Brasil já conhecido na carta de Pero Vaz de Caminha – III

VIII. Enquadramento náutico.

Pelo modo de ver náutico a epístola de Caminha revela numerosos indícios de conhecimento prévio do litoral brasileiro. 

Em primeiro, é estranho que esquadra destinada à Índia e que, por isto, deveria contornar a África, se distanciasse de sua derrota natural, desmesurada e desnecessariamente a leste. Todas as embarcações que singravam em direção ao sul da África desenvolviam a volta da Guiné, curva em direção a oeste, em que se afastavam do litoral africano e dele se reaproximavam mais a sul, sem, contudo, aproximarem-se do litoral brasileiro. Cabral não descreveu a volta da Guiné, mas rumou do Cabo Verde em direitura para o Brasil e deste, outra vez em direitura, para a ponta sul da África; seu itinerário foi triangular em vez de arqueado, o que seria heteróclito e aberrante se não se dirigisse para o Brasil, cônscio de que o fazia.

Em segundo, conquanto Caminha afirme não minguarem água e lenha na ocasião do descobrimento, a esquadra proveio-se de ambas, quatro vezes, demonstração de que minguariam sem novo abastecimento no Brasil, com o que Cabral contava.

Em terceiro, é insólito que as instruções elaboradas por Vasco da Gama implicassem obrigação de a frota dispor de autonomia (suprimentos de bordo) de quatro meses ao tocar as ilhas do arquipélago do Cabo Verde, que lhe permitisse, desafogadamente, alcançar a aguada de S. Brás, na África do Sul, a leste do cabo da Boa Esperança. Se cumprida tal exigência, à frota não minguariam água e lenha, o que, aliás, conforma-se com a declaração da carta. Ou Cabral descumpriu-a (o que é inverossímil) ou provavelmente pertencia-lhe prover-se alternativamente no Brasil.

Em quarto, a linha de arribada (trajeto de aproximação à costa) forma ângulo inflectido com o da singradura: a frota deslocava-se no sentido sudoeste (de nordeste para para sul e oeste); subitamente, em lugar de prosseguir para sul (natural seqüência do deslocamento) e apropinquar-se gradualmente da costa, modifica seu trajeto para noroeste, com abrupta quase inversão de rumo, inflexão que não poderia ter sido arbitrária nem caprichosa (não o foi), senão consciente e criteriosa (foi-o).

Entre prosseguir a direção em que vinha (para sudoeste) e inflectir para noroeste, Cabral optou pela segunda. Nos pontos e momentos certos, esquivou-se de obstáculos danosíssimos, dentre os quais os recifes Itacolomis, corais e formações submersas. A esquadra transpôs, com segurança, um dos mais perigosos trechos da costa brasileira: pouco a sul do primeiro ponto de arribada havia formações ameaçadoras, como igualmente as havia pouco a norte. Cabral evitou, para onze navios, os perigos de ambos lados e fundeou exatamente no único e exíguo ponto seguro, na embocadura do rio do Frade (de onde zarpou no dia 24, rumo à atualmente nomeada baía Cabrália), sinal de conhecimento preciso do trecho em que estava.

Em quinto, a navegação da foz do rio do Frade até a baía Cabrália (na foz do rio Mutari), transcorreu em singradura direta e a salvo de percalços e atrasos, a despeito das formações perigosas ao longo de quase todo o intervalo, indício de que o conhecia. (Se não for tal indício, pelo menos demonstra a cautela com que Cabral navegou, em curso de dez horas de duração).

Em sexto, entre o ponto de zarpada e o de arribada existe a barra do rio Buranhém (na atual cidade de Porto Seguro), que poderia servir como porto bom (ou pelo menos razoável) e de que Cabral desdenhou, embora em demanda de um e malgrado navegasse com lerdeza, o que tornava inevitável que ele e os seus vissem-na e pudessem decidir entre lá ancorar ou não. Optaram negativamente, como se houvesse pouso melhor (que realmente havia).

