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‘Fake news’ é termo enganoso que confunde mais do que explica, diz especialista

Para Diogo Rais, professor de direito eleitoral e coordenador científico do Congresso Brasileiro de Direito Eleitoral (de 17 a 21 de agosto em versão online), expressão deveria ser traduzida como “notícia fraudulenta”. Por Marcus Gomes

As fake news nunca foram novidade. Mas a expressão, não a prática em si, ganhou notoriedade com a posse de Donald Trump na Casa Branca. A partir dali, toda e qualquer notícia que confrontasse as ações do governo ou a ausência delas era classificada como fake news.

Se bem que o termo “fato alternativo” andou em voga quando o então chefe de imprensa de Trump, Sean Spice, reagiu contra notícias que davam conta que o público presente na cerimônia de entronização do 45º presidente dos EUA era menor do que aquele divulgado oficialmente. Havia os fatos divulgados pela imprensa e havia os ‘alternativos’ ou a verdade paralela dos canais do governo. Foi modismo. Passou.

Ficaram as ‘fakes’ repetidas à exaustão pelo presidente em coletivas de imprensa de uma maneira que alguns definem como uma explosão de perdigotos. Ele contrai os lábios e mostra os dentes, simultaneamente,  antes de cuspir as duas palavras. E quando o faz dá a impressão de querer dizer outra coisa. Talvez “You´re fired!” (Você está demitido!) porque é esse o seu desejo. Fosse pór Trump e todo jornalista que o desafiasse com questões provocativas seria despedido assim na realidade como no reality show.

No Brasil, as fake news ganharam força, em tradução literal, sem que se atentasse para o paradoxo de seu significado. Na segunda-feira (10), durante conversa virtual com jornalistas, o professor de direito eleitoral da Mackenzie e da FGV-SP, Diogo Rais, atentou para a impropriedade da expressão “notícia falsa”. “Se algo é notícia, não pode ser falso; e se é falso não pode ser notícia”, argumentou. “O correto é notícia fraudulenta. Fraude nesse contexto, é crime. Mentira pertence a outro departamento: o da ética”.

Esse não é o primeiro equívoco que permeia as campanhas virtuais e confundem os legisladores e os tribunais superiores, quando se trata de dimensionar o significado de palavras em inglês na internet e, principalmente, nas redes sociais.

Rais, que será o coordenador científico da sétima edição do Congresso Brasileiro de Direito Eleitoral, de 17 a 21 de agosto em edição online, cita como exemplo o “impulsionamento de publicações”.

O candidato pode gastar rios de dinheiro com a ferramenta sem que o investimento converta-se em votos na eleição. Porque impulsionar as postagens de campanha, explica ele, não significa necessariamente direcioná-las às pessoas certas. “O candidato compra um pacote de impulsionamento do facebook dirigido a cinco milhões de pessoas, mas esses cinco milhões podem não ser eleitores. Aliás podem nem ser brasileiros. É dinheiro jogado fora”, afirma. “Por isso, mais importante que o dinheiro investido na internet é a estratégia de comunicação, a maneira com que o candidato se dirige ao eleitor, e a imagem que ele transmite”.

Em 2018, o candidato do MDB à presidência Henrique Meirelles investiu alto nas redes sociais porque assim os estrategistas de campanha o aconselharam. Eles não estavam errados. “O problema estava na imagem passada aos eleitores: jovem demais, alegre demais, colorida demais e Meirelles, convenhamos, está mais para o cinza”, afirma Diogo Rais. “E assim deveria se apresentar”. O resultado, como se sabe, foi desastroso. Na contagem de votos, Meirelles, que gastou R$ 43 milhões na campanha, ficou atrás do Cabo Daciolo, que consumiu apenas R$ 808 para apresentar-se aos eleitores.

Outro equívoco frequente, de acordo com Rais, está em confundir “followers” (seguidores) com alguma espécie de fiel inconteste. “É outra impropriedade. O termo corresponde a audiência, a acompanhamento, a monitoramento e não a vinculação. O seguidor não é um zumbi. Ele assume um papel crítico. Segue porque concorda, mas segue também porque discorda”.

Há dois anos, quando passou a escrever colunas semanais na Folha de S. Paulo – este ano será colaborador do Valor Econômico –, o professor de direito eleitoral diz que chegou a sofrer “bullying” por identificar a ascensão determinante das redes sociais nas campanhas políticas. “A ideia que persistia era a de que a propaganda de rádio e TV permaneceria essencial no convencimento do eleitor”. Não foi. E a eleição de Bolsonaro foi um exemplo disso.

FOTO: AGÊNCIA BRASIL

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