Herói da República de Curitiba, Moro dispensou dilema shakespeariano

Ao que parece, o (ex) ministro da Justiça, Sérgio Moro, não enfrentou dilema shakespeariano ao ser comunicado da decisão de Jair Bolsonaro de exonerar o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo. Ao invés do questionamento filosófico “ser ou não ser”, ele inquiriu-se: “Ou me demito ou me demito?” Não havia mesmo questão.

Moro sai, entre outras razões, porque entendeu que a insistência de Bolsonaro em substituir o diretor-geral da PF retirava-lhe o status de superministro com carta branca e porque Valeixo era seu homem de confiança – trabalhou ao lado de Moro, em Curitiba, durante o auge da Operação Lava-Jato. Foi ele, aliás, que conduziu o ex-presidente Lula à prisão. Em pronunciamento nesta sexta-feira (24) no Ministério da Justiça, Moro apontou interferência política de Bolsonaro na Polícia Federal e disse que não assinou exoneração do diretor-geral da PF, conforme publicado no Diário Oficial da União. “Isso não é verdadeiro”. De pronto, há implicações de falsidade ideológica. Mais uma acusação a, tal como um fantasma, rondar Bolsonaro.

O ex-juiz federal da 13ª Vara de Curitiba sai do ministério da Justiça depois de renunciar à sua carreira. Ele esteve ministro por exatos 15 meses e 24 dias. Era o herói da República de Curitiba, o paladino da Justiça, o terror dos corruptos. Nem a revelação de que mantinha conversas nada republicanas com procuradores do Ministério Público Federal e da PF, reveladas pelo site Intercept Brasil, abalaram a sua imagem ante a população. Ele era mais popular do que Jair Bolsonaro em qualquer pesquisa divulgada pelos jornais ou realizada extra-oficialmente pelo Planalto.

Nos últimos meses, entretanto, o ministro da Justiça perdera o brilho e virara o que seus adversários definiam como “peça de decoração”. Diziam que ele só estava lá porque aguardava que Bolsonaro, em gesto beneplácito, o nomeasse para o cargo de ministro STF (“um prêmio da loteria”, como Moro o definia). Nem isso.

Bolsonaro já vinha afirmando que não cumpriria a promessa feita a Moro de garantir-lhe a nomeação à corte suprema assim que o decano Celso de Mello rumasse para a sua aposentadoria compulsória.

Os sinais dessa decisão não eram discretos, que Bolsonaro não é disso. Eram bandeirolas escandalosamente esvoaçantes. Em julho de 2019, o presidente disse que pretendia indicar para o STF um ministro “terrivelmente evangélico”. Bem, Moro não é terrivelmente evangélico. Sequer é evangélico.

O desenrolar dos acontecimentos é conhecido. O diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, aproximava-se perigosamente da família Bolsonaro e do gabinete do ódio comandado por Carlos Bolsonaro, o Carluxo, hospedado em sala contígua ao gabinete presidencial. Principalmente porque os inquéritos que apuram um suposto esquema de fake news para atacar autoridades apontavam para pegadas no chão que não deixavam dúvida. O caso sob relatoria do ministro do STF, Alexandre de Moraes, estava sendo tocado por uma mesma equipe de policiais federais, o que desagradou o presidente.

Claro, havia uma pandemia no meio do caminho. No meio do caminho havia uma pandemia. E Moro, em mais de uma ocasião, deixou claro que alinhava-se com o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta – assim como Paulo Guedes, que recentemente ficou fora de decisão econômica do governo.

Há agora quem discuta qual será o destino político de Sérgio Moro. A piada, que tem o propósito de relaxar a tensão reinante, vem da boca de um deputado, que diz que Moro – desempregado e sem a possibilidade de retomar a carreira de juiz – vá usufruir da ajuda emergencial do governo de R$ 600. É só uma piada, nada mais que uma piada. Os mistérios que entremeiam o céu e a terra do governo Bolsonaro são maiores do que pode imaginar a nossa vã filosofia.

FOTO AGÊNCIA BRASIL EBC.

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