Não Tropece na Língua

Coluna da escritora Maria Tereza Queiroz Piacentini, autora dos livros “Não Tropece na Língua” e “Não Tropece na Redação” – ambos editados pela Bonijuris -, entre outros. Maria Tereza é formada em Letras e mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

1 de junho de 2020

“O problema são as leis” – Concordância do verbo ser

O objetivo desta matéria é apresentar ao nosso leitor quatro casos particulares de concordância do verbo ser, os quais costumam suscitar dúvidas pelo fato de compor uma sintaxe fora do habitual. 

1) Sendo impessoal, numa oração sem sujeito, o verbo ser concorda com a palavra a que se refere relativamente a data, tempo, distância: 

Hoje é dia 30. 

Hoje é 30 de maio. [concorda com a palavra ‘dia’ subentendida] 

Hoje são 21 de abril. [forma correta mas desusada] 

Até lá é uma hora e meia de caminhada. 

São apenas cinco minutos de espera. 

Contei: é um metro de um lado a outro. 

Daqui ao escritório são dois quilômetros. 

2) Quando o predicativo é um pronome pessoal do caso reto, o verbo ser concorda obrigatoriamente com o predicativo: 

As responsáveis somos nós mulheres. 

Os malucos sempre eram eles.  

3) Quando o predicativo é formado por um substantivo no plural, o verbo ser concorda preferencialmente com o predicativo (e não com o sujeito): 

O problema são as leis mal feitas. 

O motivo da demora são as falhas no processo. 

A prioridade agora são os programas sociais. 

O público-alvo serão as pessoas mais vulneráveis. 

O limite na UTI são 35 pacientes. 

A paixão de Júlia sempre foram os gatos. 

4) Com o predicativo formado por substantivo no plural, sendo o sujeito um pronome indefinido ou demonstrativo (em negrito abaixo), o verbo ser concorda preferencialmente com o predicativo: 

Tudo são trevas, aparentemente. 

Nem tudo são flores. 

Isto são problemas passageiros. 

Aquilo que vemos são as montanhas nevadas. 

O que há são dificuldades a serem superadas pouco a pouco. 

O que houve foram discussões intermináveis. 

O que não falta são combustíveis caros. 

O que mais preocupava eram as terras devolutas. 

No tocante aos dois últimos itens, devo salientar que também se encontra o verbo ser no singular, concordando com o sujeito, sobretudo na linguagem literária: 

Há iniciativas de combate ao vírus. O que não há é iniciativas governamentais direcionadas às populações carentes. 

“O lugar do poema é todos os meios de comunicação. O lugar do poeta é todos os lugares.” Lindolf Bell 

“Sou um guardador de rebanhos. O rebanho é meus pensamentos. E os meus pensamentos são todos sensações.” Alberto Caieiro (Fernando Pessoa) 

“Tudo é flores no presente.” Gonçalves Dias 

20 de maio de 2020

Presente do subjuntivo: que seja útil

— Existe alguma regra que se refere ao uso do presente do subjuntivo que seja específica para orações subordinadas? Marion Pinto, Florianópolis/SC


A própria origem da palavra subjuntivo (do latim subjunctivus – que serve para ligar, para subordinar) indica sua função principal. O subjuntivo é por excelência o modo utilizado nas orações subordinadas que dependem de verbos cujo sentido esteja ligado à ideia de ordem, proibição, desejo, vontade, necessidade, condição e outras correlatas.


O uso do subjuntivo implica, em qualquer caso, uma probabilidade, uma não-concretização – ainda – de alguma coisa. Observe duas frases com a mesma construção:


. Temos lideranças que contribuem para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. [o verbo da oração principal é TER, portanto já existem tais líderes, o que implica o uso do modo indicativo na oração subordinada]


. Queremos formar lideranças que contribuam para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. [aqui estamos na fase de QUERER: ainda não temos esses líderes, daí o uso na oração subordinada do subjuntivo “contribuam”]


Exemplos de uso do PRESENTE do subjuntivo


Para exprimir ordem, proibição, desejo, vontade, súplica:


Deseja que eu volte logo.

Ordenou que paguemos a dívida.

Proibiu que os sócios bebam e implorou que eles trabalhem.

Ele sempre pede que o pessoal estude com afinco.

Nada impede que a integração se  e que alguns gerentes de unidades de conservação possam ser escolhidos.

Pretendemos desenvolver ações que incentivem a pesquisa e a implementação de práticas pedagógicas anti-racistas.

Vamos discutir ações e propostas que busquem alterar as desigualdades raciais.

Esperamos então que os guardas-parques que tanto queremos já possam estar uniformizados e trabalhando no próximo verão.


Para exprimir dúvida, receio, necessidade, condição, apreciação, aprovação, admiração:


Duvido que saibas

Não acredito que chores por isso.

