Coincidência ou não, Bolsonaro e Lula vieram a público no mesmo dia para mostrar o quanto valem: zero, com viés de baixa

O presidente Jair Bolsonaro é o Valdemiro sem chapéu. Nesta terça-feira, 19, em vídeo ao vivo, voltou a defender o uso da cloroquina no combate à covid-19 e anunciar novo protocolo do uso do medicamento. Avisou, entretanto, com o elã de democrata impecável, que ninguém será obrigado a tomá-lo. “Quem é de direita toma cloroquina. Quem é de esquerda toma tubaína”, ironizou.

Não, não é o caso de tornar a última pérola presidencial hors-concours no desfile de horrores. Lembre-se, o caro leitor, que o “E daí? Lamento. Sou Messias, mas não faço milagre”, ainda reina imbatível. Mas ele pode se superar.

A máxima presidencial, de efeito tétrico, foi composta no mesmo dia em que o Brasil ultrapassou a marca de mil mortes em 24 horas. O número oficial: 1.179. Seria trágico sob qualquer ângulo se Bolsonaro estivesse sozinho em suas diatribes inconsequentes. E ele não estava.

No mesmo dia, o seu antagonista, Luiz Inácio Lula da Silva, também em “live”, achou por bem comemorar a epidemia de coronavírus porque, só assim, ele pode provar que a política liberal do ministro Paulo Guedes é um desastre.

“Ainda bem que a natureza criou esse monstro chamado coronavírus para que as pessoas percebam que apenas o Estado é capaz de dar a solução”.

Não se sabe onde o petista mirou, mas errou o alvo. E foi cruel com as vítimas. Penduremos mais essa dívida em sua conta.

As questões legais (e penais) não são suficientes para analisar essas duas figuras emblemáticas. De um lado, o mito, segundo seus seguidores. De outro, o pai dos pobres, na visão dos petistas mais arraigados.

Que ambos venham a público para inflamar disputas políticas que já se mostram manjadas e modorrentas e em momento em que o brasileiro, seja ele adepto da cloroquina ou da tubaína, flerta com o abismo, é estarrecedor.

Lula perdeu uma grande chance de ficar calado, porque assim faz poesia, ao atacar a política econômica e se esquecer das vidas que estão em risco com o crescimento da curva de contágio da covid-19.

Repetiu assim, salvo engano, a toada da banalização da morte manifestamente expressa por Bolsonaro. Este muito pelo que não disse, na maioria das vezes, e menos pelo que disse, ao lamentar enfim a marca dos 10 mil mortos, vítimas do patógeno. Lula e Bolsonaro não fizeram a dança da morte, é certo. Mas ao priorizarem a política e a guerra partidária em detrimento de uma pandemia que assusta o mundo, quantificaram o seu valor no cenário nacional: zero, com viés de baixa.

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