O Psycopathy Checklist aplicado no conto “A Causa Secreta” de Machado de Assis

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Cartaz do filme de Sérgio Bianchi, baseado no conto de Machado de Assis: não veja o filme, leia o conto.

Por que Fortunato do conto “A Causa Secreta”, de Machado de Assis, não atingiu o topo da fama tal e qual Capitu? Ora, antes dos olhos de ressaca da personagem de “Dom Casmurro” (oblíquos e dissimulados) , estavam lá os olhos de chapa de estanho, duros e frios de Fortunato. Nove fora, as outras feições que nunca foram atraentes.

Fortunato zombava das vítimas, zombou daquele que salvou de malta de capoeiras e daqueles que agonizavam na Casa de Saúde que abriu com Garcia, o médico. Ele preferia os cáusticos. “Os cáusticos”. Envenenados sem vida, suicidas mal sucedidos, sorvedores de produtos químicos e ainda aqueles que padeciam com a pele em brasa a derreter-lhe dos ossos, supliciados, esfolados.

Ia ao teatro o tal Fortunato para enlevar-se dos dramalhões “cosidos  a facadas”. Nos lances dolorosos, inclinava-se na cadeira e bebia do melhor e do pior. Ao fim, saía cabisbaixo, “parando às vezes para dar uma bengalada em algum cão que dormia”.

Não se sabe se Machado de Assis conheceu a obra do médico francês Philippe Pinel, o primeiro a estudar a psicopatia e defini-la como algo que estava no limiar da sanidade, uma “mania sem delírio” ou “mania racional”. É provável que sim. Pinel publicou seus trabalhos no início do século XIX. Sua principal obra “O Tratado da Insanidade” foi impresso também na Inglaterra e nos Estados Unidos. Machado lia francês e inglês.

O conto “A Causa Secreta” veio a público em 1885 e nele Fortunato é descrito como um psicopata em franca evolução. Ele não só goza de prazer com a dor alheia. Também estuda anatomia e fisiologia e passa a estripar gatos e cães. Primeiro, em uma sala do hospital. Depois em um gabinete de sua própria casa. O ápice da crueldade se dá em detalhes na narrativa da tortura do rato. O bicho, pendurado por um fio pelo rabo, agoniza com as patas cortadas enquanto Fortunato o queima em um pires flamejante. Por fim, corta-lhe o nariz e abandona o moribundo que havia ousado comer um de seus papéis.

Há muito um professor de literatura de um curso pré-vestibular descreveu Machado de Assis como um “Júlio Verne do inconsciente”. Definitivamente, o escrito era íntimo dos mistérios da alma antes mesmo que as teorias de Freud sequer fossem idealizadas. Fez mais: em “O Alienista”, publicado três anos antes, Machado fez de seu Simão Bacamarte um médico a indagar: “afinal, quem é o louco?”, botando no chinelo teóricos que depois viriam a conquistar fama com o mesmo questionamento, mas em bases empíricas.

Machado compara a personagem a Calígula em seu egoísmo aspérrimo, faminto de sensações. Morta a mulher levada pela tuberculose, Fortunato sequer se dá ao trabalho de derramar uma lágrima. Pública ou íntima.

Ao fim e ao cabo, o sádico saboreia a visão do beijo do médico na defunta. “Não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero”. E de uma dor moral longa, muito longa, deliciosamente longa.

Se Fortunato fosse submetido ao Psycopathy Checklist de Robert Hare, uma ferramenta que avalia as características de um psicopata, qual seria sua pontuação? Difícil precisar Fortunato é falador e charmoso? Pode-se dizer que sim. Egocêntrico? Sem dúvida. Apresenta uma tendência ao tédio? Ele certamente se enfastiou ao receber o agradecimento do empregado do arsenal de guerra. É um mentiroso patológico? Bem, ele se diz um capitalista. É manipulador, um vigarista? Assumiu uma função na Casa de Saúde que não lhe cabia. Apresenta ausência de remorso ou culpa? Ele não parece preocupado com a dor das vítimas, ainda que aparentemente só infrinja dor a cachorros, gatos e ratos (não necessariamente nessa ordem), mas essa é também uma característica de serial killers em início de carreira. Não tem emoções? Sequer as conhece. Falta de empatia? A mulher, Maria Lúcia, que o diga. Estilo de vida parasitário? Não há sinais. Descontrole comportamental, promiscuidade sexual, transtorno de conduta na infância, delinquência juvenil? Trata-se de um conto, não de um romance. Machado não vai a fundo na história pregressa da personagem. Incapacidade de aceitar responsabilidade pelos próprios atos? Ele não vê problema algum em deixar que a mulher assista suas torturas nem parece dar conta do quanto tudo aquilo a deixa doente. Ele se superestima? Certamente se julga superior aos simples mortais. Não padece, por exemplo, de ciúmes. E tem grande prazer com a dor alheia, mesmo que não seja física como aquela que Garcia demonstra no parágrafo final.

Hare estabeleceu o corte para identificar o psicopata em 30 pontos.

Fortunato bateria neles com folga. Talvez os ultrapassasse.

(LEIA AQUI O CONTO “A CAUSA SECRETA” DE MACHADO DE ASSIS).

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