Querido diário… 31 de julho de 2020. Personalidades do direito, Cristiano Dionísio e o labirinto do Minotauro da Gazeta

Não faz muito, jornal de respeito era aquele que embrulhava peixe ou forrava gaiola de periquito (antes ou depois da leitura).

Era no jornal impresso, porque impresso, que as palavras travestidas de informações, opiniões, entrevistas, eram registradas e devidamente documentadas.

Para quem viveu esse período, e somos todos do século passado, à exceção das crianças e adolescentes (abençoai-os) , ler jornais na internet – com todas aquelas possibilidade de atualização e de correção de erros, de modo que a mesma  notícia que você leu de manhã possa não ser a mesma da tarde ou da noite – exige um esforço  muito próximo dos 12 trabalhos de Hércules.

Está certo, o jornal não é mais o papiros da eternidade (creio que nunca foi), porém preserva aquela aura de respeito que o noticiário na internet aspira, mas não conquista.

Digo tudo isso para anunciar um novo projeto. O Diário Indústria & Comércio, agora em formato berliner, em parceria com a Editora Bonijuris está lançando uma série de entrevistas (na verdade, perfis) com profissionais do Direito.

Serão textos de fôlego e de viés literário, publicados quinzenalmente no jornal em páginas duplas – o dia da semana está por ser definido.

A estreia ocorre com o professor e coordenador do curso de Direito da UniDomBosco, Cristiano Dionísio, que suportou com paciência e generosidade, três horas de entrevista com este escriba.  O resultado você lerá (nas páginas impressas do jornal).


Coincidência ou não, eu e o Dionísio trabalhamos no mesmo jornal ou grupo de comunicação (a Gazeta do Povo), em igual período. Ele no departamento jurídico. Eu na redação. Nunca nos encontramos. A explicação é labiríntica e isso não é uma metáfora. A redação do jornal ficava localizada na Rua Pedro Ivo, centro de Curitiba, no que chamávamos de Barracão, abrigando 100 jornalistas ou mais no piso superior e os gráficos e suas implacáveis rotativas no térreo. Era possível acessar o departamento jurídico, as lojas de classificados do jornal, os recursos humanos ou as salas da diretoria contornando o prédio até a entrada principal, na praça Carlos Gomes. Mas esse era o caminho dos fracos.

A porta do labirinto, que ligava os dois prédios, era a prova de fogo. Era o momento em que os homens distinguiam-se dos meninos, que os destemidos alcançavam a coroa de louros , a espada da glória ou fracassavam lutando. Pouco importava se o piso de madeira rangia, se as portas pareciam levar a lugar algum ou se as escadas eram interrompidas por uma parede de tijolos. Certa feita alguém encostou o ouvido em uma delas e, do outro lado, escutou uma vozinha rouca e débil dizer: “São dez horas e tudo vai bem”. Conferiu no relógio e era mesmo.

O desafio quase intransponível era a passarela suspensa. Uma estrutura cúbica, cuja extensão era de 10 ou 15 metros, semelhante em aparência às pontes sanfonadas de embarque nos aeroportos. Ladeada de vidros e por onde , não raro, o sol batia, a passarela oferecia uma visão inusitada aos que por ali se arriscavam.

De um lado casinhas de quartos pequenos e paredes úmidas, algumas delas sem teto. De outro, uma profusão de varais de roupas. Você sabia que estava no caminho, porque havia rastros indeléveis no piso emborrachado  e, se não me engano, dois ou três esqueletos de jornalistas que não chegaram lá, mas era inacreditável que tudo aquilo estivesse dentro de um prédio.


Há quem diga que a direção do jornal fez más escolhas, que sua linha editorial capenga em um conservadorismo católico delirante e que sua decisão de extinguir o impresso e tornar-se digital quando todos os principais diários das capitais brasileiras ainda resistem, enterrou de vez a reputação do jornalismo paranaense.

De minha parte, digo que que a Gazeta inaugurou o bullying contra veículos de comunicação. E isso quando a expressão nem era comum e muito menos a vítima era um jornal.

Para os maldosos, afinal era bullying,  o lema “Não me venha com notícia” deveria estar no cabeçalho do jornal e quando, enfim, a Gazeta publicava informação relevante, dizia-se que cometera um “lapso de imprensa”. As piadas nasciam dentro da própria redação, não se engane.

Quando a Gazeta decidiu exigir exclusividade de seus profissionais, cometeu o lapso (outro) de abrir uma exceção: eles (os jornalistas)  poderiam dar aulas. Pois sim.

Diferente do Direito, cujo profissional que é advogado e professor inspira respeito e reverência de seus pares e alunos, o magistério no Jornalismo é uma maldição, um estigma, coisa do capiroto, do cramunhão.

Dizem que quem não sabe, ensina e isso parece valer especialmente para jornalistas. Há um dedo agora mesmo apontado para o nariz de um deles.

No caso da Gazeta, a coisa ia além. Quem não sabe, ensina, e aquele que não faz uma coisa nem outra vira diretor de redação do jornal. Quaquaquá. Maldade, mas que revelou-se um amargo prenúncio.. A Gazeta enveredou por um caminho mais labiríntico do que o labirinto de suas dependências, recentemente foi incluída na lista de veículos de comunicação que divulgam notícias falsas (uma acusação injusta, mas que marca a ferro quente) e o resto é história que ainda está por ser contada.


O fastio do Oilman ou o personagem que não acaba mais.

O Oilman foi devolvido ao calçadão da XV por obra e graça de seu criador. Agora, além da indefectível sunga, ele exibe máscara de proteção na mesma cor. Parece nostálgico, porém evoca mais aquele verso de Dalton Trevisan (que, aliás, aos 95, vai muito bem obrigado): “Senhor, livrai-nos dos chatos”.

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