Será melhor (ou pior) que não diga nada. 

Negou que tenha cometido o delito.

Lamentamos que nossos atendentes sejam relapsos.

É importante que todos percebam o real papel dos guardas-parques. Eles são os verdadeiros heróis da conservação das áreas protegidas e não é justo, nem bom para a natureza, que continuem sendo esquecidos

É preciso que se deixe de lado esta visão que nos aprisiona num passado de dor e não permite melhorar as condições de vida dos afrodescendentes.

O Estado deve definir políticas de inclusão que possibilitem às crianças condições de realizar seu percurso escolar até o ensino superior.

Temo que não mais se publiquem livros que provoquem o pensar.
 

Também usamos o presente do subjuntivo para referir fatos incertos com o advérbio talvez em períodos simples ou orações coordenadas:


Talvez eu assista ao jogo.
Talvez sejam contempladas, talvez sejam eliminadas.


Igualmente em frases imperativas:


Que sejas feliz.
(Que) Deus nos abençoe.
 Bons ventos o levem.
Cantemos a uma só voz…

12 de maio de 2020

A distância versus à distância: por que a crase deve diferenciar uma e outra?

Por que a crase deve aparecer na expressão à distância? Porque facilita o seu reconhecimento, já que as palavras a distância podem ocorrer em situações parecidas. Vejamos.

– O substantivo precedido de artigo definido ocupa a função sintática de sujeito, objeto direto ou predicativo:

A distância entre nós é grande.

Vimos a distância de uma estrela a outra.

A preocupação era a distância do lugar.

– Com o a craseado precedendo o substantivo, porem, a sua funcao so pode ser de locução adverbial, a qual exprime uma circunstancia de modo:

À distância é que se pode observar melhor o fenômeno.

Vimos à distância somente o que nos permitiram ver.

A preocupação era permanecer à distância naquele lugar.

Alguns autores classificam a ocorrência dessa crase como facultativa. Mas há quem seja categórico, como o etimologista, professor de literatura, linguista e escritor Deonísio da Silva:

“As placas do DNER põem crase em ‘obras à (sic) 100 metros’. E o Ministério da Educação (MEC), não sei a quem consultou para isso, obriga as universidades a escreverem ‘educação a (sic) distância, que deve ter crase. Sugiro que o governo mande o MEC tomar emprestada ao menos uma crase do DNER e escrever corretamente ‘educação à distancia’, com crase.” (JB Online, 18/9/2009)

Explicação

As locuções adverbiais de circunstância – modo, meio, lugar, tempo – são formadas pela sequência preposição a + substantivo ou adjetivo. A maioria delas tem a ver com o modo, respondendo à pergunta “como?” Por exemplo: “Comprou o carro à vista.” Comprou como? À vista.

Nas locuções adverbiais masculinas, como a pé, a cavalo, a caráter, a frio, a gás, a gosto, a lápis, a meio mastro, a nado, a óleo, a prazo, a sério, a tiracolo, a vapor etc., não se acentua o a, que é uma simples preposição.

Nas locuções circunstanciais femininas, contudo, embora esse a possa ser mera preposição, é

de tradição acentuá-lo por motivo de clareza. Compare nos exemplos abaixo o significado da

frase sem o acento e com ele:

Favor lavar a mão. – Favor lavar a mão (e não à máquina).

Caiu a noite (anoiteceu). – (o idoso) Caiu à noite.

Cortei a faca. – Cortei à faca.

Coloque a venda (faixa nos olhos). – Coloque à venda.

Fotografou a distância (de um ponto a outro).

Fotografou à distância.

Ensino a distância (entre isto e aquilo). Ensino à distância.

Vamos estudar a distância. Vamos estudar à distância!

É por essa questão de clareza que se recomenda e geralmente se acentua o a nas locucoes femininas circunstanciais, para que a preposição não seja confundida com o artigo definido. Nesses casos não funciona o artificio de ver como e que se comporta uma expressão similar no masculino, pois excepcionalmente não haverá correspondência de a com ao. Por exemplo, escreve-se vender à vista, ainda que se escreva vender a prazo.

Determinação: à distancia

Com a distância determinada, especificada, o a deve ser obrigatoriamente craseado:

Favor se manter à distancia de dois metros pelo menos.

Cientistas esperam medir 60 mil galáxias à distância de nove bilhões de anos-luz.

Ficou à distância de uns 10 km do alvo.

Então, embora se considere facultativa a crase fora da situação específica acima, achamos preferível usá-la porque a presença do acento facilita a leitura, como já vimos. É também por essa razão que a Revista Bonijuris adota sempre a grafia à distância quando se trata da locução adverbial.

*Maria Tereza Queiroz Piacentini, autora dos livros “Não Tropece na Língua” e “Não Tropece na Redação”, ambos editados pela Bonijuris.