Brasil já conhecido na carta de Pero Vaz de Caminha – I

“[…] o Brasil foi descoberto em 1435, ou antes, por navegantes portugueses […]”. Manuel Ferreira Garcia Redondo, O descobrimento do Brazil (1911).

“O fim ostensivo, o fim aparente da expedição de Cabral era ir à Índia. O fim real, o fim verdadeiro era ir, primeiro ao Brasil, dele tomar posse oficial […]”. Manuel Ferreira Garcia Redondo, O descobrimento do Brazil (1911).

  1. Formulação da questão.

É certa a intencionalidade do trajeto seguido por Cabral[1] até a costa brasileira, como questão já elucidada por amplo repertório de convincentes indícios. Ele dirigiu-se ao que se tornou o Brasil com rumo certo, cônscio da existência da terra firme no Atlântico sul e a oeste da Europa, condição em que passa por ser o descobridor do Brasil. Na verdade, seu papel foi o de oficializar o conhecimento que na corte portuguesa já se detinha da existência de terra firme a sudoeste (desde, pelo menos, 1492: prova-o a extensão da raia do tratado de Tordesilhas, de 100 para 370 léguas a oeste, de modo que abarcou parte do atual Brasil).

Para o acervo de indícios, a epístola redigida por Pero Vaz de Caminha contribui significativamente: com sua própria existência; com o tom que ele adotou para enunciar o achamento da terra; com três afirmações reveladoras e nove indícios náuticos de pré-conhecimento da costa brasileira. Lida atentamente, com perspicácia, revela mais do que aparenta comunicar para o leitor distraído.

2. Relatório encomendado.

Em terra, vários componentes da esquadra missivaram a el-rei D. Manoel: seu médico, João Faras; o futuro feitor de Calicute, Aires Correia; Pero Vaz de Caminha e “todos os outros”, no dizer do primeiro, sem especificar quem nem quantos seriam, o que Caminha elucida: “Posto que o capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães, escrevam a Vossa Alteza […]”.

Das várias cartas, conservaram-se apenas a de mestre João e a de Caminha.

A do primeiro contém lugar decisivo: “Quanto, senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pêro Vaz Bisagudo, e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-múndi não certifica ser esta terra habitada, ou não.”[2]

Ou seja: o navegador Pero Vaz da Cunha (de alcunha Bisagudo) possuía mapa-múndi vetusto que representava a localização da terra firme a que a frota aportara. Não se tratava da imaginária ilha Brasil, situada arbitrariamente em diversos mapas em distintos pontos, mas de identificação que o mestre João refere afirmativa e induvidosamente, informação bastante para comprovar-se a pré-ciência de terra firme a sudoeste.

A missiva de Caminha estende-se por quatorze páginas impressas com corpo diminuto[3]; narra sucintamente a viagem desde a partida até 21 de abril, data a contar da qual descreve, circunstanciadamente, em jeito de crônica, o quanto se passou entre aquele dia e 1º de maio, o que abrange com profusão de pormenores a estada na nova terra.

Ele minudencia o desembarque, o avistamento dos silvícolas, seu aspecto e reações, o engrazamento deles com os mareantes, a ereção da cruz, a celebração da missa. Mui pormenorizada e extensa, a carta não expõe a viagem uniformemente senão a estada em terra, específica e exuberantemente. É mais do que carta: é cartapácio; mais do que cartapácio, é relatório. Pondera Tomás Ribeiro Colaço: “[…] lida com atenção, é um relatório previsto, desejado, e encomendado pelo Rei. Porque é que só nesse caso apareceu um tal repórter ? — E como escreveria ele, por sua iniciativa, ao Rei ? Escreveu porque veio com essa incumbência.” [4]

Se encarregado de minudenciar os primeiros contactos de seus companheiros com os autóctones, é porque o comitente conhecia, de antemão, a existência da terra e, nela, de povo.

3. Seguiram seu caminho.

No domingo, dia 22 de março, a frota avistou a ilha de São Nicolau, no arquipélago do Cabo Verde, expõe Caminha. No outro dia, segunda-feira, desgarrou-se a nau de Vasco de Ataíde, “sem aí haver tempo forte nem contrário para poder ser”[5].

