O futebol no divã

Torcedores se comportam como tal. Atolados na irracionalidade, na paixão clubística, e no ódio espumante, raivoso, ao adversário. O que não se espera é que cronistas esportivos ajam da mesma maneira. Mas agem. O Palmeiras amargou o quarto lugar no mundial de clubes e os analistas da resenha esportiva acharam por bem desopilar o fígado.

É moda não ser imparcial, ainda que pareça ser o mais correto. Pois que seja. Entretanto, é preciso que tratem o fato com alguma elegância. Aliás, alguns deles se debruçam sobre pranchetas, jactam-se estudiosos e gostam de perscrutar o futebol – sim, o termo é esse mesmo – munidos de um compasso invisível.

Dizer que o futebol nacional já não é mais aquele é de uma obviedade excruciante. É quando as críticas ao calendário, à má administração dos clubes, à negociação precoce de jovens talentos, parecem deixadas de lado. O problema, bem, o problema é o futebol do outro, o time do outro, o inferno do outro.

Pior. Não há no cronista torcedor o espírito nelsonrodrigueano de amor incondicional ao clube diante de qualquer revés. Nem a veia cômica e brilhante que ele deixava transparecer em qualquer comentário acerca de seu clube do coração, o Fluminense. “Eu vos digo que o melhor time é o Fluminense. E podem me dizer que os fatos provam o contrário, que eu vos respondo: pior para os fatos”. Ou: “Grande são os outros, o Fluminense é enorme”.

Seria suficiente para inocular algum bom humor nos cronistas. Ou para desarmá-lo em sua análise profissional. Torcedores que são, eles não se deixam contaminar. São recalcados. E recalque é caso para a psicanálise, para o divã freudiano. É manifestação de angústia, inveja que resulta em algo que não deve ser dito. Ou não deveria. Para que a civilização seja possível é preciso reprimir (recalcar) alguns dos instintos do homem. Não se deve permitir que esse caráter bestial venha à tona. Do contrário, o que se vê, o que se lê, o que se ouve são espetáculos catárticos em que a razoabilidade vira pó. Não é para tanto. Tripudiar o adversário é coisa de torcedor e faz parte do jogo. Cronistas não deviam se prestar a esse papel. Não sem a finesse nelsonrodrigueana. E Nelson Rodrigues, você sabe, só houve um.

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