Quem derruba monumentos não é iconoclasta. É bocó

Favor não confundir o movimento político-religioso que se insurgiu contra a veneração de ícones e imagens religiosas entre os séculos VIII e IX, origem do termo iconoclastia, e essa nova onda que corre por aí.

Em 2015, durante uma onda de protestos contra a violência policial nos EUA, vândalos picharam o Lincoln Memorial com a expressão “racista”. O assombro foi geral, afinal tratava-se do presidente que levou o país a uma guerra civil em nome da abolição da escravatura.

Reprovável o vandalismo sob qualquer ângulo, isso não quer dizer que houve um erro histórico. Lincoln considerava uma imoralidade a posse de seres humanos, mas jamais colocou brancos e negros no mesmo patamar. “Há uma diferença física entre as raças branca e negra que creio para sempre as impedirá de viver juntas em termos de igualdade social e política. Enquanto estiverem juntas deve haver as posições de superior e inferior, e eu, tanto como outro homem, sou favorável a que a posição superior seja atribuída à raça branca”, declarou ele durante campanha ao senado, em 1859, da qual saiu derrotado.

Por isso, é preciso analisar o contexto histórico antes de sair espalhando perdigotos por aí. O professor de direito Arthur Virmond de Lacerda tem dedicados vários artigos publicados no site da Editora Bonijuris (links abaixo) para discutir essa questão de forma ponderada. Ponderação, aliás, é a palavra.

Platão sustentou em “A República” que as mulheres não poderiam sobrepujar os homens em qualquer atividade humana, Aristóteles era um escravagista de carteirinha e o Velho Testamento descreve com tintas de pecado inominável a prática do homossexualismo e da prostituição (Sodoma e Gomorra etc).

É fácil ver onde isso vai dar. Gandhi, até ele, anunciou à mulher a decisão de abster-se do sexo, esquecendo-se de avisar, entretanto, que a regra só valia para ela. A sanha de derrubar monumentos de tempos em tempos parte do princípio de que todas as personalidades para as quais foram erigidas estátuas devem ser historicamente imaculadas. Se esse é o raciocínio (bocó sem sombra de dúvida) nem mesmo os santos das igrejas escapariam.

Em 1968 e, depois, em 2014, como relata Virmond de Lacerda, estudantes da UFPR arrastaram pelas ruas de Curitiba o busto do ex-reitor da universidade Flávio Suplicy de Lacerda, sob o argumento de que ele apoiara a ditadura. O busto sumiu, foi sequestrado, ninguém sabe, ninguém viu, exceto os estudantes que condicionam à devolução da peça a uma “ampla discussão”.

É fácil ver onde isso vai dar. Na mesma obsolescência programada que fez com que estudantes bocós e jornalistas idem queimassem revistas de uma edição de “Veja” que trazia reportagem de capa desmascarando Che Guevara, ídolo de dez entre dez… bocós. Eu jamais derrubaria uma estátua do líder guerrilheiro. Sim, há que endurecer, mas sem perder a ternura jamais.

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