O mito da caverna revisitado

Fecho com I.F. Stone – afinal por que não concordar com alguém que, depois de aposentado, dedicou dez anos ao estudo do grego arcaico e da história da Grécia antiga? – quando diz, com ironia, que Platão era um filósofo com pendores teatrais. “O Mito da Caverna” estudado, reestudado e frequentemente acrescido de cenas que não estão lá é um barulhento exemplo. Vide o assassinato daquele que viu a luz por seus companheiros de trevas. Na narrativa nunca ocorreu, mas se é pelo bem da lenda, imprima-se.

Diz Sócrates a Glauco no livro VII d´A República, que ganhou o nome de “O Mito da Caverna” ou “Alegoria da Caverna”:

“E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que os seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se a alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?”

Nenhuma menção a um homicídio.

Sócrates afirma, com tintas didáticas, que aquele que passa da escuridão para a luz ou da luz para a escuridão só deve fazê-lo quando estiver pronto. Se almejar, entretanto, o cume da montanha, na vastidão de conhecimento que contempla, deverá humildemente retornar à etapa anterior para dividir o que apanhou no campo de centeio com os cidadãos sem a obrigação de despertar-lhes o desejo do mundo inteligível.

Há que se concluir (com a mesma fina ironia de Stone), que Sócrates usa o termo justiça para mirar sua condição intolerável de sujeitar-se aos tribunais para combater aqueles que veem leis onde ele vê a miserabilidade humana ou os que não concebem direito ou justiça porque deles são alheios.

Daí a missão daquele que acostumou-se à luz do Sol, daquele que alcançou o mundo inteligível, daquele que Sócrates, com toda pompa e circunstância, chama de bem dotado, em recusar-se a descer até os prisioneiros e compartilhar com eles trabalhos e honras. Notemos o espanto de Glauco:

“Como assim?! Cometeremos em relação a eles a injustiça de forçá-los a levar uma vida miserável quando poderiam desfrutar uma condição mais feliz?”

A resposta de Sócrates, reconstruída por Platão, sempre um autor à procura de um personagem, é a definição perfeita de Estado ou, no caso cidade-estado, cujos habitantes obedientes seja pela persuasão seja pela sujeição, compartilham vantagens que cada classe pode proporcionar desde que a liberdade a eles proporcionada tenha um propósito: fortificar o “laçado Estado”.

Quanto ao filósofo, este não precisará exibir seus dotes perante a gentalha. Ao menos aquele filósofo que, no entender de Sócrates, formou a si mesmo (ele, ele ele!), sendo por isso dispensado do trabalho da vida pública. Já seus discípulos…

Deles exige-se que desçam à morada comum dos humanos e acostumem-se às trevas da vida laboriosa, afirma. Mas,calma lá, animem-se: quando os discípulos se acostumarem à luz enxergarão muito melhor que os outros à sua volta.

É fácil depreender desse ensinamento o que virá depois: o cristianismo, a idade da escuridão, a monarquia absoluta, o senhor feudal e aquele capitalismo que Adam Smith julga ter chamado de seu. É Sócrates nos primórdios da campanha do rei filósofo. Há mais no porvir.

Eis as referências bibliográficas para aqueles que se interessarem pelo assunto: PLATÃO. A “República”. STONE, I.F. “O Julgamento de Sócrates”.

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