Conversações com Goethe

João Pedro (Johann Peter) Eckermann foi poeta alemão (1792 – 1854) e amigo de seu afamado patrício João (Johann) Goethe (1749 — 1832), com quem conviveu de 1836 a 1848, embora já se conhecessem desde 1823. Ao longo dos doze anos de sua convivência, Eckermann registrou com fidelidade o quanto dialogou com Goethe ou o quanto lhe ouviu e que se lhe afigurou merecedor de perenização em livro. Graças a tal cuidado conservaram-se e transmitiram-se-nos abundantes observações, juízos e ponderações de Goethe acerca de, principalmente, literatos, poetas e dramaturgos (Byron, Schiller, Molière, Sófocles, Manzoni, Carlyle, Voltaire, Walter Scott, Calderón, Vitor Hugo) e algumas das respectivas obras. Também há observações concernentes à religião, ao espírito dos alemães e ingleses, ao papel dos mestres na formação estética, à ornitologia, a Hegel e sua dialética e a outros temas.

        Mais célebre dos literatos de idioma alemão, Goethe produziu prosa, verso e dramaturgia, de que foram publicadas no Brasil: Werther, Afinidades eletivas, Fausto, Verdade e poesia (autobiografia), Viagem à Itália, A metamorfose das plantas, Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister[1].

     No calendário positivista (constituído em 1849 por Augusto Comte e que consagra os principais agentes do desenvolvimento da humanidade), ele ocupa o dia 6 do mês de Shakespeare (comemorador da literatura e da música modernas), correspondente a 15 de setembro da cronologia júlio-gregoriana. Augusto Comte recomendava a leitura de suas obras selecionadas, embora não houvesse discriminado exatamente quais. Dentre elas incluiria certamente o Fausto, que seu sucessor, Pedro (Pierre) Laffitte examinou em livro que lhe dedicou especialmente[2].                                      A literatura memorialística, autobiográfica ou, como no caso, de cavacos de vultos superiores, é potencialmente edificante e instrutiva. Não se podendo conviver objetivamente com Goethe, podemos “ouvi-lo” subjetivamente na parte do quanto disse e que Eckermann apontou.

       Seis edições pelo menos têm as Conversações em vernáculo, no Brasil e em Portugal; entre nós, devemo-las às editoras Irmãos Pongetti (1950), Itatiaia (2004) e Unesp (2016)[3].

     No registro de Eckermann há lugares desigual ou diversamente interessantes, conforme a perspectiva do leitor, a quem se deparam pérolas como:

Valor dos escritores gregos: “Deve-se estudar Molière, deve-se estudar Shakespeare, mas, sobretudo, os gregos antigos, e sempre os gregos.” (edição Unesp, p. 582). Disse-o como literato; di-lo-ia Comte, como filósofo que remendava a leitura de Homero, Ésquilo, Sófocles, Aristófanes, Aristóteles, Píndaro e Teócrito.

Natureza social da cultura: “Mas no fundo todos nós somos seres coletivos […] Pois quão pouco daquilo que temos e somos podemos chamar de nossa propriedade no sentido mais puro da palavra! Todos temos de receber e aprender tanto daqueles que nos antecederam quanto daqueles que estão conosco. […] Conheci artistas que se gabavam de não haver seguido nenhum mestre e de deverem tudo ao seu próprio gênio. Que tolos!” (Ibidem, p. 713-4). Disse-o como teria dito Augusto Comte, com sua concepção de Humanidade.

Religião: “Há muita estupidez nos dogmas da Igreja. Mas ela quer governar e para isso precisa de uma massa obtusa que abaixe a cabeça e se deixe dominar. O alto e ricamente dotado clero não teme nada tanto quanto o esclarecimento da massa inferior.” (Ibidem, p. 717). Disse-o como o disseram Voltaire, Condorcet e os enciclopedistas. Tal não diria da religião da Humanidade (constituída por Augusto Comte) que, ao contrário, encarece a instrução e o esclarecimento de todos, e fomenta a leitura (em idiomas) da Biblioteca Positivista, seleção de filosofia, história, ciência e literatura, que Comte organizou.

