Nosso horror de ontem (hoje e sempre)

Regozijai-vos. Não estamos afundados, como dantes, em uma inflação de 80% ao mês, de 1.000% ao ano. Afora isso, todo o mal está posto. Fiquemos somente na economia para que não nos afete aquele que será eleito o ‘salvador da pátria’ de ocasião; a ‘flor do lácio’ do país; o pai, o mestre, o senhor, o doutor honoris causa da nação.

O sertanejo é, antes de tudo, um forte, escreveu Euclides da Cunha que, antes de tudo, era um traído e que, por ser também brasileiro, era, antes de tudo, um crente.

Porque os nacionais creem, de crer, de credo, de crédito, de crença. E quem crê piamente acredita eleger agora, não dantes, um presidente da República que é agora, não antes, um líder de seita entendida ela como negócio, religião, partido, ideologia, finanças, economia, progresso, riqueza, bem-estar, educação, desenvolvimento, tecnologia, cultura, sexo, comida e bebida fartas.

Duas máximas do filósofo Ivan Lessa porque cada país tem o filósofo que merece: 1ª) “De 15 em 15 anos, o brasileiro esquece o que aconteceu nos últimos 15 anos”; 2ª) “O brasileiro tem os pés bem firmes no chão. As mãos também”.

O não-voto que se dá aqui e agora, e se dará em breve (domingo, 28, para ficar nos anais) é o voto contra a classe política. Compreensível, mas injusto, ainda mais porque, do outro lado do balcão, vota-se em político com trinta anos de atuação – entre aspas –, afora o nepotismo enviesado que faz com que o dinheiro público engorde o patrimônio familiar.

Ora, onde todo político (constante “x”) é corrupto (outra constante “x) e a variável “y” não existe, solução não há. O que se tem é um argumento falso, segundo o qual todo o político é corrupto, mas alguns são menos do que os outros.

Trata-se de um sofisma. Há políticos honestos que não se traduzem exceção. E por serem honestos (talvez) desconhecidos, são apontados em meio aos desonestos fanfarrões num efeito em que se olha o todo sem atentar ao particular. Compreensível dada a miséria civilizatória.

Escrevi antes que não há por que temer uma ditadura quando o presidencialismo de coalizão a substitui com louvor. Também não se deve esperar um tsunami de privatizações sob Bolsonaro. Há um núcleo duro no conselho econômico do porvir que prega a manutenção de estatais estratégicas – o que inclui jóias da coroa como a Petrobras e a Eletrobras.

A VERDADE ESTÁ LÁ FORA

Se há reações que devem ser preocupantes ao governo do capitão, elas se dão além-fronteiras. É fato: não teremos um “boom” de exportação de commodities como no período de 2007 a  2012; e o ambiente internacional será menos positivo. Com a possibilidade do aumento dos juros nos Estados Unidos, os investimentos no país devem crescer e deixar de lado economias emergentes – caso do Brasil.

Como afirmou recentemente o jornalista William Waack em seu canal no Youtube (Painel WW), o anunciado fim da ordem liberal provocou uma tensão geopolítica. Os EUA, que lideraram o mundo através de instituições multilaterais, estão propensos a abandonar esse protagonismo. A disposição do presidente americano Donald Trump aponta para esse caminho. De outro lado, a China passa a assumir uma posição estratégica no mundo como potência econômica, política e militar, enquanto a Europa, em crise, deita no divã.

O Brasil podia estar bem acomodado se o governo petista, lá atrás, tivesse se voltado para uma política externa, atento aos interesses nacionais e não do partido. Como não fez a lição de casa, restou-lhe um mercado fraco, caso do Mercosul, e acordos bilaterais de comércio que seriam cômicos, não fossem trágicos, com Egito, Israel e a Palestina.

Durante o governo Barack Obama, o Brasil poderia ter sinalizado ao menos interesse no Tratado Trans-Pacífico (agora congelado por Trump). Seria uma aliança vantajosa de combate direto ao produto chinês com acesso ao mercado asiático. Além das vantagens óbvias, o tratado previa amplas garantias a investidores, às patentes, à exploração de recursos naturais e aos direitos trabalhistas. O Brasil ficou de fora por estar atado à bola de ferro do Mercosul e por opção político-ideológica do PT. Agora não adianta chorar na rampa.

A RESISTÊNCIA A BOLSONARO

Ainda que o provável presidente eleito acene ao mercado, não se espera grandes reações por parte dos investidores. Desde que o nome de Bolsonaro foi cogitado, a imprensa internacional se revelou hostil. E não se trata de um apanhado de veículos de posição liberal, mas o “mainstream” da mídia, ou seja, os grandes grupos de comunicação rejeitam o capitão e não devem reconsiderar suas posições tão cedo. Este é o cenário nada auspicioso. A cereja no bolo? A crise na Argentina, um dos maiores parceiros econômicos do Brasil, só tende a agravar. Definitivamente, são tempos muitos estranhos.

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