Prossegue:

[…] E assim seguimos nosso caminho por este mar de longo até terça-feira de oitavas de Páscoa, que foram vinte e um dias de Abril, que topamos alguns sinais de terra, sendo da dita ilha segundo os pilotos diziam obra de 660 ou 670 léguas, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim outras, a que também chamam rabo de asno; e a quarta-feira seguinte pela manhã topamos aves, a que chamam fura-buchos; e neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra, a saber: primeiramente de um grande monte mui alto e redondo e de outras terras mais baixas […][6]

“E assim seguimos nosso caminho […] e […] houvemos vista de terra […]” significa: seguimos nosso itinerário até se nos deparar terra, desenvolvemos a rota prevista em direção à terra que encontramos. Havia trajeto que percorrer e que a frota percorreu regularmente, até o destino pretendido: o itinerário era de Lisboa ao Cabo Verde e deste ao Brasil.

Ele não diz: perdemo-nos de nosso caminho, desviamo-nos de nosso rumo, desorientamo-nos a meio da viagem, pois nada disto se passou (ainda menos houve o lendário mau tempo em cuja razão a esquadra teria casualmente descoberto o que veio a ser o Brasil). Ao invés: a navegação transcorreu normalmente, consoante o rumo previsto em direção intencional à costa brasileira.

A relação do piloto anônimo é a única narrativa da continuação da viagem, do Brasil por diante: “Ao outro dia, que erão dous de Maio, fizemo-nos à vela, para hir demandar o Cabo da Boa Esperança, achando-nos então engolfados no mar mais, de mil e duzentas léguas de quatro milhas cada uma; e aos doze do mesmo mez, seguindo o nosso caminho, nos appareceo hum cometa […]”[7]. Também registra o piloto: navegou a armada em conserva, com bom vento; em 20 de maio sobreveio-lhes fortíssimo tufão.

            Em dois de maio, fizeram-se à vela para demandar a ponta meridional da África; no dia 12, enquanto seguiam seu caminho, surgiu-lhes cometam, tudo com plena normalidade. Do Brasil zarparam no dia 2 em direção ao cabo, em que o único incidente foi intempérie grave dezoito dias depois. Não houve desorientação da frota, dúvida acerca do itinerário que seguir, da baía Cabrália por diante nem derrotas erradas. Ao invés: a frota (novamente a expressão de Caminha) seguiu seu caminho, continuou viagem no curso planeado.

            A locução “seguimos nosso caminho” figura em Caminha, aplicada ao intervalo entre Cabo Verde e o Brasil, e no piloto anônimo, que a usou para a continuação da viagem, ao zarparem do Brasil. Ambos referem-se à navegação que, nos respectivos trechos, transcorreu normalmente. Ainda que fosse duvidosa a premeditação da derrota do Cabo Verde para o Brasil, é induvidoso haver a frota rumado intencionalmente deste para o sul da África, trajeto em que ela navegou com itinerário próprio, que se cumpriu.

            Na expressão do piloto anônimo, “seguimos nosso caminho” equivale a percorremos a derrota estabelecida; ele usa-a sem acrescentar nota de nenhum desvio no itinerário. Caminha di-la sem informar aberração na derrota. A locução (seria lugar-comum ?) é a mesmíssima no caso do trajeto obviamente intencional (Brasil – cabo da Boa Esperança) e no do outro (Cabo Verde – Brasil). Ela exprimiria intencionalidade apenas na primeira situação e não também na segunda ? Seria empregada em situações dessemelhantes ? Registraria itinerário estabelecido que se cumpriu e também itinerário que se inadimpliu ou ausência de rumo adotado ? Usada em contextos idênticos, se em um ela exprime, evidentemente, rota pré-concebida, no outro sua acepção somente pode ser a mesma. Se seguimos nosso caminho do Brasil para a África representa direção deliberada, seguimos nosso caminho do Cabo Verde para o Brasil sómente pode comunicar o mesmo.

4. Gestos de Nicolau Coelho. Contubérnio com os índios. A “outra vinda”

Já fundeada toda a frota na atual baía Cabrália, no dia 23 de abril Pedro Álvares Cabral mandou à terra Nicolau Coelho, quando cerca de 18 íncolas observavam-nos da praia, armados de arcos e flechas. No dizer de Caminha, Coelho “[…] lhes fez sinal que depusessem os arcos; e eles os depuseram […]”: ele gesticulou-lhes; eles compreenderam-lhe a gesticulação e acederam-lhe ao pedido apaziguador.

Gestos quaisquer aprendem-se em seu significado. Nenhuma mímica é dotada de significado inerente e prontamente compreensível por quem não a haja previamente aprendido. Seja a expressão romana de positivo (com o polegar estendido e os demais dedos retraídos), seja o abanar a mão espalmada como saudação ou despedida, seja o aplauso ou qualquer outro gesto, ele somente veicula comunicação se entre quem o pratica e quem o observa coincidir a inteligência de seu sentido.

