O MST é… anacronismo a dar e vender

Notas para meu diário: uma visita ao assentamento do MST, sábado (29 de setembro), na Lapa (PR), e me pus à vontade para dar aos campesinos – tal como eles se autodenominam – um antídoto para o Che Guevara que eles creem ser um teórico socialista. O verbo “crer” aqui não é gratuito, como se verá adiante.

O antídoto é “Crepúsculo dos Ídolos ou Como se Filosofa com o Martelo”, do alemão Friedrich Nietzche. Só os aforismos do primeiro capítulo já são suficientes para deixar qualquer guerrilheiro bocó nos chinelos.

“Pode um asno ser trágico? – Sucumbir sob um fardo que não se pode levar ou jogar fora? – Caso do filósofo.”

“Como? Você procura? Gostaria de decuplicar-se? Centuplicar-se? Procura seguidores? – Procure zeros!” ou “O ser humano é apenas um equívoco de Deus? Ou Deus apenas o equívoco do ser humano?”

CUBA E VENEZUELA: INVEJÁVEIS

Há mais do que Guevara no acampamento. No vídeo exibido em um teatro para 200 pessoas há também realismo socialista, antiamericanismo cego e ódio à mídia burguesa. Sem esquecer dos apelos a Cuba e Venezuela, como se falássemos de democracias cintilantes ou de civilizações de dar inveja. Cucurrucucu paloma. Ah, sim, a trilha musical é latino-americana.

Aos 34 anos, o MST mudou o foco. Agora aposta em agricultura ecologicamente correta. É uma forma de explicar a baixa produtividade das áreas invadidas e a perda de seguidores para o Bolsa Família na era Lula.

Em 2009, no crepúsculo do ídolo petista enquanto presidente, alardeavam-se números maiúsculos: 68,5% das famílias sem-terra haviam sido assentadas, mas na Amazônia Legal. Longe, portanto, do Sul maravilha, do Sudeste rico, operário e urbano e do Nordeste da indústria da seca, a consumir milhões do orçamento.

Das 448,9 mil famílias a quem o governo Lula afirmou ter doado terras entre 2003 e 2007, 307,5 mil – eis os 68,5% – foram parar no cafundó, em projetos de povoamento na região Norte, além de Mato Grosso e parte do Maranhão.

É difícil ver os militantes do MST, movimento nascido e crescido no entorno dos centros urbanos, assumindo o papel de desbravador do velho oeste americano. Americano do Sul.

A ‘ESSÊNCIA’ DO MST

Ao fazer um balanço das invasões de terra no país, o geógrafo Bernardo Mançano Fernandes, professor da Universidade Federal Paulista (Unesp) e um dos principais especialistas em MST no país, disse então que a “essência” do movimento impedia sua entrada na Amazônia.

De fato. De um total de 2.190 invasões organizadas pelo MST entre 2000 e 2007, apenas 91 (4%) ocorreram no Norte do país. O cenário não mudou desde então. O Bolsa Família também contribuiu para a derrocada do movimento. No fim do segundo mandato de Lula, 89,3% das famílias que carregavam a bandeira do MST trocaram a agrura das peregrinações pelo programa assistencial do governo. Afinal, a principal razão para a adesão ao movimento era econômica. Nada da balela ideológica cantada nos assentamentos.

CEIFADEIRA É TANQUE DE GUERRA

O que impressiona no vídeo exibido no acampamento da Lapa, afora a defesa a uma espécie de retorno ao sistema feudal, é a imagem de uma ceifadeira-colheitadeira vista como tanque de guerra do inimigo, o agronegócio.

Estudantes de geografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) negaram o que era óbvio. Um deles disse “achar” que tratava-se de uma máquina de “borrifar agrotóxico”. Foi acompanhado pelo coro da contestação (irônico, o nome do assentamento é Contestado). Corrigiu-o um dos líderes do movimento. Era mesmo uma ceifadeira. Antes, porém, os estudantes bateram o pé, rolaram e abanaram alguma parte do corpo que não ouso especular.

O verbo “crer”, como prometido, retorna à narrativa. O MST nega assumir posição político-partidária, apesar de ter servido de massa de manobra para ocupar pedágios, prédios públicos, alguns tombados pelo patrimônio histórico, e fechar estradas com pneus em chamas.

SEM PJ, SEM DOCUMENTO

Do ponto de vista jurídico, os sem-terra ferem o direito à propriedade privada e o direito de ir e vir. Mas não respondem por seus atos. O MST não é uma pessoa jurídica. Os recursos que recebem do governo federal (ao menos R$ 45 milhões na última década) e de organizações estrangeiras são depositados em nome de quatro ONGs, todas ligadas à defesa dos trabalhadores rurais. Um escudo perfeito para uma organização que não paga impostos e flerta com a ilegalidade.

É também uma seita na acepção da palavra. Crer é uma obrigação de cada integrante do movimento. Senão como explicar alguma de suas características? A saber:

– A crença de que tudo o que o líder diz é verdade.

– A crença de que é preciso enxergar outra realidade. A realidade definida pelo líder.

– A crença de que todo integrante do movimento não é um indivíduo, mas parte de um todo. Um coletivo.

Detalhe: a maioria dos “fiéis” é atraída em um momento de fragilidade (inclusive econômica).

Por fim, é possível encontrar conteúdo semelhante em um best-seller de auto-ajuda. “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, por exemplo. Ou então em uma brochura mal escrita, assinada por Ernesto Guevara, o Che.

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