Reformismo: “O verdadeiro liberal[4] procura produzir tanto bem quanto puder com os meios que lhe estão à disposição; mas se guarda de querer extirpar imediatamente pelo fogo e pela espada todas as falhas quase sempre inevitáveis. Esforça-se por, avançando com prudência, eliminar pouco a pouco as imperfeições da vida pública sem, com medidas violentas, destruir ao mesmo tempo outras tantas coisas boas. Neste mundo sempre imperfeito, ele se dá por satisfeito com o bom até que o tempo e as circunstâncias lhe permitam alcançar o melhor.” (Ibidem, p. 667). Disse-o como teriam dito Burke e os romanos da Antigüidade e como disse Augusto Comte, com seu aforismo “melhorar enquanto se conserva”, acepção em que o Positivismo é conservador ou, melhor, reformista[5].

Desonestidade intelectual: “A falta de caráter dos indivíduos que pesquisam e escrevem — disse ele [Goethe] — é a fonte de todo mal em nossa literatura mais recente. Especialmente a crítica dá mostras dessa falta, para prejuízo do mundo, pois ou ela propaga o falso por verdadeiro ou, por causa de uma verdade miserável, nos priva de algo grande que nos traria maiores benefícios.” (Ibidem, p. 165). Disse-o como digo eu, quanto aos criticadores da obra de Augusto Comte que vicejam no Brasil (João Camilo de Oliveira Torres, Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino, Rafael Salvi, Marcelo Viana, Marilena Chauí).

Incesto germanal: “Seria então preciso ignorar os inúmeros casos de relações aberta ou ocultamente sexuais entre irmão e irmã.” (edição Pongetti, p. 211).

Educação: “Tudo que é grande educa, desde que nos apercebamos da sua grandeza.” (Ibidem, p. 309).

Em geral, é boa a tradução de Mário Luiz Frungillo, na edição da Unesp, contudo lamentavelmente eivada de vícios e cacoetes circulantes na coloquialidade e na escrita de gente desatenta ou menos instruída no idioma.

Ela adotou galicismos e anglicismos, a exemplo de constatar, sucesso, detalhe, admitir, a partir de, fato de; lá meteu um repugnante significância (p. 131), sem o menor embaraço com o decalque do inglês inteiramente dispensável. É verdade que aqueles vocábulos circulam entre nós há décadas, o que prova apenas serem intrusões já antigas e nem por isso menos indesejáveis e substituíveis por vozes castiças (respectivamente: averiguar, apurar, verificar, certificar-se de; êxito; pormenor, minúcia, minudência; aceitar, reconhecer, concordar com, convir com; a contar de, de então por diante, daí para frente). Fora purista, e teria o mérito de sê-lo.

Redigiu sol, lua, terra, com minúsculas (pp. 329, 344-5 et passim).

Cometeu o vício de algo: “não eram algo para mim” (p. 236 et passim) por “não eram para mim”.

Em muitas centenas de lugares em que poderia ter usado pronomes átonos, usou quase somente os tônicos. Por exemplo: “se apresentem a nós” por “se nos apresentem” ou “apresentem-se-nos” (p. 97); “Será instrutivo para mim” em vez de “Ser-me-á instrutivo”; “têm para mim o efeito” em lugar de “têm-me o efeito” (p. 67), “talvez seja o melhor para mim hoje” em vez de “talvez seja-me o melhor hoje” (ibidem); “nos anos que se seguiram a ela” por “nos anos que se lhe seguiram”. O uso dos pronomes átonos é correto, elegante e propicia diversidade e até melhor eufonia, conforme o caso. Jamais os empregar ou fazê-lo raramente é empobrecedor.

Errou a regência dos verbos perdoar (“perdoá-los”, p. 116 e não só) e obedecer (p. 151, duas vezes); o pronome (“fiz-lhe” por “fi-lo”, p. 117).

