Em Avilã é assim: não há culpados. E se existem, todos são inocentes

Em Avilã é assim: réu nenhum é culpado. Não confessa o crime, como não reconhece o óbvio, nem sob tortura. Vai negar até o fim e, sistematicamente, vai “repudiar com veemência” as acusações. É engraçado, mas parece existir um pacto entre eles. Todos, simplesmente todos, são inocentes. Eu não fiz nada errado e sei que você também não fez. Mas, se você me dedurar, vai se haver comigo! Agora, naquele reino, políticos corruptos são caçados (sic), um por um, como coelhos assustados. Virou um pandemônio. Primeiro, vem a fase da indignação, da negação pura e simples dos malfeitos. Como podem eles, cidadãos de bem, acima de qualquer suspeita, que há décadas vinham sendo eleitos pelo voto popular, podem agora ser presos assim, sem mais nem menos, como reles bandidos, e desgarrados das gordas tetas, digo, dos altos cargos que ocupam, alvo da sanha arbitrária de um juizeco indomável? Ora, é tudo mentira! São invencionices dos órgãos investigadores, ilações apenas, sem qualquer embasamento fático.

Quer dizer, então, que setenta delatores, os empreiteiros da mesma empresa, estão pedindo desculpas à nação por nada? E desembolsando alguns bilhões de dracmas (moeda de Avilã) como compensação pelos prejuízos causados ao reino naquele “doloroso episódio”… e denunciando os calhordas pelos incalculáveis desvios de dinheiro público… Quer dizer, então, que todas essas testemunhas estão conluiadas e mentindo, fantasiando, com o objetivo único de prejudicar esses abnegados políticos?

Meu amigo Roger, embaixador de Avilã, sempre me faz recordar uma foto antiga de alto dignitário do governo avilão, a qual foi estampada nos jornais do mundo inteiro, em que o sujeito aparecia no cárcere, com o braço esquerdo alevantado e punho cerrado, em sinal de protesto e de arrogância. Depois de algum tempo no xilindró, depois de limpar muita privada e fazer faxina no presídio, o canalha foi baixando a bola, foi se calando, foi amansando, até cair no merecido ostracismo.

Roger me conta ainda casos incríveis da corrupção generalizada em seu reino. O fato mais curioso é o daquele ex-governante que continua dizendo que nunca percebeu nada de errado, em seu mandato; que não sabia de quadrilha nenhuma e desconhecia “supostos” esquemas fraudulentos contra o erário, mas no entanto ele próprio encheu as burras com dinheiro da propina que serviu também para enriquecer, num passe de mágica, toda sua família. Como conseguiu esse milagre de amealhar tanta grana e tantos imóveis, em tão pouco tempo, ele não sabe explicar. Ah! Parte de sua fortuna deriva de polpudos honorários (pois não tem complexo de vira-lata…) por supostas palestras que ele nunca ministrou ou, pelo menos, jamais comprovou. Até parece aquele história de comparsas dele, que acumularam fortunas com imaginárias consultorias, que tentaram comprovar com textos esdrúxulos e desconexos, plagiados infantilmente da internet. É isso! Deve ser conspiração dos invejosos ou da oposição…

“O reino de Avilã está falido! exclama meu amigo, com a voz embargada de compaixão. Meu povo é vítima de uma complexa e extensa rede de suborno, lavagem de dinheiro com empresas de faixada”. (Seus olhos refletem um ódio infinito aos saqueadores da república). “Vejam só que desfaçatez! prossegue ele. Agora, depois de tudo isso, para reerguer o Estado, os políticos estão propondo a extinção de insignificantes auxílios aos miseráveis, como restaurantes populares, subsídios do transporte público, reforma atabalhoada da aposentadoria, além de outras medidas danosas à população de baixa renda. Entretanto, nesse plano de salvação nacional, não tiveram nem sequer a decência de mencionar um possível quinhão de sacrifício por parte da classe política; da extinção – ou ao menos da redução – de  suas mordomias, como apartamentos e carros oficiais, uma orgia de cargos comissionados, verbas de gabinete, passagens aéreas, auxílio-gasolina, auxílio-moradia, auxílio-banquetes etc. Não têm pudor de continuar sustentando, cinicamente, a inexplicável aposentadoria de deputados estaduais e federais e de senadores (é que Avilã adota um sistema político híbrido), com um tempo mínimo e ridículo de ‘trabalhos’ prestados à nação”.

– “E no Brasil, perguntou Roger, aflito, como é que as coisas andam por aqui? Não é verdade tudo isso que a imprensa internacional tem noticiado… ou é?”

 – “Olhe, meu amigo – disse eu –, você veio para o Brasil, em férias, a fim de espairecer. Então, é melhor mudarmos de assunto”. E fomos tomar um cafezinho e falar sobre futebol.

Entretanto, quanto às empreiteiras e políticos corruptos da longínqua Avilã, coitados, morro de pena deles. Devem ser todos uns pobres injustiçados!

*Albino Freire. Escritor

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