Jânio Quadros tornou caricatural a mesóclise?

Jânio Quadros tornou caricatural a mesóclise ou nela pegaram para ridicularizá-lo ? A mesóclise tem cabimento em contextos próprios, em que seu uso nada tem de caricatural; ele usou-a apropriadamente, porém alguns maliciosos deturparam-lhe o significado para achincalhá-lo, isto é, valeram-se de emprego correto de forma da língua portuguesa com fito político, deseducaram o povo e praticaram politicalha.

Jânio escreveu gramática em seis volumes e era bom tradutor; sabia usar a mesóclise nos contextos certos e não a usar quando não era o caso. Graciliano Ramos redigiu, em Infância, nove mesóclises em um parágrafo, todas corretíssimas, e ninguém o caricaturou nem julga caricatural tal uso, tampouco as mesóclises de A moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo.

Será porque Manuel Antonio de Almeida e Graciliano Ramos não eram politicamente visados ? Graciliano supôs que “ter-te-ão” fosse “Terteão”, antropônimo, anedota… caricatural que ninguém usa para ridicularizar a mesóclise. Já em “Fi-lo porque qui-lo”, “fi-lo” e “qui-lo” são corretos, em si; não é correto “qui-lo” nesta frase, pois aí cabe próclise: “Fi-lo porque o quis”, mas Jânio não teria repetido o pronome e teria dito, se disse: “Fi-lo porque quis”.

Há poucos anos, atacaram o então vice-presidente Michel Temer porque lançava mão da mesóclise: usaram-na para atacá-lo: tudo era pretexto para combatê-lo, inclusivamente o bom exemplo que dava ele para seu povo de correta colocação pronominal. Como lembrava Ortega y Gasset, o fato fundamental de seu e nosso século é a ascensão do homem obtuso.

O PRIMEIRO ENCÔMIO QUE SE FEZ AO BRASIL, DISSE-O CAMINHA EM SUA CARTA: “[…] águas são muitas, infindas; [a terra] em tal maneira é graciosa que, querendo a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem […].

”Caminha e Cabral sabiam da existência do Brasil; este possivelmente já cá estivera antes de 1500. A famosa carta foi relatório para o rei, encomendado; a informação do passo com mesóclise é de que a agricultura prosperava e a água doce abundava: secretamente haviam vindo povoadores antes de 1500; pelo menos, em Pernambuco houve (talvez em 1500 houvera) feitoria portuguesa em 1490.

Como explicar a indiferença de Caminha diante do descobrimento da “nova” terra ? Ele sabia-lhe da existência. E os dois degredados que cá ficaram, os dois grumetes que desertaram, os tais dezoito outros que desertaram também —foram reunir-se aos índios ou a compatriotas seus ?

Das inúmeras outra cartas redigidas então, perderam-se algumas no terremoto de 1755, exceto a de Caminha e a de Cabral, que a deste confessa a intencionalidade da rota seguida pela frota e o prévio conhecimento que detinham ele e el-rei, da existência do futuro Brasil, em sua missiva a D. Manuel: “[…] em obediencia a instruçam de vossa alteza navegamos no Ocidente e tomamos posse, com padram, da Terra de vossa alteza que os antigos chamavam Brandam ou Brasil”, por sua vez encontrada em 1343, pelo mareante português Sancho Brandão[1].

Caminha é explícito em que Nicolau Coelho estivera no Brasil antes de 1500.

[1] CINTRA, Francisco de Assis. No limiar da história. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1923. Arquivo das Colônias, número 26, 1929, Portugal. HELENO, Manuel. O descobrimento da América. Lisboa, 1933, p. 19. COSTA, Sérgio Corrêa da. Brasil, segredo de Estado. Rio de Janeiro, editora Record, 2001, p. 66.

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