Raios duplos: o vício do duplo sujeito e as trapalhadas da Gazeta

O professor de História do Direito (Uninter), Arthur Virmond de Lacerda, certamente não faria objeção ao velho reclame:

“Veja ilustre passageiro
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem a seu lado
E, no entanto, acredite
Quase morreu de bronquite
Salvou-o o rhum creosotado”.

Há dois sujeitos descritos no texto e nenhuma confusão acerca deles. Salvou-os o bom português.

Em seu blog www.arthurlacerda.wordpress.com (leia post aqui), o professor costuma demolir (para usar uma expressão delicada), espinafrar, espezinhar e quase cobrir de vitupérios aqueles jornalistas, escrevinhadores, escribas, advogados, acadêmicos que fazem da duplicidade do sujeito no português brasileiro uma praga idiomática.

Me pego rindo de algumas pérolas que o professor colhe na leitura dos jornais. Um riso amarelo, diga-se, porque eu mesmo devo ter feito dessas.

Exemplos:

“Polícia Militar de PE muda edital de concurso e passa a aceitar transgêneros na corporação”

(O sujeito ‘corporação’, assinala ele, é totalmente dispensável).

“Produtores jogam tomate fora após queda do preço da fruta”

(De novo, o sujeito fruta – sim, tomate é fruta – é porcaria apensada. Pior, causa confusão: que fruta? Tomate é fruta? Não é legume? Percebe? Não seria necessário o duplo sujeito a atarantar até o estúpido que ignorava que tomate é fruta – eu, eu, eu!).

O professor Arthur vai mais fundo. Mexe com o orgulho da província, a “Gazeta do Povo” (agora só na versão digital), especialmente porque um jornal acostumado a fazer farrapos de nossa inculta e bela, a língua portuguesa:

“Galileu escreveu livros, sendo importantes os do astrônomo

“Oração pelos irmãos mexicanos: furacão atingirá o país hoje”

(Que astrônomo? Que país?).

“Cobra achada no Barigui; ofídio não é perigoso; vertebrado foi capturado; serpente foi levada embora”

(Se o caro leitor não caiu na gargalhada, consulte imediatamente um médico).

O último exemplo não é literal, observa o professor, mas é quase. E não está longe, de maneira alguma, dos títulos e dos destaques de primeira página perpetrados pelo jornal em sua longa história. Posso provar, eu trabalhei na Gazeta.

Na redação, os assassinatos do português ultrapassavam o vício do duplo sujeito. Era comum a inversão da frase, iniciando-se o título com o verbo para resultar em construções surreais.

Um caso:

“Finda hoje: feriadão de Natal”

Dois:

“Deixou 300 desabrigados a chuva em Curitiba: calamidade”

O verbo “findar” era o preferido dos editores porque cabia em títulos de página inteira que deveriam ter, obrigatoriamente, 36 toques. Assim, caso a manchete “Prazo de inscrição no Enem termina amanhã” ultrapassasse o tamanho determinado, seria escrita dessa maneira: “Prazo de inscrição no Enem finda amanhã” ou então assim: “O prazo de inscrição no Enem finda amanhã”. A inclusão do artigo definido fecharia o número exato de toques.

Ao editor cabia cumprir rigorosamente as marcações dos paginadores. Três linhas de doze caracteres eram três linhas de doze caracteres. Houve uma vez em que o paginador, por erro ou distração, anotou “três linhas de dois caracteres” ao marcar os títulos de uma coluna de turfe. O editor não se incomodou. Escreveu, obediente: “GP no JC”, o que traduzindo significava Grande Prêmio no Jockey Club”. É tudo verdade.

Está nos arquivos e nas coleções de jornais das bibliotecas. As que levam a sério o ramo, ao menos. A Gazeta, no início da década de 90, estampou em manchete uma ficção. O suposto incêndio em um orfanato que não ocorreu de fato, somente na telenovela das seis da tarde. Os motivos alegados não convenceriam. A trama se passava em Curitiba e era exibida pela Globo, cuja afiliada pertence ao grupo que imprime (imprimia) o jornal.

GAZETA 1

Em São Paulo, o diretor de redação da TV Bandeirantes, Fernando Mitre, espumou de raiva. Primeiro ao cobrar a matéria dos correspondentes em Curitiba. Depois, por saber que tudo não passava de uma fake news de um jornal que, apesar de ser o mais vendido na capital paranaense, era dado a estultices.

Tanto que foi vítima de várias peças. Uma delas, perpetrada segundo informações extra-oficiais por repórteres da sucursal do Jornal do Brasil. Dizia respeito a um caroço de abacate afrodisíaco (veja abaixo). A Gazeta estampou a notícia em chamada na primeira página e detalhou-a nas páginas internas, em edição que foi às bancas em abril de 1994. Depois disso, a Gazeta do Povo e  o jornalismo paranaense só fizeram declinar. Com louvor.

Gazeta 2

compartilhe

Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no twitter
Twitter
Compartilhar no linkedin
LinkedIn
Compartilhar no email
Email

Leia também:

Dura vida de advogado

A mesma Folha de S. Paulo que anunciou, equivocadamente, a morte da monarca da Inglaterra, na manhã de segunda-feira – “Rainha Elizabeth

Um painel para sempre

Há seis meses, a Associação dos Condomínios Garantidos do Brasil (ACGB/Vida Urbana) inaugurou um painel de azulejos em homenagem aos profissionais da