Empregou adjetivo por advérbio de modo: “favorável” por “favoravelmente” (p. 280 et passim).

Aplicou o artigo indefinido ao modo francês, despiciendo em português: “Eu me conheço e sei que sou uma pessoa das mais estranhas.” (p. 406); “Trata-se de um livro notável” (p. 239 et passim).

Usou errada e repetidamente a preposição na construção “fiquei feliz que”, embora vez por outra desse com a certa (“feliz por”, p. 259); ocasionalmente, outras preposições também aplicou mal.

Foi totalmente incapaz de contrair pronomes em dezenas de ocorrências em que poderia tê-lo feito: “O senhor a deu de presente para mim” (p. 180) aceita ser construída: “O senhor deu-ma de presente”. A contração dos pronomes (mo, ma, to, ta, vo-lo, vo-la, lho, lha, no-lo, no-la) é correta, elegante e econômica.

Errou a próclise: “não havê-lo feito” (p. 183 et passim).

Cometeu duas vezes o mesmo tipo de erro de concordância: “Mesmo os gregos, de quem nos vieram esta regra” (p. 151 et passim).

Insistiu, obsessivamente, na próclise, o que lhe tornou a plástica do texto repetitiva e geralmente monótona, raramente excetuada por ênclises e somente por três mesóclises, estas e aquelas cabíveis e até obrigatórias dezenas de vezes.

 Tais tipos de vícios e deficiências repetem-se alguns menos, outros copiosamente. Ainda que se fale e escreva dessa forma, o autor ou o tradutor realmente rigoroso deve enjeitar zelosamente os defeitos e os empobrecimentos de linguagem presentes na massa que, malgrado escolarizada, vem sendo mal preparada em vernáculo no Brasil nas últimas quatro décadas e até mais. Ser diplomado em curso superior, até com grau de mestre e doutor, no Brasil, já não mais correspondem a proporcional preparo em sintaxe e léxico. Nossos universitários soem redigir canhestramente, nossos estudantes há anos granjeiam os derradeiros lugares nos exames internacionais de proficiência em vernáculo, nosso público exprime-se aquém da riqueza de nosso idioma: seu ensino deficiente mais o espírito de permissividade e de agramaticalidade exprimem-se no uso errado ou no desuso (por ignorância ou desdém) de recursos da língua, na difusão de vícios e cacoetes.

É reprovável que esta tradução incorporasse defeitos em voga e se privasse de lançar mão, e largamente, de todos os recursos do idioma. É falacioso alegar-se nisto consistir o “português do Brasil” ou o “estilo do tempo”, alegação que se circunscreve a averiguar um fato, sem ajuizar sobre ele nem reagir contra ele. O juízo é: os vícios constituem fealdades e as deficiências, empobrecimento; ambos constituem defeitos. A reação é: urge evitá-los.

Reação e juízo dão-se em nome da qualidade do texto, de repugnância pelo quanto represente forma inferior de uso idiomático, de nivelar-se por cima, sem concessões, a todo transe: somente assim se alcança o ótimo, o excelente.

Bom autor e bom tradutor é o que evita os defeitos, ainda que circulantes; é o que se esforça pelo melhor, em vez de praticar (para valer-me de oportuna locução portuguesa) mais do mesmo ruim; é o que sabe mais e bem usa seu saber.

Conquanto escorreita, a tradução de Mário Luíz Frungillo está pintalgada de sem-número de nódoas de feiúra. Nela:

1) desperdiçou-se oportunidade de elevar-se o uso do idioma, pela aplicação de mesóclise, ênclise e contração pronominal, que lhe propiciariam correção e variedade plástica;

2) adotaram-se vícios e deficiências inaceitáveis, e datados: ela contém amostras de escrita que poderia e deveria ser melhor;

3) atribuíram-se a Goethe cacoetes, insuficiências, erronias, em que ele jamais incidiria, quer na escrita, quer na fala, fosse em alemão, fosse em português. Não se haveria expressado como se lê nos defeitos desta tradução que, neste âmbito, é como se falsificasse a elocução de Goethe e a redação de Eckermann. Certamente ambos adeririam a esses três itens.

