Há 126 anos morria o gen. Carneiro no cerco da Lapa

Aos 9 de fevereiro de 1894 morreu o general Antonio Ernesto Gomes Carneiro, na cidade da Lapa, no Paraná.  

            Ele nasceu na antiga cidade do Cerro Frio, hoje Serro, em Minas Gerais, em 1846. Serro chamou-se, de começo, Vila do Príncipe; a Lapa, chamou-se, de começo, Vila Nova do Príncipe de Santo Antonio da Lapa. Ele nasceu na antiga Vila do Príncipe e morreu na antiga Vila Nova do Príncipe. Morreu com 48 anos de idade e tem descendentes em Curitiba.

Foi comandante do então tenente Cândido Rondon, no estabelecimento das linhas telegráficas no Mato Grosso; aliás, o único superior a quem Rondon esteve diretamente subordinado em sua longa carreira. Carneiro combateu na guerra do Paraguai e comandava o corpo de bombeiros da cidade do Rio de Janeiro ao receber, diretamente de Floriano Peixoto, a missão de sustar a Revolução Federalista, que se desenrolou de 1893 a 1895, em que os maragatos (revolucionários) revoltaram-se, no Rio Grande do Sul, com forças que ocuparam aquele estado, o de Santa Catarina e o do Paraná. Neste, três cidades resistiram: Tijucas do Sul, por três dias; Paranaguá, por quatro, e a Lapa, por vinte e um.

Era intuito dos maragatos alcançarem o Rio de Janeiro, deporem o marechal Floriano e implantarem o parlamentarismo. Não pretendiam a reversão do regime, de republicano para monárquico; Gumercindo Saraiva, cabeça do exército federalista, manifestava-se inequivocamente pela república.

Alcunharam-se de pica-paus os legalistas, adversos à revolução.

Dado o avanço das forças insurgentes, Gomes Carneiro, então coronel, foi comissionado pelo marechal Floriano como comandante da região militar.

Embora a importância estratégica da Lapa fosse insignificante para o avanço das tropas maragatas, os chefes destas (Gumercindo Saraiva, Aparício Saraiva, Antonio Carlos da Silva Piragibe, José Castilhos [vulgo Juca Tigre]) resolveram sitiá-la e ocupá-la, em cerco que, supostamente, duraria uma semana, se tanto, dada a desproporção de forças: 3 miríades de sitiantes contra 900 sitiados.

Graças à bravura do então coronel Carneiro e dos seus subordinados (Joaquim Lacerda, Serra Martins, Emílio Blum, Felipe dos Santos e outros), a cidade resistiu ao cerco, do dia 14 de janeiro a 11 de fevereiro.

No dia 7 de fevereiro, projétil pertranziu-lhe o tórax, o esôfago e o fígado; conduzido à morada de Pedro Fortunato de Sousa Magalhães, lá expirou em 9 de fevereiro.

Cogita-se de que Carneiro teria sido alvejado por comandado seu; todavia as circunstâncias contrariam tal cogitação: ele foi atingido pelas costas, na descarga de metralhadora e de inúmeras espingardas que acometeram os sitiados ao abrirem-se, de súbito, as janelas da casa de Francisco de Paula, situada aquém da barricada em que se encontravam Carneiro e outros combatentes. Houve dezenas, centenas de tiros maragatos e é pouco provável que, precisamente nesta descarga, ele fosse baleado por um traidor.

Dois dias após, já exausta de munição de boca e bélica, a Lapa rendeu-se, do que se lavrou ata, subscrita pelos chefes dos rendidos e dos ocupantes.

Mercê da resistência da Lapa, as forças governistas (chamadas de pica-paus) organizaram-se e debelaram a revolução, com o que o regime pode manter-se: a resistência da Lapa assegurou a manutenção do governo de Floriano e a da república.

Tratou-se de episódio dos mais notáveis da história militar do Brasil e um dos três eventos em que a história do Paraná adquiriu importância na história do país (os dois outros consistem no ataque da fortaleza da ilha do Mel ao cruzador inglês Cormorant, em 1850, de que resultou a lei Eusébio de Queiroz que, em 1851, extinguiu a importação de escravos, e na fundação da Universidade do Paraná, em 1912, a terceira [e não a primeira] que se fundou no Brasil e sua mais antiga universidade).

