Brasil já conhecido na carta de Pero Vaz de Caminha – II

5. O regresso da nau de mantimentos.

No domingo, 26 de abril, Cabral congregou seus capitães (também Caminha) e “perguntou assim a todos se nos parecia ser bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos […] e entre as muitas falas que no caso se fizeram, foi por todos ou a maior parte dito que seria muito bem e nisto concluíram”[1].

Um dos navios servia de despensa; foi despejado para regressar a Lisboa, como estafeta das missivas produzidas pelos capitães, Caminha e mestre João. Por velha, não a quiseram arriscar no mar do cabo da Boa Esperança[2] e, contra o costume de incendiarem as naus abandonadas, Cabral fê-la arrepiar caminho.

É inusitado, é estranhíssimo que ao aparelharem a esquadra, nela incluíssem navio velho e incapaz de enfrentar a ida e o regresso da longa viagem; que aos organizadores da expedição minguasse sensatez (ou, quando menos, prudência) na seleção dos navios; que cedo, a menos de um terço do percurso, aquela embarcação já se evidenciasse inapta para manter-se em navegação. Não escasseariam materiais, tempo nem artífices com que se construísse mais uma embarcação em condições de velejar a totalidade prevista da viagem, em lugar de lançarem mão de uma em mau estado.

Pondera Metzer Leone, quanto ao recambiamento do navio-despensa:

A única explicação plausível para o acontecido é que, à partida de Lisboa, já se soubesse que aquela nau não teria de enfrentar o mar do Cabo — por estar realmente destinada a regressar a Lisboa com a nova oficial do “achamento” de uma determinada terra, que já se sabia existir muito antes do mar do Cabo da Boa Esperança.[3]

A nau dos mantimentos serviu, ostensiva e efemeramente, como despensa; sigilosamente destinava-se a tornar a Lisboa, como portadora da correspondência redigida em terra.

Se a sua torna-viagem fora planejada em Lisboa, por que Cabral formou conciliábulo com seus capitães para decidirem como proceder ?

O regimento que D. Manuel expediu-lhe, como instruções, injungia-lhe: “[…] façais e sigais tudo o que melhor vos parecer, tomando sempre em tudo conselho dos capitães e feitor e de quaisquer outras pessoas que vos pareça que nisso devais meter […].”[4] Ao instituir o conciliábulo, Cabral acatou o procedimento que deveria seguir recorrentemente, para obter a deliberação que se tomou.

Metzer Leone:

[…] tudo levava a crer que o resultado da reunião haveria de ser aquele mesmo que já eventualmente estivesse estabelecido entre o Rei e o Capitão-mor — porque nada poderia desaconselhar o regresso da nau dos mantimentos, a qual, até pelas suas condições de navegabilidade, não estava apta a sulcar os mares do Cabo da Boa Esperança — é perfeitamente de aceitar que Cabral tivesse feito reunir os seus Capitães para tomarem em conjunto uma decisão conforme era usual que tais decisões fossem tomadas, já que tudo indicava que o Conselho dos Capitães só poderia sancionar a decisão secreta, tomada em Lisboa anteriormente à partida.[5]

O conciliábulo teve segundo tema em pauta: arrebatarem-se ou não dois indígenas que fossem conduzidos a Lisboa juntamente com o epistolário. Sobre isto, Caminha aduz em doze linhas e pormenor as razões invocadas por que se concluiu negativamente, ao passo que dedica apenas cinco ao tema anterior, em que vagamente alude às “muitas falas que no caso se fizeram”, sem minudenciar nenhuma, como se importasse mais decidir levarem-se ou não dois autóctones do que transportar-se ou não a correspondência na embarcação de mantimentos.

A segunda decisão, virtualmente polêmica, justificaria mais a reunião dos capitães; a primeira, mais fácil (majoritária ou consensual), justificaria menos o dito conselho, até porque o mau estado da embarcação em causa induzia-lhe. É precisamente seu mau estado, sua inaptidão para prosseguir, com o conseqüente induzimento a seu retorno, que terá sido intencional, para facilitar deliberação neste sentido. Na composição da frota selecionou-se navio ruim, para ser recambiado[6].

6. A frieza de Caminha, de mestre João e do piloto anônimo.

Caminha descreve o encontro da “nova” terra com frieza e até indiferença. Não exprimiu surpresa nem gáudio, não se interrogou que terra seria aquela nem onde se localizava.

[…] e assim seguimos nosso caminho por este mar de longo até terça-feira de oitavas de Páscoa, que foram vinte e um dias de Abril, que topamos alguns sinais de terra, sendo da dita ilha segundo os pilotos diziam obra de 660 ou 670 léguas, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim outras, a que também chamam rabo de asno; e a quarta-feira seguinte pela manhã topamos aves, a que chamam fura-buchos; e neste dia, a oras de véspera, houvemos vista de terra, a saber: primeiramente de um grande monte mui alto e redondo e de outras terras mais baixas, ao sul dele e de terra chã, com grandes arvoredos, ao qual monte alto o capitão pôs o nome de monte Pascoal, e à terra, terra de Vera Cruz.[7]

            Do achamento mais não diz e digressa para considerações náuticas.

            Mestre João Faras (médico do rei, presente na esquadra) também autor de missiva, é lacônico e ainda mais indiferente: “Senhor: ontem segunda-feira que foram 27 de Abril, descemos em terra eu e piloto do capitão-mor, e o piloto de Sancho de Tovar […]”[8]. Sequer comunica haverem topado terra; na mesma frase e nas sucessivas transmite matéria astronômica.

