Cristóvão Tezza descobre o Brasil com o melhor do mau humor

Em sua obra mais famosa – “O Filho Eterno” –, o escritor catarinense radicado no Paraná, Cristóvão Tezza, 66, conta a história de quando residiu em Portugal, cumprindo temporada de estudo e trabalho, não necessariamente nessa ordem, e recebia de um parente, a cada mês, uma nota de 100 dólares pelo correio. Era suficiente para garantir-lhe a sobrevivência até que outro envelope, contendo cédula do mesmo valor, fosse depositado sob sua porta. Fato ou ficção, Tezza disse que o dinheiro era proveniente do cofre do governador de São Paulo, Ademar de Barros, roubado por guerrilheiros perspicazes, entre eles uma certa Dilma Rousseff.

UNHA E CARNE

O livro “Tirania do Amor”, publicado em 2018, parece retomar, ainda que como pano de fundo, esse fio condutor na obra de Tezza. Principalmente naquilo que a contemporaneidade brasileira tem de mais perigoso: a casta de privilegiados do serviço público, a imposição da identidade e o conceito de democracia racial importado em um país de miscigenação ímpar. No quesito economia, o escritor não tem pruridos em comparar, de forma nada sutil, as políticas econômicas de Ernesto Geisel e Dilma Rousseff. Para Tezza, unha e carne em seu estatismo irracional.

TEZZA TEM UMA TESE

Em entrevista que concedeu à Folha de S. Paulo, por ocasião do lançamento da obra, Tezza não foi econômico nas críticas ao esquerdismo de intelectuais, pululando, em sua maioria, nas universidades públicas. Tezza tem uma tese, com o perdão do trocadilho: diz que o intelectual, no Brasil, é de esquerda porque, “do ponto de vista institucional”, ela é organicamente estatizante. “Temos um amor ao Estado. Todos, do milionário ao pobre”, afirma. Diz um pouco sobre o perfil do homem cordial, propenso ao conforto e à modorra das repartições. Avesso, por consequência, ao empreendedorismo e o que dele emana: a produtividade.

REDUCIONISMO

O ficcionista tem um histórico de esquerda em um quadro em que esta anulou-se. Principalmente em questões que tornaram-se “reducionistas” e avassaladoramente irracionais. Não por acaso, a história se passa em 2017. Não há por que mascarar a realidade de circo mambembe. Tezza guarda especial horror ao discurso identitário tão em voga nos dias atuais. Já ouviu que não tem direito a lançar mão de personagens negros em seus romances porque não é negro. “Se não posso representar um outro, realmente acabou”. Em “Tirania do Amor”, não por acaso, o pai da personagem é negro e a mãe, branca. “É a situação de milhões de pessoas no Brasil, é o país mais miscigenado do mundo”, diz.

ELE INSISTE E DESISTE

Tezza insiste: “Não vou defender Gilberto Freyre” (o autor de ‘Casa Grande & Senzala’ e a ideia de bacanal de raças sob as ordens do senhor). Mas desiste: “O racismo americano tem a ideia da gota de sangue [negro] que condena [alguém]. Tentam importar essa teoria, isso não faz o mais remoto sentido no Brasil”.

Ah sim, ele fala de Lula. “As pessoas não estão preocupadas com a prisão [do ex-presidente], mas com o preço do abacate”. Ora, se não houve uma quebra institucional brutal, o Brasil continua. Sem governo e andando sozinho. Apesar de Bolsonaro.

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