Lavagem cerebral: só mesmo na ficção

Não há comprovação de que a brainwashing, a lavagem cerebral, seja um fato científico, ainda que agências de inteligência de vários países tenham, por muitos anos, investido na possibilidade de controlar a mente humana utilizando-se de técnicas psicológicas.

Embora, em 2000, o termo tenha aparecido na quinta edição do Manual da Associação Psiquiátrica Americana, a lavagem cerebral segue rejeitada como método de reeducação, persuasão coercitiva, controle de pensamento, menticídio ou seja lá o nome que lhe queiram dar.

Em 1974, o norte-americano Alan J. Pakula dirigiu “The Parallax View” (no Brasil, “A Trama”), protagonizado por Warren Beatty. O filme conta a história de um jornalista investigativo que descobre uma organização que planeja assassinatos de líderes políticos. Não por acaso, a Parallax é comandada por uma grande corporação multinacional. Não por acaso, os conspiradores agem principalmente contra democratas de matiz progressista ou liberal.

Uma sequência do filme chama a atenção, em especial. É quando o jornalista, infiltrado na organização, é submetido a uma sequência de imagens associadas a palavras que dizem respeito a conceitos genéricos tais como amor, pai, mãe, pátria, felicidade. O objetivo é, através do embaralho de reações do que é certo ou errado, positivo ou negativo, fabricar um assassino político supostamente acionado por um botão psicológico. É essa a ideia que os slides, exibidos em pouco de mais de cinco minutos, tendem a sugerir.

O clima da guerra combinado com a histeria que dominava os EUA, na década de 70, certamente resultou em esforços para que fossem criados autômatos predispostos a acatar ordens ou comandos por mais absurdos que fossem. Mão não houve sucesso. A lavagem cerebral continua sendo uma peça de ficção, em que pesem os atuais indícios de que é possível “sugar o cérebro” de um ser humano com a ajuda da internet e, principalmente, das redes sociais.

O conceito de “lavagem cerebral” foi desenvolvido, supostamente, na década de 50, durante a Guerra da Coreia. Casos de soldados ingleses e norte-americanos que “passaram para o outro lado” ( o lado comunista) depois de submetidos a torturas psicológicas (e físicas) administradas por cientistas chineses foram largamente estudados. Cogitava-se que a conversão e o recrutamento era possível, em qualquer esfera (política, religiosa, ideológica), desde que girada a chave certa no cérebro do indivíduo.

Livros sérios escritos por autores sérios, e que tratam do período da Guerra Fria, caso de “Legado de Cinzas – Uma História da CIA”, do jornalista Tim Weiner (Record, 2008); “Pós-Guerra – Uma História da Europa desde 1945”, de Tony Judt (Objetiva, 2007), e “Queime Antes de Ler”, do ex-diretor da CIA, Stansfield Turner (Record, 2008) relatam as tentativas (mal sucedidas) de cientistas, já em meados da década de 30, de utilizar cobaias humanas para testes de controle da mente. Durante quatro anos, o projeto batizado de Artichoke (Alcachofra) desenvolveu técnicas especiais de interrogatório com o uso de heroína, anfetaminas, pílulas para dormir e LSD. Esta droga, em especial, foi testada em prisioneiros de uma penitenciária federal durante 77 dias consecutivos. Quando a CIA deu a mesma droga a Frank Olson, funcionário civil do exército, ele se jogou da janela de um hotel em Nova York.

Em 1987, uma década antes da ascensão da era da internet, a Câmara de Responsabilidade e Ética para a Psicologia, órgão da Associação de Psicologia Americana, já havia recusado o reconhecimento da lavagem cerebral como técnica científica dada a carência de informações sólidas a seu favor, embora o debate siga em curso.

Mesmo o estudo de seitas, cujos líderes são acusados de recrutar fragilizados ou segregados e trabalhar sua mente, de modo a incutir-lhes outra, propensa à submissão e ao controle, não é conclusivo. Estudou-se o Reverendo Moon, da Igreja da Unificação, os seguidores de Jim Jones na década de 70, e até mesmo Charles Manson, da Família Manson. De fato, cultos políticos ou religiosos sempre existiram. Se ganharam espaço, projeção e complexidade no século XX ao arregimentar grupos e induzir comportamento em massa, foram pouco eficazes em comprovar a técnica da lavagem cerebral. Talvez porque seja difícil não rir de tudo isso.

Mesmo os crédulos tendem a ser crédulos apenas em prazo determinado. No caso de soldados que trocaram de lado no front, é atestado que eles voltam ao “normal” tão logo são resgatados ou desertam das fileiras por conta própria. Também a propaganda disseminada através da internet por terroristas islâmicos não é suficiente para concluir que jovens ocidentais radicalizados tenham sofrido uma lavagem cerebral virtual.

Enquanto o fato científico não vem, a ficção encarrega-se de suprir lacunas na imaginação humana. Tome-se como exemplo romances distópicos como “1984” de George Orwell, lançado em 1949; e “Laranja Mecânica”, de Anthony Burguess, no qual um delinquente juvenil submetido a longas sessões de filmes de sexo e ultraviolência, acaba por  adquirir aversão patológica  a ambos.

Cabe referência também ao longa-metragem “Sob o Domínio do Mal” (1962), cujo objetivo perpetrado por chineses e russos, durante a Guerra da Coreia, é fazer com que um soldado vítima de lavagem cerebral conquiste a presidência dos EUA, além do já citado “The Parallax Views”, talvez o suspense político mais emblemático do período da guerra fria.

Para ilustrar o que é ainda uma ficção, concebeu-se aqui um vídeo calcado na sequência dirigida por Pakula, porém com imagens relacionadas ao Brasil (no alto do texto). Abaixo a brainwashing do filme, na íntegra. Advirta-se: não passa de um exercício sem qualquer objetivo ou base científica. Diversão nonsense. Nada mais.

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