Para brasileiro que passeia no parque, vírus letal é o tédio

Dez entre dez membros orgulhosos da classe média que circulam no parque diariamente, levando ou não o cachorro como adereço, têm uma resposta na ponta da língua para desrespeitar as recomendações das autoridades de saúde em meio à pandemia da Covid-19: eles estão entediados.

Nem mesmo a ampla oferta de filmes e livros grátis na internet parece suficiente para convencer os cidadãos que o coronavírus é de fácil contágio – basta um espirro – e, sim, pode matar. Tristes, macambúzios, sorumbáticos, taciturnos, nebulosos, eles julgam que têm o direito a perambular por aí. E sem máscara.

Há um século, o surto de gripe espanhola, que não começou na Espanha mas nos EUA, infectou 500 milhões em todo o mundo em curto espaço de tempo. O número de mortes é um mistério. Estima-se entre 50 e 100 milhões. A imprecisão justifica-se dada a confusão reinante no planeta após o fim da Primeira Grande Guerra que, somada à descrença dos governantes em relação à doença (qualquer semelhança não é mera coincidência), deixou um rastro de subnotificações.

No Brasil, que registrou cerca de 40 mil mortes entre setembro de 1918 e janeiro de 1919, inclusive a do presidente eleito Rodrigues Alves, foi preciso que os corpos de famílias inteiras fossem amontoados nas calçadas para que a população e as autoridades sanitárias enfim acreditassem que se tratava de uma epidemia de consequências funestas. E funéreas.

Hoje, nesse cenário de tanta tecnologia disponível a permitir que as pessoas trabalhem em casa, o que faz esse batalhão de atletas repentinos arriscarem a sorte, em meio à pandemia, quando deveriam estar cumprindo expediente virtual? Se acham que, sem o cartão ponto e o olhar vigilante do chefe, podem dar-se ao luxo de uma escapada, então o vírus do tédio é endêmico.

Mas, claro, há sempre a possibilidade de que haja em meio aos passeadores, um niilista convicto, avesso a tudo o que diz respeito à existência. “Melhor morrer de vodca do que de tédio”, escreveu Maiakóvski. “Antes toddy do que tédio”. Antes o coronavírus do que a insípida vida humana.

FOTO AGÊNCIA BRASIL EBC

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