Novo presidente da OAB elege “bicho-papão”

Tergiversando, venceremos. Assim foi a entrevista do novo presidente nacional da OAB, Beto Simonetti à Folha de S. Paulo, publicada ontem, um dia após sagrar-se vencedor em uma disputa sem adversários – a chapa liderada por ele (“OAB de Portas Abertas”) obteve o apoio de 26 das 27 seccionais da entidade.

Indagado se o ex-presidente da ordem, Felipe Santa Cruz, agia de forma política, Simonetti fez o que o leão da montanha costumava fazer nos desenhos de Hanna-Barbera: escapou. “Eu não tenho nenhuma pretensão política e eu não tenho nenhuma aspiração a cargo político”. Ora, não foi essa a pergunta.

É fato: Santa Cruz se notabilizou por fazer duras críticas ao presidente Jair Bolsonaro e deixa o comando da OAB para ser candidato no Rio de Janeiro. Provavelmente ao governo. Provavelmente filiado ao PSD, mesmo partido do prefeito Eduardo Paes. O que Simonetti tem a dizer? “Quero dialogar em prol da advocacia”. Pois parece um diálogo de surdos.

Simonetti, 43, é amazonense, e as novidades param por aí. Pertence a uma longa linhagem familiar de advogados, todos com assento em cargos de chefia da ordem. Ele mesmo era o secretário-geral da diretoria encabeçada por Santa Cruz e desde 2010, apesar do entra e sai de presidentes, permanece conselheiro federal da OAB do Amazonas. Sempre reeleito, diga-se. Lá se vão 12 anos.

Soa estranho um apoio tão maciço a seu nome. Na segunda-feira (31), dia da eleição, Simonetti recebeu 77 votos dos 81 possíveis (noves fora um nulo, 2 brancos e o do próprio Santa Cruz que, Minerva desnecessário, não votou).

O que é da oposição? Diz que foi por aí, talvez a seguir o rastro do leão da montanha. Se era combativa, se tinha sede do contraditório e do bom debate, aqui não mora mais. Ficou o corporativismo, aquele que é primo-irmão do compadrismo, tio-avô do filhotismo, concunhado do favoritismo.

A Folha diz que “havia um movimento contrário à última gestão, inclusive interno que considerava que a OAB estava politizada e devia mudar”, mas não dá nome aos ‘boys’. Sabe-se de um ao menos: Emerson Grigolette, um dos coordenadores do Movimento Advogados do Brasil. Também negacionista, olavista, antivacina e pró-armas. Oh céus! Com tanta unanimidade, Simonetti põe à mostra suas credenciais democráticas e se apresenta como um conciliador, aberto ao diálogo. Inclusive com Lula? Sim. Inclusive com Bolsonaro? Ele também. “E até com Moro. Apesar de ele ter feito o que fez com a advocacia”. Não parece, mas esse “até” e esse “apesar” preocupam. Eis o bicho-papão da OAB.

Coluna publicada no Diário Indústria e Comércio em 2 de fevereiro de 2022.

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