Porta dos Fundos só pecou por humor à moda antiga

Eis o próximo especial de Natal do “Porta dos Fundos”: um presidente de associação de flanelinhas, filiado a um partido de direita, atira um coquetel molotov na produtora, alegando motivação religiosa, e foge para a Rússia (ex-URSS), onde até pouco tempo grassavam comunistas, supostamente de esquerda, e ateus.

Claro que se faz humor com Cristo. E com Buda, Alá e Moisés. Liberdade de expressão é isso, liberdade de pensar idem e livre pensar é só pensar. Richard Dawkins, um ateu convicto e militante, repudia o ensino de religião nas escolas. Diz que isso é um ato comparável à violência infantil etc etc. Inculcar no “pirralho” (ops) que Deus existe é por si só uma afronta moral, com todas as culpas, admoestações lógicas e privações racionais que isso acarreta.

“Porta dos Fundos” tem satirizado deus (o pai, o filho, o espírito santo) e o diabo na terra do sol com teimosa assiduidade desde que a trupe ganhou as primeiras curtidas na internet. Por que só agora provocou reações de supostos fundamentalistas? Sim, são outros tempos, mas da política, não da religião. Em 2018, o especial natalino do “Porta dos Fundos” foi igualmente protagonizado por Jesus, então às voltas com a última ceia. Reações? Lhufas.

Se há algum senão ao programa mais recente, o motivo passa longe da religião. Jesus gay? Maria infiel? Deus voyeur? Diabo bofe? Ora, ora.

É tudo o que Gregório Duvivier negou em entrevista à Veja, em setembro de 2019. A piada à moda antiga. Disse ele referindo-se às tentativas de Bolsonaro de fazer rir. “Os saudosistas do humor do passado estão muito bem servidos com o presidente”.

“Há uns quinze anos, quando comecei, os alvos dos humoristas eram os mesmos da polícia”, prossegue ele. “Ria-se de pobres, negros, nordestinos, homossexuais. Para o bem geral da nação, isso mudou…”. Não mudou não, Duvivier. No especial natalino mais recente, “Porta dos Fundos” satirizou pobres, negros, nordestinos e, em especial, os homossexuais.

Duvivier é politicamente correto e diz que essa postura não reprime o humor. Ao contrário, “obriga o humorista a encontrar caminhos mais inteligentes para fazer rir”. Fazer piadas com gays, segundo o ator (que interpretou Jesus), não seria um caminho inteligente, mas foi justamente esse caminho que o “Porta dos Fundos” trilhou. Assim, à moda antiga.“Nosso trabalhou ficou certamente mais duro na era do politicamente correto, mas ninguém escolhe fazer humor porque é fácil”. Nem sempre, Duvivier. Foi um caminho fácil. E, aliás, sem graça.

FOTO: DIVULGAÇÃO

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