Os índios compreenderam a mímica de Nicolau Coelho. Ter-lhe-iam adivinhado o significado ou já o conheciam ? Evidentemente conheciam-no: houvera, já, contactos entre portugueses e eles.

No dia seguinte (24 de abril) a frota velejou para norte e fundeou no atual Porto Seguro, onde a bordo Afonso Lopes recolheu dois indígenas, que pernoitaram no navio, com à vontade e sem desconfiança próprios de quem já se conhecia: eles “já estavam familiarizados com os europeus, que já os conheciam, que conheciam os seus hábitos e costumes, que deles não tinham receio.”[8] Em 25 de abril, novamente apeou Nicolau Coelho, e Bartolomeu Dias com os dois índios. No areal da praia congregavam-se obra de duas centenas de índios, que se abeiravam dos batéis (navetas ao serviço do transporte das naus para a praia) “e traziam cabaços de água e tomavam alguns barris que nós levávamos, e enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis”. Sem solicitação dos portugueses, espontaneamente os índios forneceram-lhes água doce em cabaços; também tomavam barris, enchiam-nos de água e levavam-nos de volta aos batéis: os índios voluntariamente participaram da aguada, “como se já estivessem habituados a praticar esse serviço, repetindo actos praticados anteriormente; o que demonstra que não era a primeira vez que viam homens brancos e naus.”[9]

Cabral não reabasteceu a esquadra no Cabo Verde, ao que lhe seria imperioso proceder, a menos que o fizesse no Brasil: fê-lo neste, com cuja existência contava para a aguada, existência de seu conhecimento antes de lhe dar à costa. Por seu lado, os indígenas conheciam a precisão de água doce da frota, o que só poderia resultar de contactos anteriores entre embarcações e eles.

No domingo (26 de abril) os marinheiros em geral apearam para folgar. Um gaiteiro tocou sua gaita e “meteu-se com eles

[os índios]

a dançar tomando-os pelas mãos, e eles folgavam e riam, a andavam com ele mui bem ao som da gaita.”[10]  No dia subseqüente, todos desembarcaram para dessedentarem-se ou fazer aguada; aproximaram-se índios que “[…] misturaram-se conosco; e abraçavam-nos e folgavam […].”[11]

Souberam os adventícios captar a simpatia dos autóctones, mercê da oferta de prendas e da ausência de hostilidade, mas para quem (supostamente) se desconhecia, a receptividade dos índios, o contubérnio entre uns e outros, o folguedo, exprimiriam a índole amistosa dos da terra, mas denunciou também amizade presumivelmente já entabulada entre eles e os portugueses em desembarques precedentes.

Em 1º de maio, celebrou-se a segunda missa, ao cabo da qual frei Henrique de Coimbra distribuiu cruzes de estanho que trazia Nicolau Coelho e “que lhe ficaram ainda da outra vinda.”[12] “Ficaram” exprime sobraram.

Caminha não redigiu “outra viagem”, “outra navegação”, o que poderia aludir a expedições indeterminadas; empregou o vocábulo “vinda”, particípio passado de “vir”. “Outra” somente pode equivaler a precedente, anterior, antes da atual. “Outra vinda” equivale a “vinda anterior”. Nicolau Coelho distribuiu cruzes que lhe remanesceram de vinda precedente: ele estivera, já, no Brasil, e certamente entrou em contacto com os indígenas. Por isto, agrupados alguns deles, no dia 23, Cabral enviou-o para ir ter com eles, ele acenou-lhes e eles inteligiram-lhe os acenos.


[1] Na verdade, chamava-se Pedro Álvares Gouveia. Foi nomeado com seu sobrenome paterno (Cabral) por vez primeira na epístola del-rei D. Manuel a seus sogros e vizinhos, Fernando e Isabel (reis de Espanha), de 29 de julho de 1501.

[2] Tradução do espanhol in LEONE, p. 475.

[3] Em CORTESÃO ocupa as páginas 127 a 141.

[4] Carta de Tomás Ribeiro Colaço a Natércia Freire, no Rio de Janeiro, em 6 de julho de 1964, in LEONE, p. 232.

[5] CAMINHA in CORTESÃO, p. 127. Atualizei a grafia.

[6] CAMINHA in CORTESÃO, p. 127. Atualizei a grafia.

[7] CAMINHA in CORTESÃO, p. 147. Atualizei a grafia.

[8] REDONDO, p. 56.

[9] REDONDO, p. 55.

[10] CAMINHA in CORTESÃO, p. 134.

[11] CAMINHA in CORTESÃO, p. 135.

[12] CAMINHA in CORTESÃO, p. 139.

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