Não Tropece na Língua

Coluna da escritora Maria Tereza Queiroz Piacentini, autora dos livros “Não Tropece na Língua” e “Não Tropece na Redação” – ambos editados pela Bonijuris -, entre outros. Maria Tereza é formada em Letras e mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

20 de maio de 2020

Presente do subjuntivo: que seja útil

— Existe alguma regra que se refere ao uso do presente do subjuntivo que seja específica para orações subordinadas? Marion Pinto, Florianópolis/SC


A própria origem da palavra subjuntivo (do latim subjunctivus – que serve para ligar, para subordinar) indica sua função principal. O subjuntivo é por excelência o modo utilizado nas orações subordinadas que dependem de verbos cujo sentido esteja ligado à ideia de ordem, proibição, desejo, vontade, necessidade, condição e outras correlatas.


O uso do subjuntivo implica, em qualquer caso, uma probabilidade, uma não-concretização – ainda – de alguma coisa. Observe duas frases com a mesma construção:


. Temos lideranças que contribuem para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. [o verbo da oração principal é TER, portanto já existem tais líderes, o que implica o uso do modo indicativo na oração subordinada]


. Queremos formar lideranças que contribuam para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. [aqui estamos na fase de QUERER: ainda não temos esses líderes, daí o uso na oração subordinada do subjuntivo “contribuam”]


Exemplos de uso do PRESENTE do subjuntivo


Para exprimir ordem, proibição, desejo, vontade, súplica:


Deseja que eu volte logo.

Ordenou que paguemos a dívida.

Proibiu que os sócios bebam e implorou que eles trabalhem.

Ele sempre pede que o pessoal estude com afinco.

Nada impede que a integração se  e que alguns gerentes de unidades de conservação possam ser escolhidos.

Pretendemos desenvolver ações que incentivem a pesquisa e a implementação de práticas pedagógicas anti-racistas.

Vamos discutir ações e propostas que busquem alterar as desigualdades raciais.

Esperamos então que os guardas-parques que tanto queremos já possam estar uniformizados e trabalhando no próximo verão.


Para exprimir dúvida, receio, necessidade, condição, apreciação, aprovação, admiração:


Duvido que saibas

Não acredito que chores por isso.

Será melhor (ou pior) que não diga nada. 

Negou que tenha cometido o delito.

Lamentamos que nossos atendentes sejam relapsos.

É importante que todos percebam o real papel dos guardas-parques. Eles são os verdadeiros heróis da conservação das áreas protegidas e não é justo, nem bom para a natureza, que continuem sendo esquecidos

É preciso que se deixe de lado esta visão que nos aprisiona num passado de dor e não permite melhorar as condições de vida dos afrodescendentes.

O Estado deve definir políticas de inclusão que possibilitem às crianças condições de realizar seu percurso escolar até o ensino superior.

Temo que não mais se publiquem livros que provoquem o pensar.
 

Também usamos o presente do subjuntivo para referir fatos incertos com o advérbio talvez em períodos simples ou orações coordenadas:


Talvez eu assista ao jogo.
Talvez sejam contempladas, talvez sejam eliminadas.


Igualmente em frases imperativas:


Que sejas feliz.
(Que) Deus nos abençoe.
 Bons ventos o levem.
Cantemos a uma só voz…

12 de maio de 2020

A distância versus à distância: por que a crase deve diferenciar uma e outra?

Por que a crase deve aparecer na expressão à distância? Porque facilita o seu reconhecimento, já que as palavras a distância podem ocorrer em situações parecidas. Vejamos.

– O substantivo precedido de artigo definido ocupa a função sintática de sujeito, objeto direto ou predicativo:

A distância entre nós é grande.

Vimos a distância de uma estrela a outra.

A preocupação era a distância do lugar.

– Com o a craseado precedendo o substantivo, porem, a sua funcao so pode ser de locução adverbial, a qual exprime uma circunstancia de modo:

À distância é que se pode observar melhor o fenômeno.

Vimos à distância somente o que nos permitiram ver.

A preocupação era permanecer à distância naquele lugar.

Alguns autores classificam a ocorrência dessa crase como facultativa. Mas há quem seja categórico, como o etimologista, professor de literatura, linguista e escritor Deonísio da Silva:

“As placas do DNER põem crase em ‘obras à (sic) 100 metros’. E o Ministério da Educação (MEC), não sei a quem consultou para isso, obriga as universidades a escreverem ‘educação a (sic) distância, que deve ter crase. Sugiro que o governo mande o MEC tomar emprestada ao menos uma crase do DNER e escrever corretamente ‘educação à distancia’, com crase.” (JB Online, 18/9/2009)

Explicação

As locuções adverbiais de circunstância – modo, meio, lugar, tempo – são formadas pela sequência preposição a + substantivo ou adjetivo. A maioria delas tem a ver com o modo, respondendo à pergunta “como?” Por exemplo: “Comprou o carro à vista.” Comprou como? À vista.

Nas locuções adverbiais masculinas, como a pé, a cavalo, a caráter, a frio, a gás, a gosto, a lápis, a meio mastro, a nado, a óleo, a prazo, a sério, a tiracolo, a vapor etc., não se acentua o a, que é uma simples preposição.

Nas locuções circunstanciais femininas, contudo, embora esse a possa ser mera preposição, é

de tradição acentuá-lo por motivo de clareza. Compare nos exemplos abaixo o significado da

frase sem o acento e com ele:

Favor lavar a mão. – Favor lavar a mão (e não à máquina).

Caiu a noite (anoiteceu). – (o idoso) Caiu à noite.

Cortei a faca. – Cortei à faca.

Coloque a venda (faixa nos olhos). – Coloque à venda.

Fotografou a distância (de um ponto a outro).

Fotografou à distância.

Ensino a distância (entre isto e aquilo). Ensino à distância.

Vamos estudar a distância. Vamos estudar à distância!

É por essa questão de clareza que se recomenda e geralmente se acentua o a nas locucoes femininas circunstanciais, para que a preposição não seja confundida com o artigo definido. Nesses casos não funciona o artificio de ver como e que se comporta uma expressão similar no masculino, pois excepcionalmente não haverá correspondência de a com ao. Por exemplo, escreve-se vender à vista, ainda que se escreva vender a prazo.

Determinação: à distancia

Com a distância determinada, especificada, o a deve ser obrigatoriamente craseado:

Favor se manter à distancia de dois metros pelo menos.

Cientistas esperam medir 60 mil galáxias à distância de nove bilhões de anos-luz.

Ficou à distância de uns 10 km do alvo.

Então, embora se considere facultativa a crase fora da situação específica acima, achamos preferível usá-la porque a presença do acento facilita a leitura, como já vimos. É também por essa razão que a Revista Bonijuris adota sempre a grafia à distância quando se trata da locução adverbial.

*Maria Tereza Queiroz Piacentini, autora dos livros “Não Tropece na Língua” e “Não Tropece na Redação”, ambos editados pela Bonijuris.