Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil antes de 1500? Relatos indicam que sim

Quanto a Pedro Álvares Cabral parcamente se conhece: nasceu em 1467 ou 1468; em 1479 foi enviado para a corte, onde recebeu educação em humanidades e armas; em 1484 D. João II fê-lo moço fidalgo[1]; três anos após, el-rei D. Manuel reiterou-lhe tença outorgada por seu antecessor, el-rei D. João II (falecido em 1495); na mesma altura ingressou no conselho real e tornou-se cavaleiro da Ordem de Cristo; viajou em 1500 para o que veio a ser o Brasil e para a Índia; enjeitou o comando (em 1502) de outra expedição para a Índia ou D. Manoel retirou-lhe a invitação de comandá-la; de então por diante foi marginalizado; casou-se em 1503; retirou-se para o Ribatejo, onde morreu em 1520.

De sua indústria na expedição de 1500 dão conta, até certo ponto, Pero Vaz de Caminha em sua célebre missiva a el-rei D. Manuel e um dos pilotos (anônimo) da armada, autor de extensa relação de toda a viagem. Rareiam documentos acerca de Cabral, virtualmente perdidos ao longo de sucessivos sinistros: incêndio de Lisboa (1570), batalhas da restauração portuguesa (1640), terremoto de Lisboa (1755), invasões francesas (1808), incêndio do solar dos Cabrais ou do castelo de Belmonte (ou ambos) em que ardeu o arquivo da família (após o regresso de D. João VI para Lisboa, em 1821).

Algumas circunstâncias de sua vida e de seu tempo justificam importante ilação: ignora-se qual lhe haja sido a atuação cívica ou de qualquer natureza, anterior a 1500; D. Manuel (em 1497) mantém mercê financeira atribuída aos irmãos João Fernandes Cabral e Pedro Álvares Gouveia[2] por seu antecessor (D. João II) que, por sua vez, morrera em 1495. Logo, até este ano ambos haviam se distinguido por serviços que o rei galardoou e que o monarca seguinte confirmou. Cabral prestou serviços cívicos anteriormente a 1495 e possivelmente no intervalo entre tal ano e 1500.

Vigia, então, política de sigilo relativamente a tudo quanto se relacionasse com as navegações: conhecimentos de cartografia, geografia, náutica, astronomia, construção naval eram mantidos em rigoroso hermetismo na alta administração portuguesa, como segredos de Estado, enquanto D. João II prosseguia explorações secretas nos mares atlânticos. Conhecem-se as navegações coevas ao infante D. Henrique, o Navegador, na costa da África, a de Bartolomeu Dias até o extremo meridional africano (1488), a de Vasco da Gama (1497) até a Índia, a de Cabral, bem como as de Cristovão Colón, empreendidas a serviço ostensivo dos reis espanhóis, mas secretamente agentes da dissimulação encabeçada pela coroa portuguesa[3].

Há três fatos certos: 1) D. João II recompensou Cabral, 2) no reinado deste monarca prevalecia hermetismo quanto às navegações, 3) Cabral comandou importante esquadra, destinada a entabular relações diplomáticas com os soberanos indús e a instaurar feitoria portuguesa na Índia.

A missão de Cabral correspondia ao culminar de décadas de explorações marítimas empreendidas persistentemente, como programa de governo e realização nacional, promovidas por sucessivos reis: D. Dinis, o regente D. Pedro, D. João II e D. Manoel, e também pelo infante D. Henrique. A que Cabral comandou foi a mais importante frota organizada pelos portugueses, à luz da política diplomática, mercantil e religiosa de Portugal[4]. Já não se destinava a explorar os mares nem a aprender caminhos, senão a instituir vínculos comerciais e de amizade internacional. A responsabilidade de Cabral era náutica, como chefe da esquadra; militar, porque apto a atuar belicamente; diplomática, pois atuava como embaixador do rei português; comercial, posto que encarregado de iniciar a importação de especiarias.

Para desempenhar-se nestes múltiplos aspectos seria preciso alguém à altura, dotado de tirocínio, determinação, tato e superior perícia náutica: Cabral capitaneava a embarcação em que viajou e chefiava todas treze, e bem cumpriu sua missão como navegador, diplomata e combatente.