Em sétimo, após desprezar de plano e sem inspeção o porto satisfatório da embocadura do rio Buranhém, a esquadra rumou direita para o porto excelente da baía Cabrália, um dos seis melhores ancoradouros da mui extensa costa brasileira. “Não poderia Cabral ter encontrado lugar melhor. Era o local certo para aportar com segurança e tranquilidade.” Ele acertou em cheio, como quem sabia que direção tomar e que destino demandar.

Em oitavo, por duas vezes (no rio do Frade e na baía Cabrália), Cabral encarregou Nicolau Coelho de apear por primeiro, fito para que empregou o batel, nave menor do que a nau, sua auxiliar na carga, descarga, aguada e ações de combate. Anos antes, o mesmo Nicolau Coelho (como capitão da caravela Bérrio, da armada de Vasco da Gama) explorou o rio da Misericórdia (no litoral de Moçambique) em batel: artilhou-o com dois canhonetes e doze besteiros, e cobriu-o com toldo para resguardá-lo das flechas ervadas (envenenadas), precauções ausentes no caso do Brasil, em que se julgou seguro, convicto de recepção inofensiva no primeiro desembarque e no segundo, em que apearam também Bartolomeu Dias (capitão de uma das embarcações) e Caminha (escrivão nomeado para a feitoria de Calicute), todos três figuras de prol da armada, por cujas segurança e vida não se receou e cuja perda acarretaria prejuízo náutico e administrativo, e descrédito para Cabral, que lhes consentiu no desembarque. Nicolau Coelho sabia-se seguro, como se já conhecesse os autóctones (e realmente já com eles se aviera).

Em nono, chantou-se cruz na foz do rio Mutari como sinalizadora (visível à distância por navios vindouros) do sítio da aguada, pouco distinguível na paisagem circunvizinha. O desiderato da cruz era náutico e não religioso; sua forma de símbolo cristão era pura convenção. Se o rio era de difícil localização, como Cabral facilmente se lhe deparou ? Já lhe sabia da existência; possivelmente por experiência própria.

Tal acervo de peculiaridades explicam-se por um só meio: Cabral e Caminha conheciam a existência do Brasil; aquele conhecia a situação da atual baía Cabrália: veio com rumo certo e talvez já pela segunda vez ou mais.

IX. Cronologia.

Em 1435 o Brasil já era conhecido pelos portugueses.

Em 1448 André Bianco registra o Brasil em mapa.

Em 1452 Diogo de Teive chegam à latitude do Labrador (Canadá).

Em 1472 João Vaz Corte Real apeia na Terra Nova (Canadá).

Em 1473 Afonso Sanches descobre as Antilhas, do que informa, com pormenores Cristovão Colon.

Em 1487 Fernão Dulmo viaja à América, com Martim Behaim, que mapeou a Flórida, as Antilhas e o golfo do México.

João Coelho esteve no Brasil em 1496 ou antes.

Em 1490 institui-se povoado português em Pernambuco.

João Vaz Corte Real esteve no Brasil antes de 1496.

Duarte Pacheco Pereira esteve no Brasil em 1498.

Nicolau Coelho esteve no Brasil antes de Cabral. 

CORTESÃO, Jaime. A expedição de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1994.

FERNANDES, Fernando Lourenço. Descobrimento do Brasil. A Armada de 1500 e as Singularidades de Arribada na Escala do Atlântico Sul. Latitudes, número 9, setembro de 2000, p. 3 a 9. Acessível por http://www.revues-plurielles.org/_uploads/pdf/17_9_2.pdf.

FERREIRA, Tito Lívio. Portugal no Brasil e no mundo. São Paulo: Livraria Nobel, 1984.

LEONE, Eduardo Metzer. Pedro Álvares Cabral. Lisboa: Editorial Aster, 1968.

REDONDO, Manuel Ferreira Garcia. O descobrimento do Brazil. Prioridade dos portugueses no descobrimento da America. São Paulo: Casa Vanorden, 1911.

Vide também, de Arthur Virmond de Lacerda Neto:

O descobrimento pré-cabralino do Brasil,

Cabral no Brasil antes de 1500 ?

Romances do descobrimento do Brasil.

Brasil conhecido antes de 1500. Brasil e Portugal. David Carneiro

todos em https://arthurlacerda.wordpress.com/category/descobrimento-do-brasil/

(arthurlacerda.wordpress.com).

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