Enquanto o Brasil espera vencer a pandemia pelo placar de 7 a 1

Paciência se o futebol não é mais aquele. O mundo também não é. Yokohama, 30 de junho de 2002. Quando a seleção brasileira conquistou o pentacampeonato, vencendo os alemães liderados pelo goleiro Oliver Kahn pelo placar de 2 a 0, a poeira do 11 de setembro ainda pairava no ar.

Repórter na Copa da Fifa que, pela primeira vez, promovia os jogos em dois países – Coreia do Sul e Japão –, eu, em dilacerante egoísmo, recebera a notícia de que não disporíamos de tempo para dar uma espiadela em Tóquio. Pegaríamos o voo de volta ao Brasil tão logo fossem enviadas  as últimas matérias e fotos. Do alto do Yokohama Tower, um hotel de luxo onde nos hospedáramos dois dias antes, pude vislumbrar as luzes da capital japonesa. Sabia que não voltaria. Não tão cedo. Talvez nunca mais.

Quase duas décadas depois, a abstinência de futebol em tempos de coronavírus fez com que a Globo reprisasse a partida neste domingo de páscoa (12). Vi e ainda acho que Rivaldo foi decisivo na conquista do penta. O camisa 10 seria eleito o melhor jogador da Copa não fosse Ronaldo Fenômeno e seus oito gols – dois deles na decisão. Injustiça maior só o prêmio surrupiado a São Marcos. Ninguém em sã consciência, nem mesmo a versão alemã do narrador Galvão Bueno, se ele existe, esperaria que Kahn, que falhou no primeiro gol do Brasil, levasse o título de melhor goleiro.  Coisas da Fifa. De quem mesmo? Ah sim, Joseph Blatter.

Se Albert Einstein descesse agora do céu ou de qualquer outro lugar ainda seria difícil entender essa história de espaço-tempo e do Brasil explodir em festa às oito horas da manhã do dia 30 enquanto, no Japão, este colunista punha-se a batucar as primeiras linhas sobre a partida às oito horas da noite anterior. Em comum o fato de que o jogo ocorrera e a seleção de futebol saíra vitoriosa. Eu não sonhava. Os brasileiros não comemoravam em um universo paralelo.

Mas por que então reprisar o jogo? A resposta raspa a trave do Covid-19 e do que ainda está por vir – as previsões revelam-se sombrias. Guimarães Rosa não falava de futebol, mas escreveu que “qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. Um dia a seleção venceu a Alemanha por 2 a 0. Outro dia perdeu por 7 a 1. Que bom fosse esse o resumo de nossas vitórias e derrotas.

FOTO AGÊNCIA BRASIL EBC

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