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Editorial: ‘Um professor notável’

Para Arthur Virmond de Lacerda, a palavra "lockdown" poderia ser substituída por confinamento obrigatório e nada seria lesado, a não ser a obscuridade.

O advogado e professor Arthur Virmond de Lacerda Neto é o entrevistado dessa edição da Bonijuris. É de sua autoria o livro “Herança do Direito Romano” que está sendo lançado pela editora que também publica a revista. Por enquanto em edição digital – o termo e-book repugna Lacerda – em consequência dos males do Brasil que continuam sendo as saúvas, mas também a saúde. E a esta se deseja melhor sorte em meio à peste moderna que nos assombra. Lacerda é um estudioso do direito romano e a ele tem se dedicado durante toda sua vida, que é curta – não queiram dar um cajado ao ancião que dele declina. A obra que reúne 586 páginas e é dividida em quatro partes pode ser lida em ordem descontinuada tal como “O Jogo da Amarelinha” de Cortázar, porque, antes de ser compilados em livro, os textos eram artigos independentes publicados em seu blog pessoal. O autor atualizou-os, deu-lhes nova revisão e, quando necessário, juntou a eles trechos inéditos, fruto de pesquisas recentes. Lacerda não possui um telemóvel (repugna também o termo celular), mas não é avesso à tecnologia. Em sua página, no facebook, ele se dedica especialmente, mas não só, a denunciar os vícios de linguagem que assomam. É um inimigo declarado dos estrangeirismos de toda sorte, principalmente quando eles parecem de fato despropositados. Em campanha recente, ergueu sua fúria contra o vocábulo “lockdown”. Prenhe de motivos, por óbvio. A palavra poderia ser substituída, em benefício da compreensão, por confinamento obrigatório. E nada seria lesado, a não ser a obscuridade. Lacerda está à frente igualmente do movimento contra a gramaticofobia. Para ele, não há mal nenhum, muito pelo contrário, em defender a mesóclise, os pronomes contraídos e a correção gramatical, mesmo que os boquirrotos chamem a isso pedantismo, ou elitismo, ou eruditismo. Pois não é.  Em uma espécie de manifesto, o professor convoca os amantes da norma culta para que se insurjam contra a gramaticofobia. Que revelem-se, que saiam do armário, que bradem ao vento. “Os desprezadores da mesóclise e das formas cultas são os atuais caretas, os futuros retrógrados, os em breve anacrônicos”. Lacerda é mesmo notável.

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Em fevereiro, o direito brasileiro sofreu duas perdas irreparáveis com a morte dos juristas René Ariel Dotti, aos 86 anos, e do advogado e ex-procurador regional da República Edgar Katzwinkel Júnior, aos 74. Ambos figuras da área jurídica que foram também professores em suas respectivas áreas e deixaram um legado de disciplina, ética, justiça e humanidade, que ficará na lembrança de seus alunos. Ao longo de 60 anos, o escritório do jurista René Ariel Dotti defendeu jornalistas sem cobrar honorários. Era uma tradição. Os anos da ditadura deixaram-lhe marcas. “Tive medo, confesso. E tenho falado muito na liberdade de não ter medo. O medo torna a alma refém”, disse Dotti em depoimento. Ele era colaborador frequente da Revista Bonijuris.

Edgar Katzwinkel Júnior foi procurador regional da República até aposentar-se e dedicar-se à advocacia. Graduado pela Universidade Federal do Paraná em 1969, ele destacou-se em sua turma. Muito de seu entusiasmo pelas letras jurídicas Katzwnkel transmitiria, depois, aos seus alunos, no período que lecionou Direito Comercial na UFPR, entre 1976 e 1989. “Era amado pelos estudantes por compartilhar conhecimento com generosidade e de maneira afável”, declarou a instituição em nota de pesar. Katzwinkel foi patrocinador da Bonijuris.

(Bonijuris #669 Abr/Maio 2021)

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