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Morto aos 86, jurista René Dotti dizia que queria ser lembrado como advogado. “Minha vida é o Direito”

Confinado em sua casa desde o início da pandemia do coronavírus, em março de 2020, Dotti se ressentia de não poder comparecer ao seu escritório. >>> Dotti tinha presença marcante em grandes casos criminais. Suas atuações no Tribunal do Júri eram célebres.

Há duas passagens sobre René Ariel Dotti, morto nesta quinta-feira (11) aos 86 anos, que merecem ser lembradas. Uma diz respeito a uma entrevista concedida a um jornal de Curitiba. Sempre compenetrado nas questões jurídicas, mas distraído em relação a tudo o mais, Dotti ainda se acomodava na cadeira, quando reparou no fotógrafo que andava pela sala procurando o melhor ângulo para as fotos. “Por favor, veja se estou usando meias da mesma cor”.

Outro episódio diz respeito ao período em que Dotti, já advogado, assumiu a defesa de jornalistas de Curitiba processados pelo regime militar na segunda metade de 1964. Em um intervalo do julgamento, ele se dirigiu juntamente com alguns de seus clientes para um café próximo, na Praça Rui Barbosa, no centro da capital, sem tirar a beca que usava na sala de audiência. Era hora do almoço e eles decidiram pedir cachaça. Um bêbado que passava pelo local, ao ver Dotti vestido daquele jeito virando o copo de um só trago, gritou: “Êta padre porreta”.

René Ariel Dotti nasceu em 14 de novembro de 1934, no bairro do Ahú, em Curitiba. O pai, Gabriel Dotti, um pintor de paredes, decidiu que o filho nasceria no dia da proclamação da República, e esperou para comparecer ao cartório apenas no dia seguinte. Dotti dizia, por isso, que tinha duas datas de aniversário. A mãe, Adelina Zulian Dotti, era costureira. Em 1936, ela estava com o filho no colo, quando o Zeppelin Hindenburg sobrevoou Curitiba. Era 2 de dezembro e Dotti, apesar da pouca idade, afirmava ter guardado esse dia na memória. “O dirigível era de uma beleza imponente, assustadora, e eu não tive medo porque sabia que minha mãe me protegia”.

Sofrendo com a bronquite durante a infância, Dotti chegou a pensar em cursar Medicina. O sonho, entretanto, não durou até o baile de formatura no colégio. Quando soube que as provas do vestibular exigiriam conhecimento em química, física e biologia, ele desistiu. Dotti recordava-se de uma cena, em especial, já durante a madrugada. Ele e o primo acocorados no meio-fio da calçada, ambos vestidos smoking, feito personagens de Fellini. O outro lhe sugeriu: “Você faz teatro, gosta de falar, porque não tenta a faculdade de Direito?”

Meses depois ele seria aprovado “entre os cento e poucos” nas provas da Universidade Federal da História. E assim teria início a carreira de um dos advogados mais respeitados do país.

Dotti também foi um homem da cultura. Fez teatro no Colégio Estadual do Paraná, ao lado do amigo e hoje ator célebre Ary Fontoura. Em uma das revistas de variedades, era o encarregado dos esquetes cômicos, interpretando vários papéis.

Em sua única incursão política, foi secretário de Cultura do Paraná, durante o governo de Omar Dias (1987-1990). À frente da pasta, recriou o Teatro de Comédia do estado, reformou museus e lançou, juntamente com o jornalista Wilson Bueno, a revista “Nicolau”, uma referência da cultura contemporânea que teve 60 edições.

Casado com dona Rosarita, com quem teve duas filhas, a advogada Rogéria, e a médica veterinária Cláudia, René Dotti foi professor-titular de Direito Penal na  Universidade Federal do Paraná durante longos anos, só deixando a cátedra quando, segundo ele, “os debates primordiais foram postos de lado e a ideologia passou a dominar a salas de aula, em prejuízo da lógica do Direito e das humanidades”

Em um pequeno teatro que construiu em sua casa, Dotti, que gostava de ser chamado de professor (não de doutor), reunia amigos para assistir sua interpretação do monólogo “As Mãos de Eurídice”, de Pedro Bloch. Há poucos anos, ele falou sobre os temores que o assombravam durante a ditadura no Brasil, um assunto que evitava: “Tive medo, confesso. E tenho falado muito na liberdade de não ter medo. O medo torna a alma refém”.

Confinado em sua casa desde o início da pandemia do coronavírus, em março do ano passado, Dotti se ressentia de não poder comparecer ao seu escritório, fundado em 1961, na Rua Marechal Deodoro da Fonseca, no centro da capital paranaense, que ocupa quatro andares. Jurista requisitado na elaboração da Constituição Federal de 1988 e, depois, na redação do novo Código do Processo Penal, Dotti tinha presença marcante em grandes casos criminais. Suas atuações no Tribunal do Júri eram célebres. Em 2017, viralizou o vídeo em que Dotti passa uma descompostura no advogado de Lula, Cristiano Zanin Martins, por considerar que ele havia desrespeitado o juiz Sérgio Moro durante o processo envolvendo o tríplex do Guarujá, supostamente adquirido pelo ex-presidente com dinheiro da corrupção. Dotti representava a Petrobras no caso.

No período pré-pandemia, o jurista obedecia a uma rotina espartana. De manhã, dava expediente no escritório e à tarde cumpria um cronograma de exercícios com sessões de natação e pilates. Sua biblioteca era o seu local de refúgio. Era lá que ele costumava passear os dedos pelas lombadas dos livros, escolhendo ao acaso obras de poesia ou dramaturgia, e assistir a filmes, principalmente os que narravam episódios da segunda guerra.

Colaborador da Revista Bonijuris em várias edições, René Dotti faleceu em sua casa, vítima de uma parada cardiorrespiratória. Além da mulher e das filhas, ele deixa quatro netos.

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