O que “Ato de Matar” nos diz sobre as eleições 2018?

A Indonésia é aquele arquipélago encravado entre os continentes da Ásia e a Oceania, que acaba de ser inundado por outro tsunami (desta vez com menos vítimas). É também o cenário real do documentário “Ato de Matar” (The Act of Killing, 2012), do diretor Joshua Oppenheimer, e prova irrefutável de que, tal como afirmou um dia o escritor Eric Hoffer, “os movimentos de massas podem surgir e expandir-se sem uma crença em Deus, mas nunca sem uma crença no demônio”.

Veja trailer do documentário

O filme está disponível na Netflix e horroriza desde o primeiro momento em que Oppenheimer nos apresenta seus protagonistas: assassinos de Suharto, o ditador que governou a Indonésia de 1967 a 1998, com manus militari e ódio aos comunistas. Por comunistas, entenda-se: alinhados com Mao-Tsé-Tung, não alinhados, opositores, proto-opositores e denunciados por qualquer circunstância.

Oppenheimer foi chamado à Indonésia, em 2001, para ensinar trabalhadores de uma plantação a produzir seu próprio documentário. Eles estavam dispostos a denunciar as péssimas condições de trabalho e as sequelas deixadas em seus corpos por herbicidas.

Ao começar o trabalho, o diretor se deparou com uma história assustadora. Uma milícia que teria sido responsável pela matança de 500 mil comunistas e imigrantes chineses durante os primeiros anos loucos do governo de Suharto.

“O que descobri foi que todos eles se gabavam abertamente e não só estavam ansiosos para me contar o que fizeram como queriam me levar para os lugares onde mataram e demonstrar como tinham feito”.

Oppenheimer ficou atrás das câmeras e o assassinos se encarregaram de interpretar as cenas sangrentas, assumindo personagens, produzindo histórias inspiradas no faroeste e demonstrando como matavam os “comunistas”. O método comum, que não sujava o chão, era enrolar uma forca de arame no pescoço da vítima e esganá-la.

Oppenheimer concentrou as filmagens em Anwar Congo, por considerá-lo um assassino cuja sombra de culpa pairava em algum lugar. Era uma espécie de açougueiro existencialista. Ele se auto-denominava um “gângster” um homem livre, e até que a o golpe militar fosse desencadeado, em 1965 e 1966, ganhava a vida como cambista de cinema. Comprava bilhetes dos filmes americanos e quando as vendas se esgotavam, oferecia-os aos interessados com um pequeno ganho, um ágio.

Membros do grupo paramilitar Pancasila Youth – até hoje ativo – também fizeram parte do filme. Um deles, roliço e alegre, sujeitou-se inclusive a vestir roupas de mulher para interpretar vítimas e prostitutas. De certa maneira, toda a família de Anuwar foi envolvida. Há cenas medonhas em que uma criança, neto do gângster, chora compulsivamente para cumprir o papel de testemunha da tortura de uma família de opositores.

O “mal” é o comunismo, mas poderia ser o capitalismo. Se a Indonèsia caísse nas garras de Sukarno, o primeiro presidente do país, após a declaração de independência em 1945, no pós-guerra, as cenas de sangue envolveriam os chineses que fugiram do comunismo e qualquer cidadão suspeito de colaborar com o Satã norte-americano.

O que isso tem a ver com a eleição de 2018 no Brasil? Tudo. Agora mesmo, o PT de Haddad se prepara para instalar o clima de ódio contra seu provável oponente no segundo turno, o capitão Jair Bolsonaro, comparando-o com Hitler em um filmete exibido nas redes sociais.

Era esperado, assim como é esperado que Bolsonaro revide e faça ressuscitar a Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina), decantada pelo Cabo Dacíolo.

Se o caro leitor pensa que há aqui algum exagero, desengane-se: ” a destruição da decência moral e a transformação dos outros em animais repelentes é a coisa mais banal do mundo”, como afirma João Pereira Coutinho. Tão banal que inspirou a filósofa Hannah Arendt a cunhar a expressão “banalidade do mal” a propósito das atrocidades nazistas contra judeus.

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