Lá se vai a Lava-Jato, amada e odiada

As comparações da Lava-Jato com a Mãos Limpas, esta deflagrada na Itália na década de 90, não param de surgir. As coincidências também. Com o desmantelamento da força-tarefa em Curitiba, epicentro da operação policial que caçou e condenou corruptos como nunca antes, mais uma similitude chama a atenção. Ambas morrem sem choro nem vela. Quase silenciosas, quase esquecidas, quase inspirando fastio.

De fato, não se esperava que, sete anos depois de sua criação, a Lava-Jato ainda despertasse grande atenção. Houve atrapalhos no trabalho, erros foram cometidos, mas o saldo deveria ser positivo, não fosse a soberba e a empáfia de procuradores do Ministério Público Federal somada à conduta suspeitíssima do ex-juiz Sérgio Moro, revelada no vazamento de mensagens trocadas com integrantes da força-tarefa.

Não há dúvida de que a operação anticorrupção deflagrada em 2014 foi decisiva para a guinada à direita do eleitorado brasileiro e a consequente ascensão de Jair Bolsonaro no cenário nacional. Afinal, ele apresentava-se como o antípoda do governo responsável pelo maior escândalo de corrupção da história do país. No auge, a Lava-Jato levou para prisão políticos e empresários proeminentes. Condenado em dois processos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, amargou mais de um ano na prisão e o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, recebeu penas que, somadas, ultrapassam 300 anos.

Moro foi alçado à condição de super-herói e uma frota imensa de automóveis em circulação pelo país passou a ostentar, com orgulho, o adesivo de apoio à Lava-Jato. O erro no meio do caminho foi, a princípio, político. Moro não deveria ter aceitado o convite de Bolsonaro para se tornar um superministro. Quando o fez, revelou uma ambição até então escamoteada.

A queda no prestígio era inevitável. Some-se a isso a revelação das mensagens trocadas por Moro com o procurador Deltan Dalagnol, então chefe da Lava-Jato em Curitiba, e o resultado foi o municiamento de seus adversários à esquerda e à direita, incluindo Bolsonaro, a essa altura incomodado com a investigação que mirava sua prole.

Não havia dúvida de que ao assumir o posto de Procurador-Geral da República, Augusto Aras, escolhido fora da lista tríplice por Bolsonaro, tinha como tarefa dar novo rumo à operação Lava-Jato em Curitiba. É certo, ele contou com a ajuda dos próprios procuradores do MPF quando estes decidiram, por conta própria, insurgir-se contra preceitos constitucionais que, no caso do Ministério Público, dizem respeito à unidade, à indivisibilidade e à independência funcional.

Acreditaram os procuradores que poderiam proclamar-se uma ilha quando, na verdade, obedecem a um superior hierárquico. Os erros acumulados deveriam servir para que eles aprendessem a lição. Não aprenderam. O fim da Lava-Jato e os rumos que ela tomou ao longo dos anos têm estreita ligação com esse modo de pensar. Ficam os equívocos, vão-se os méritos. Mas não deveria ser assim.

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