Rubem Braga: um advogado que nunca foi

Capa do livro publicado no ano do centenário de nascimento de Rubem Braga (1913-1990).

Recebo do professor René Dotti um exemplar, em capa dura, das “200 Crônicas Escolhidas” de Rubem Braga (Record, 506 páginas). É um mimo do eminente jurista. Ele me tem em alta conta e tenho orgulho em dizer que é recíproco. A edição que me chega às mãos é comemorativa dos 100 anos de nascimento do cronista, que nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, em 1913 e morreu em Copacabana, no Rio, em 1990. Era um “fazendeiro do ar” como tratou de definir Paulo Mendes Campos e replicar o poeta e amigo Carlos Drummond de Andrade. Advogado formado pela Faculdade de Belo Horizonte em 1932, Braga advogado nunca foi. Militou no jornalismo, foi correspondente de guerra e seria militante do partido comunista caso não fosse este um clube que o aceitasse como sócio.

Em tempos de paz, vivia ele, no alto de sua cobertura, rodeado de árvores frutíferas, plantas ornamentais, flores e passarinhos, que eram também, entre outros, temas de suas crônicas.

Não era um homem do alto do castelo. Pelo contrário. Vivia rodeado de amigos. Alguns surpreendentes como o vampiro curitibano Dalton Trevisan que, aliás, escreve a nota final do livro. Logo ele o mais ilustre dos nossos reclusos.

Follheando as páginas, oriento-me pelo prefácio de José Castello e trato de reler as célebres “O Conde e o Passarinho”, “Lição de Inglês” e “Ai de ti, Copacabana!”. Castello tem dificuldade em definir a crônica – gênero literário que, afirma ele, é tipicamente nacional. Recorre a dicionários de sinônimos, ao Aurélio e, por fim, à origem histórica do gênero no jornalismo.

De minha parte, prefiro dizer que a crônica está mais para a foto do que para o texto, conquanto nos ofereça o instantâneo do que vê, capta, memoriza e interfere o poeta, pois cronista é poeta, sim senhor. Poeta do cotidiano, onde cronos = tempo.

Sou leitor da Folha de S. Paulo desde o tempo em que o jornal reservava espaço nobre à crônica em seu caderno cultural – a Ilustrada. Ali, pregada verticalmente à esquerda, do topo ao pé da página, revezavam-se semanalmente os textos saborosos de Carlos Drummond de Andrade, Flávio Rangel e Lourenço Diaféria.

Castello afirma que a crônica, enquanto estilo literário, não carece de tempo. Talvez, mas de prazo certamente. Prazo é a mola propulsora da criatividade, o cachorro que late (e morde), o tambor que dita o ritmo das galés, o insuportável alarme da casa ao lado. Como afirmou o escritor inglês Douglas Adams descrevendo um de seus épicos bloqueios literários:  “Adoro prazos. Adoro o barulho sibilante que ele fazem quando passam”. De modo que os cronistas citados acima, Rubem Braga inclusive, eram antes jornalistas, sabedores do que isso significa. “Dê-me um prazo e te darei a guerra e a paz, o amor e o desamor, Capitu e Bovary”.

Braga talvez cumprisse longas caminhadas na orla do mar. Quem sabe à espera do apocalipse descrito em “Ai de ti Copacabana”. A viagem íntima, os mergulhos interiores, a busca do eu introspectivo, porém, só eram permitidos até certo ponto. Quando a sineta batia, e ela batia inexoravelmente, era preciso cumprir o prazo, escrever e despachar a crônica ao seu destino.

Por fim, Castello diz que a crônica como gênero literário nasceu no livro “O Conde e o Passarinho”, o primeiro lançado por Rubem Braga, em 1936 (aos 23 anos). Respeitosamente, gostaria de discordar. Se Machado de Assis não escreveu crônicas que influenciaram decisivamente a literatura de Braga, chame-me José de Alencar. Mas meu juízo conta pouco. Passo a palavra a Dalton Trevisan que, na última linha da nota final, escreve: “Seu lugar, Rubem, é na mão direita do nosso Machadinho”.

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