Seria absurdo admitir-se que o rei houvesse confiado o comando de tão importante missão a navegador bisonho, inexperiente na vida marítima. Somente marinheiro bastante traquejado mereceria a confiança do rei para chefiar treze velas em viagem longínqua e de magna relevância. Assim como a pilotagem de aeronave exige formação específica e treino suficiente, assim ao comando de navio é inerente a condição de marinheiro com experiência à altura. Jamais D. Manuel teria investido na chefia da frota alguém alheio à náutica, marinheiro novato, carente de excelência náutica que não houvesse, precedentemente, navegado e provavelmente comandado, por mais assinaláveis que fossem suas virtudes de caráter[5].

Segundo Fernão Lopes de Castanheda[6], Cabral era “experimentado nas cousas do mar”[7]. Não se tornou tal em 1500; ao invés: em 1500 já o era e porque o era comandou a esquadra.

Se Cabral era marinheiro habilidoso; se mereceu recompensa de D. João II (que morreu em 1495); se notadamente ao tempo deste rei e de seu sucessor (D. Manuel) adotava-se apertado secretismo em relação às navegações; se se ignora a atuação de Cabral que o tornou merecedor da recompensa régia e suas atividades até 1500; se nos reinados de D. João II e D. Manuel houve pesquisas secretas no oceano Atlântico, então é verossimíl e provável a conclusão de que a agência de Cabral anterior a 1500  consistiu em explorações marítimas ocultadas como segredo de estado, desenvolvidas antes de 1495 e possivelmente até 1500.

Eduardo Metzer Leone pondera:

[…] repugna-me aceitar a ideia de que Pedrálvares, em 1500, não fosse já um mareante com largos serviços prestados a D. João II, que primeiro o galardoou sem que se saiba porquê — o que me leva à ideia de que esses serviços teriam algo de secreto. E o que havia de secreto na política de D. João II eram as explorações do Atlântico.[8]

Em outro lugar:

Ora D. João II morreu em 1495 e Pedrálvares estava na sua corte desde 1484; entre estas duas datas foram, Pedrálvares e seu irmão primogénito, galardoados pelo Rei sigiloso, por feitos desconhecidos, embora relembrados depois por D. Manuel I, antes de 1500 [em 1497] mas também por este monarca não revelados [o que] muito logicamente me induz a ver um Pedrálvares sigilosamente embarcado no Atlântico […][9]

Ainda: “Pedrálvares era, já antes de 1500, um mareante com bastantes provas dadas em navegações de alto mar […]”[10]. Acresce: “O que me parece deslocado e intencionalmente depreciativo e de todo improvável, é apresentar-se Pedrálvares como necessariamente ignorante de marinharia, quando é certo ele provar durante toda a sua viagem que o não era.”[11] Ele houve-se “no seu comando, quer quanto à navegação quer quanto aos combates — os que trava e os que evita — como um capacitado Capitão-Mor”[12].  

Ignora-se o critério por que D. Manuel elegeu especificamente Cabral como chefe da armada de 1500. Poderia haver escolhido outros navegadores exímios como Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Nicolau Coelho. Em sua viagem, o primeiro (em 1497) avistou aves que voejavam para terras a oeste (na direção do atual Brasil) que, contudo, não inspecionou; o segundo (em 1488) alcançou a ponta sul da África, sem tocar no Brasil; o terceiro (Caminha no-lo atesta) precedeu Cabral em sua vinda ao Brasil.

Antes de 1500, Cabral certamente navegou no Atlântico. Em 1490 havia feitoria portuguesa em Pernambuco, altura em que Cabral contava 22 ou 23 anos. Terá integrado a expedição que a instalou ?

O mapa de Juan de la Cosa, de 1500, exibe minuciosamente toda a costa leste das três Américas e a América do Sul quase por inteiro na sua porção oeste, prova irrecusável de que todo o oceano Atlântico vinha sendo navegado e suas terras mapeadas desde antes. Cabral possivelmente participou de uma ou de mais de uma expedição sigilosa que resultou na ciência documentada por aquele mapa.

Ele recebeu o comando da frota que tocou o Brasil, cujo descobrimento oficializou. Terá sido por que já cá estivera ? Teria vindo com Nicolau Coelho ? Teria sido este chefe de expedição e Cabral um seu integrante ou o inverso ?