Recomendo-vos a edição selecionada e idêntica das editoras Pongetti e Itatiaia, com tradução brasileira impecável. Data de 1950: é atualíssima por sua qualidade: o ótimo em literatura é duradouro. Daí, aliás, a vantagem de reeditarem-se livros brasileiros de até meados de 1980: redigidos ou traduzidos, mormente eram-no bem[6].


[1] É pena não haverem intitulado de Os anos de aprendizado de Guilherme Meister. Guilherme, em português.

[2] O Fausto de Goethe, Paris, 1899, Pelletan editor, 106 p.

[3] Eis as edições em português:

 a, b)  Conversações com Goethe (na capa)ou Conversações de Goethe com Eckermann (na página de rosto), seleta portuguesa de 1947, da Livraria Tavares Martins (Porto), com tradução de Luís Silveira. Consta de 330 páginas, in 16, com índice onomástico e bela tradução. Virtuosamente, usa exônimos: Cláudio Loreno, Monte Branco, Otília, Alberto em lugar de Claude Lorrain, Mont Blanc, Ottilie, Albert (empregados pela edição da letra “e”); também Carlota Stein, João Godofredo Herder, Luís Van Beethoven, João Pedro Eckermann (este, todavia, com endômino em o prefácio), Ulrica de Levetzow, Augusto Goethe. Sejam exantropônimos, sejam exotopônimos, os exônimos são perfeitamente usáveis. Foi republicado pela editora portuguesa Vega (Conversações com Goethe, Lisboa, 2007, 230 p. in 8º).

c, d) Conversações com Goethe. É espessa edição brasileira, ilustrada e selecionada, de Irmãos Pongetti Editores, de 1950, com ótima tradução e notas de Marina Leivas Bastian Pinto e prefácio de Augusto Meyer. Consta de 377 páginas in 8º, com reduzido índice onomástico. Emprega exônimos (Otília, Carlos Augusto, Ulrica, Monte Rosa, Frederico Carlos, Luís, Ernesto, Ana, Amália), mas também endônimos (Friedrich, Wilhelm, Heinrich, August) no texto e nas notas. Foi republicado pela editora Itatiaia (2004), em volume fino.

e) Conversações com Goethe nos últimos anos de sua vida 1823 – 1832. Edição brasileira, completa, da Unesp (2016), com 718 páginas in 8º, sem índice e com antelóquio e elucidativas notas do tradutor, Mário Luíz Frungillo.

f) Conversações com Goethe. Tradução brasileira e edição portuguesa da Lebooks Editora, à venda em Portugal (2019, 290 p.).

[4] Diríamos conservador.

[5] Não se deve identificar o conservadorismo positivista, romano, britânico e de Goethe (conservadorismo em sentido augusto) com a corrente política atualmente assim chamada no Brasil (conservadorismo em sentido trivial). O ideário positivista é reformista por entender o progresso como inerente à ordem, a evolução à permanência, em prol das liberdades políticas e civis, fraternidade, espírito público, espírito científico; valorização da mulher, do ambiente, dos animais, da alta cultura; escrutínio do poder político pela opinião pública, destinação social da riqueza, incorporação social do proletariado, erradicação do militarismo e da violência. “O positivismo é um reformismo, um convite para atuar para melhorar, pela inteligência, a atividade, a afetividade, a ordem espontânea.” (Traduzi. SARTORI, E. O socialismo de Augusto Comte [Le socialisme d´Auguste Comte]. Paris, Harmattan, 2012, p. 134. Cf. p. 105-6).

[6] Foram ótimos tradutores brasileiros: Octávio Mendes Cajado, Breno Silveira, Amílcar Cabral, João Paulo Paes, Nair de Lacerda, Sérgio Milliet, Marcos Santarrita. O quanto se traduz em Portugal é excelente (como Henrique de Macedo, em relação a Júlio Verne).

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