Ao partir o derradeiro trem, da Lapa, para Curitiba, Carneiro ofereceu-o às mulheres da Lapa, para que partissem quantas desejassem evitar o perigo dos ataques de que a cidade foi alvo. O trem partiu vazio: as mães, as filhas, as mulheres, as irmãs dos lapeanos quedaram-se na cidade, submetidas a todas as agruras do bombardeio e dos tiroteios que se prolongaram por vinte e seis dias.

Na resistência da Lapa sobressaíram a determinação de Carneiro em cumprir o seu dever (resistência a todo transe), a bravura da gente lapeana (civis destituídos de formação militar) e abnegação das mulheres lapeanas (que se mantiveram com seus familiares).

Como toda guerra e todo cerco, o da Lapa foi sanguinolento. Morreram, no recinto assediado, cerca de oitenta pessoas, cujos corpos jazeram, muitas vezes, mal sepultos, por impossibilidade de se lhes propiciar inumação em condições.

Da violência do assédio deixou depoimento o dr. Felipe Maria Wolf, médico que serviu na cidade, durante ele, em primeiro de fevereiro de 1894: “Isto não é mais guerra! É um extermínio, uma caça às feras. Onde aparece uma cabeça, um peito, onde alguém faz um movimento, onde um homem se deixa ver, em sua direção é feita a pontaria e o tiro”.

Na sua mensagem de 3 de maio de 1894, Floriano, que atribuiu a Carneiro a missão de deter o avanço dos revolucionários na Lapa, aludiu à “gloriosa auréola de um morto — a heróica defesa da cidade da Lapa… onde o bravo general Gomes Carneiro escreveu a página mais admirável, talvez, da história militar de um povo.”

Miguel Lemos, chefe, ao tempo, do Apostolado Positivista do Brasil, julgou-o como “tipo eminente da dignidade militar e do devotamento cívico.”

O dr. Wolf qualificou Gomes Carneiro de “homem de ferro” e dele escreveu: “Cada vez me convenço mais de que Carneiro era um monstro heróico. Apesar de não existir qualquer esperança em resistir por mais de dois ou três dias, ele não renunciou, obstinando-se em não se entregar”.

Médico baiano, o dr. Ângelo Dourado, federalista que se achava em Curitiba durante o cerco, escreveu: “O coronel Carneiro pode ser considerado um dos homens mais valentes que temos tido. Mereceria uma estátua pela sua bravura e constância”.

E Lima Barreto, no seu “Triste fim de Policarpo Quaresma”, consignou: “No Sul, a insurreição chegava às portas de São Paulo, e só a Lapa resistia tenazmente, uma das poucas páginas dignas e limpas de todo aquele enxurro de paixões. A pequena cidade tinha dentro das suas trincheiras o Coronel Gomes Carneiro, uma energia, uma vontade, verdadeiramente isso, porque era sereno, confiante e justo. Não se desmanchou em violências de apavorado e soube tornar verdade a gasta frase grandiloqüente: resistir até à morte”.

De fato, ferido e já desenganado, ao pedido de ordens que lhe dirigiam seus oficiais, respondia-lhes: “Há uma ordem só: resistência a todo transe”.

Ele foi promovido ao generalato na véspera de seu traspasse e da promoção não chegou a tomar conhecimento, assim como Floriano Peixoto, ao elevá-lo, desconhecia-lhe o ferimento e o estado moribundo.

Um de seus filhos, Mário Tibúrcio Gomes Carneiro, infante, perdeu as duas pernas, em acidente a bordo de navio surto no Rio de Janeiro. Chegou a ministro do Supremo Tribunal Militar.

Quer-me parecer que a imagem de Carneiro haja sido retocada no contorno de seu nariz que, aparentemente, lembra a anatomia de origem africana, embora seus demais traços fossem europeus. Sua origem mineira autoriza supor-se lhe algum antepassado negro, já longínquo.

Na Lapa visitam-se a igreja, de 1784, dois museus de armas (um deles, situado na cadeia velha), o Panteon dos Heróes (mesmo assim, com “e”), monumento em que jazem Carneiro, Lacerda, Amintas de Barros, Dulcídio Pereira e dezenas de combatentes; a Casa Lacerda, de 1841, museu de época (em que foi assinada a capitulação da cidade), além do casario antigo, residual, no centro da cidade.

Documentos que registram a promoção de Carneiro a general da brigada. Acima, mensagem do general aos seus comandados.

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