Graças à navegação de Cabral divulgou-se na corte portuguesa, para os reis de Espanha e para o restante mundo, a existência das novas terras e sua pertença a Portugal. Desembarcar no futuro Brasil e noticiá-lo à corte correspondeu a uma de suas missões. Recebeu-a por haver sido realmente o pioneiro achador do Brasil, antes de 1500 ? É possível. Por que reconhecesse a costa do futuro Brasil em inspeção minuciosa e sigilosa ? Também é possível. Indubitável é o conhecimento exatíssimo que detinha do trecho da costa baiana que percorreu e onde fundeou, como se já lá houvesse estado[13].


[1] Era título de fidalguia de menor importância.

[2] João Fernandes Cabral era o primogênito, condição em que usava o sobrenome paterno; Gouveia provinha-lhes da mãe. O nome Pedro Álvares Cabral figura por vez primeira na missiva de D. Manuel aos reis de Espanha, em que lhes minudencia o desenrolar de sua viagem.

[3] Cristovão Colón jamais se chamou assim nem era genovês; era português, agente secreto de D. João II. Ele ludibriou os reis espanhóis com o alegado desembarque no Oriente e sempre soube haver aportado na América Central, aliás, já visitada por um proto-nauta de identidade ignota.

Sua atuação serviu para D. João II reivindicar como suas as terras por ele (supostamente) descobertas, por aplicação do tratado das Alcáçovas-Toledo (1479-1480), que dividiu o Atlântico por paralelo. A fim de Fernando e Isabel assegurarem soberania sobre elas, firmaram com Portugal o tratado de Tordesilhas, por que D. João II anelava como resultado imediato da operação desenvolvida por Colón e que manteve a Espanha entretida com ilhas inúteis e impossibilitada de investigar a rota para a Índia, que os portugueses descobriram e que lhes pertencia exclusivamente, como cláusula daquele acordo.

Colón seria filho de Ladislau, rei polaco incógnito na ilha da Madeira. Vide Portugal e o segredo de Colombo, de Manuel da Silva Rosa (Lisboa: Alma dos Livros, 2019).

[4] O primeiro motor das navegações portuguesas foi religioso: visavam a enfraquecer os muçulmanos pela subtração do monopólio que detinham do comércio de especiarias, a propagar o cristianismo, a entrar em contacto com o suposto reino cristão de Preste João (na Etiópia), a converter infiéis. Secundariamente movia-os o interesse mercantil que acabou por prevalecer. Vide: URE, John, Dom Henrique, o Navegador (Brasília: Editora da Universidade de Brasília, [s. d.]), p. 53; WATKINS, Ronald, Por mares nunca dantes navegados (Rio de Janeiro: Editora José Olympio Ltda., 2011), p. 26-28, 41-43.

[5] A versão da inexperiência náutica de Cabral foi: (I) introduzida, indiretamente, por Jaime Cortesão (A expedição de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil, 1922 [1ª edição], Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1994, p. 50-51); (II) repetida por Damião Peres, segundo quem tudo leva “a crer que, anteriormente ao grande feito imortalizador do seu nome, não tinha efectuado outras viagens marítimas além das travessias da minguada distância que de Portugal separa os portos de Marrocos.” (História dos Descobrimentos Portugueses. Porto: Vertente, 1983, p. 327); (III) confutada, judiciosamente, por Eduardo Metzer Leone no seu excelente Pedro Álvares Cabral (Lisboa, 1968), cap. VI.

Diz Cortesão, a propósito da nomeação de Cabral para a capitania da esquadra: “E, se, como tudo indica, não praticara até à data feitos que o impusessem para missão tão espinhosa […]” (p. 50). Cabral teria sido nomeado, consoante o mesmo autor, para contrariar a política de D. João II, de abatimento da nobreza (p. 50): por móvel exclusivamente político e não técnico ou pelo menos não também técnico, de que sequer cogitou Jaime Cortesão por carência de dados que, a contrapelo, ensejou a dedução certeira de Metzer Leone, cujo livro (valioso a vários títulos) merece edição no Brasil.

[6] Historiador português (1500 — 1559), redigiu História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses.

[7] Apud LEONE, Eduardo Metzer. Pedro Álvares Cabral (Lisboa, 1968), p. 125.

[8] LEONE, Eduardo Metzer. Pedro Álvares Cabral (Lisboa, 1968), p. 107.

[9] Idem, ibidem, p. 112.

[10] Idem, ibidem, p. 121.

[11] Idem, ibidem, p. 125-6.

[12] Idem, ibidem, p. 127.

[13] É o que patenteia a análise náutica da missiva de Caminha.

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