúde, salus: e é o mesmo que desejar saúde àquele com quem se fala […] o verdadeiro saudar, é dar saúde.”

João Ribeiro, magno filólogo brasileiro, em sua Seleta Clássica, concluiu pela vernaculidade de saúde, fundamentado em certo passo do quinhentista Amador Arrais. O mesmo resultado alcançou Jaime Cortesão, prolífico historiador português, em seus Subsídios, à luz do documentário contido em Portugalie Monumenta Historica (recolha publicada de 1856 a 1917, que coligiu textos portugueses seculares, de autores, de leis e costumes, de diplomas e cartas) em que saúde,polissemicamente, ora comunica saudação, ora estado hígido.

Na sua famosa Réplica (1904) Rui Barbosa increpou a tradução do substantivo “saúde”: estaria bem “saudar”. Na verdade, usou questão semântica para imputar pecha de maus tradutores aos positivistas, adversos à sua política financeira e que lhe negavam prioridade na autoria do projeto de laicização do estado brasileiro, devida à iniciativa do positivista Demétrio Ribeiro. Em seu ânimo de hostilizá-los com qualquer pretexto, Rui teria reprovado por arcaico o termo “saudar”, fosse ele o usado, assim como desabonou “saúde” por (alegadamente) mau vertido.

“Saúde” equivale a saudação e a higidez. “Saúde e fraternidade” é fórmula assaz oportuna, em meio à pandemia: fechar as comunicações com votos de saúde e fraternidade

(1) exprime desejo de que o destinatário esteja saudável, sem sintomas de covid19 ou dela já curado;

(2) transmite-lhe saudação, cumprimento, que veicula cordialidade ou, no mínimo, atenção e urbanidade;

(3) comunica-lhe voto de fraternidade, de bons sentimentos do autor da mensagem para com ele, propícios à harmonia entre as pessoas, ao entendimento, à colaboração, à empatia, à simpatia. O emitente confessa-se fraternal, disposição sempre desejável.

(4) É inteligível como exortação para que o destinatário inspire-se na fraternidade e com ela desenvolva suas relações familiares, cívicas e sociais. O emitente sugere-lhe a fraternidade.

(5) É interpretável como norte da atuação do homem público, quando empregada em documentos oficiais: ele confessa-se fraternal no exercício de suas funções, destinadas a outrem e ao bem público; o governante (em tese) exerce seus poderes e cumpre com seus deveres animado por sentimento amoroso em relação aos governados.

Voto republicano e solidário, castiçamente plasmado, “Saúde e fraternidade” tem especial valor nesta fase de pandemia. Podeis adotar esta fórmula no vosso cotidiano, entre amigos, familiares, colegas, estranhos, chefes, subordinados, em correspondência comercial, oficial, familiar, amistosa, cerimoniosa. Historicamente significativa, ela pertence (também) à tradição nacional, é usável no presente e sempre.

Aqui me fico e auguro-vos saúde e fraternidade.

LEMOS, Miguel. A formula — Saúde i fraternidade. Rio de Janeiro: Apostolado Positivista do   Brasil, 1890.

LINS, Ivan. História do Positivismo no Brasil. Brasiliana, volume 322. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1967, p. 351-2. Acessível em PDF por aqui: https://bdor.sibi.ufrj.br/bitstream/doc/369/1/322%20PDF%20-%20OCR%20-%20RED.pdf

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