Doutor é quem tem doutorado. Mas…

Doutor é quem tem doutorado. De fato. Porém, o doutor (em sentido coloquial) não é expressão, por inerência, de soberba. Aliás, em 50 anos , jamais percebi que algum médico ou advogado o usasse ou pretendesse por soberba, o que não exclui que algum médico ou advogado estivesse nesta situação, que seria excepcional e insólita (noticiou-se que um juiz, em 2005, processou um porteiro por causa disto e os doutores [com doutorado ou sem ele] do STF deram ganho de causa ao porteiro).O usual é que por costume, por imitação, chamam-se os médicos e os advogados assim, com naturalidade e sem soberba. A campanha que se vem movendo com o mote de que “doutor é quem tem doutorado” parte de quem enxerga no “doutor” arrogância, opressão e desigualdade, mais imaginárias do que reais.

A lei que criou, em 1827, os cursos jurídicos, no Brasil, atribuiu o tratamento de “doutor” aos bacharéis, pelo que tal vocativo, entre nós, tem origem na forma como se intentou (creio), enaltecer ou, pelo menos, assinalar, a condição de quem fosse formado em leis, o que (se não estou em erro) retomou o uso do século 13, em que aos antigos comentadores (integrantes da segunda geração da tradição romanista), professores de direito, se tratava por esta forma.

Tal campanha porta o etos de que o tratamento em causa é odioso por exprimir desigualdade, justificado com o argumento, aliás correto, de que doutor é o portador do título acadêmico respectivo.Será que se exprime alguma invejazinha, algum ressentimentozinho, algum despeitozinho, alguma instauração de animosidade entre o pessoal acadêmico ou entre a classe dos médicos e dos advogados e a restante população? Ou inspira-se apenas no amor da igualdade? Ou um ou outro, conforme o ativista? Ou nada disto?“Você” não cai bem em todas as situações. Há situações de formalidade, de distância, de desigualdade de estatuto, de idade, em que cai melhor o senhor ou senhora. Nos tempos que correm, muitos moços desusam ou usam menos o senhor e senhora para os mais velhos, sem ânimo desrespeitoso. Alguns (ou talvez muitos) cinquentagenários, sexagenários, septuagenários, varões e varoas, desagradam-se de que se os trate por senhor ou senhora. Ao receberem tal vocativo, alguns objetam: “O senhor está no céu”, para indicarem Javé ou Jesus, o que, por sua vez, leva a que algumas pessoas tratem tal público por você, dado o receio de que o tratado sinta-se ofendido com ser chamado de senhor ou senhora. Da parte destes senhores (sim, trato-os por senhores e uso a forma masculina para indicar homens e mulheres) haverá o conceito (que julgo tolo) de que a velhice os desdoura, de que tratá-los por senhor e senhora equivale a chamá-los de velho, como se “velho” representasse vitupério.

Haverá a ideia (que julgo tolíssima) de que a juventude constitui a fase ideal da vida (em decorrência de que, entre nós, a juventude é valor existencial e não apenas condição etária). Haverá a atitude (que se me afigura pueril) de enganarem-se e enganarem-nos, mediante a exclusão do tratamento aplicável aos mais velhos, como se tal exclusão lhes evitasse a velhice. Ora, meu senhor, deixe-se de criancices…não terá menos idade porque o chamam de você… Haverá, finalmente, a recusa da própria idade, o anseio de se conservar jovem, de parecer jovem. Sim, parecer, com aparência mais enganosa e frívola, em que o fato (adoro a forma lusitana, facto) da idade se dissimula (dissimula?) pelo tratamento. Haverá, finalmente, os que julgam que senhor ou senhora aplica-se, sim, porém aos de 70, 80, 90 e mais anos, caso em que se posterga a aplicação para quem seja, indisfarçavelmente velho (o que me parece criterioso). A rigor, pode-se usar, sem ânimo desrespeitoso, o você, mas há situações em que respeitoso é o tratamento formal e o “você” pode ser ou parecer deseducado: há hierarquia entre os interlocutores; tratam-se em público (em privado, tratam-se por você, por tu, pelo nome); não há liberdade de trato entre eles; o hiato etário entre eles é demasiado.

Nas gerações moças, prescreveu-se, em medida perceptível, o uso do senhor: é sinal dos tempos, ou seja, na mutabilidade constante do etos e do patos, vem se alterando o tratamento. Por outro lado, com “doutor” ou sem ele, julgo censurável a soberba, a altanaria, seja lá de quem for, seja do doutor em sentido coloquial ou com doutorado. Aliás, deter o título favorece a soberba e as “carteiradas” (falácia do apelo à autoridade: em polêmica, o doutor alega o seu doutorado como pseudo-demonstração da sua razão e como prova das suas alegações [a mim, doutorados não me impressionam, máxime em linguística: se a ciência não é neutra, os doutores em doutrinas de Marcos Bagno são assaz tendenciosos.]). Ser doutor (com doutorado) porventura estimula alguns a exprimirem-se acerca do que ignoram ou que mal conhecem, porque conhecem a partícula de conhecimento a que lhes corresponde o doutoramento. Há doutores que asneiram, e como! Há doutores e até pós-doutores que redigem mal, e como! Doutores, indoutos.“Doutor” é título acadêmico; fora do meio acadêmico, ele não faz sentido. Fazem sentido você e senhor ou senhora. Fora do meio acadêmico, faz sentido o doutor em sentido coloquial, como tratamento inveterado (o que não significa que esteja imune à crítica e ao abandono.). (Não detenho doutorado, porém apenas mestrado. Causa-me ojeriza que me identifiquem como Professor Msc; causar-me-ia ojeriza que me identificassem como Professor Doutor. Sou professor: é o quanto me basta; mais [no meu idiossincrático sentir] é ostentação e, em alguns, vaidade. Não pratico ostentação nem sou vaidoso. No meio acadêmico, são de praxe as fórmulas Professor Msc e Professor Doutor. Que sejam de praxe, dá-me o que pensar, acerca da vaidade humana).

Publicado originalmente em www.arthurlacerda.wordpress.com em 2 de agosto de 2016.

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