            O piloto anônimo[9], abundante na parte da viagem transcorrida no oriente, diz tão somente: “Aos vinte e quatro de Abril, que era uma quarta-feira do Outavário da Páscoa houvemos vista de terra; com o que tendo todos grandíssimo prazer, nos chegamos a ela para a reconhecer […]”, “[…] porém não pudemos saber se era Ilha ou terra firme […]”[10].

            Todos experimentaram grandíssima satisfação, porém o piloto não externa surpresa que sentiria perante o inesperado ou desconhecido. Não puderam elucidar se estavam em terra firme ou ilha, vale dizer, ele e outros assim o ignoravam, embora ele certamente não ignorasse o rumo e o destino da viagem até ali: como piloto e, portanto, responsável pela navegação de uma das embarcações, presumivelmente estaria a par de ambos.

            Em contrapartida, na expedição de Vasco da Gama, em 4 de novembro de 1497, ao inesperadamente deparar-se terra aos marinheiros, narra Álvaro Velho (marujo e soldado daquela frota): “[…] e, então, nos ajuntamos todos e salvamos o capitão-mor, com muitas bandeiras, estandartes e bombardas, e todos vestidos de festa.”[11] 

            Aos de Gama exsurgiu terra de inopino, pelo que seus marujos festejaram-no com bandeiras, estandartes, salva de tiros, vestimenta festiva. Nada disto se repetiu com os de Cabral; as três testemunhas presenciais, em posição para estarem bem informadas, cujos relatos transmitiram-se-nos, reagem perante o que veio a ser o Brasil lacônica e friamente, baldos de entusiasmo e de qualquer surpresa, quase de caminho, “exatamente porque o seu aparecimento era esperado, e constava da programação anterior daquela viagem: dirigiam-se para lá.”[12]

7. Fertilidade da terra e abundância de água doce.

Caminha não exarou a célebre frase que se lhe atribui: “Plantando, tudo dá”. Escreveu, em relação à terra em que estava: “[…] águas são muitas, infindas; [a terra] em tal maneira é graciosa que, querendo a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem […].”[13]

Conquanto alguns mareantes houvessem se internado na mata brevemente[14], não inspecionaram o interior do território, cuja observação limitou-se ao que se descortinou da praia ou de bordo, por demais insuficiente para ensejar a asserção peremptória de que a água doce era muita, infinda e a terra, graciosa e fértil.

A maruja reparou, se tanto, em três rios (do Frade, Buranhém, Mutari). Três não chegam a ser muitos e ainda menos infindos. Do escasso que vislumbraram e Caminha terá podido observar, não teriam disposto de informação suficiente que lhe permitisse concluir pela formosura do lugar e por sua aptidão para todo tipo de plantação, graças à profusão de água doce.

Caminha não praticou tiradas literárias; em seu estilo conciso e puramente descritivo não usou hipérboles nem floreios. Neste lugar exarou, se tanto, opinião, impressão, porventura desejo, que não seria gratuito e infundado; transmitiu informação, averiguação empírica, (virtualmente) produto de experiências de agricultura efetuadas por pioneiros anteriores a 1500. Pelo menos em Pernambuco houvera núcleo português em 1490; antes de 1494 João Coelho estivera no Brasil, como Duarte Coelho Pereira em 1498[15]. Estes e porventura outros, teriam informado o pessoal palatino com dados que Caminha possuía.

Caminha não aponta a presença de portugueses em Porto Seguro; não os havia lá, em abril de 1500, mas ele dispunha de informação da fertilidade da terra e da abundância de rios potáveis, graças a anos a fio de navegações secretas desenvolvidas por mareantes vários, dentre quem provavelmente o próprio Cabral.

Tudo isto intuiu Tomás Colaço Ribeiro:                      

[…] E a repetidíssima frase do “plantando dá”, olhando-a bem, é muito esquisita. O homem não era agrônomo ou plantador. Como podia ele saber se a terra dava ou não dava ? Secretamente, tinha vindo gente. Secretamente, tinha plantado coisas. Ele estava a dizer ao Rei que essas plantações davam magníficos resultados.[16]


[1] CAMINHA in CORTESÃO, p. 133. Atualizei a grafia.

[2] LEONE, p. 195-6

[3] LEONE, p. 196.

[4] LEONE, p. 492.

[5] LEONE, p. 197.

[6] Capitaneado por Gaspar de Lemos, chegou a Lisboa em junho de 1500.

[7] CAMINHA in CORTESÃO, p. 127. Atualizei a grafia.

[8] FARAS in LEONE, p. 475.

[9] O piloto anônimo era piloto da frota de Cabral, que produziu extenso relato da viagem por inteiro, em 21 páginas (a de Caminha ocupa 13 páginas e ¼, com o mesmo critério de medida, in CORTESÃO). É circunstanciado nas aventuras na Índia.

[10] In CORTESÃO, p. 145.

[11] In LEONE, p. 469.

[12] In LEONE, p. 470.

[13] In CORTESÃO, p. 140. Atualizei a grafia. O primeiro encômio que se fez ao que depois se tornou o Brasil foi escrito com belíssima mesóclise (“dar-se-á”). Se motivos de correção e elegância não houvesse para usarmo-la, há este, de ufania para brasileiros: foi com mesóclise que por primeiro alguém elogiou águas e terras brasileiras.

[14] “[…] e o capitão mandou a dois degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia, e outras, se houvessem delas novas [novidades], e que em toda maneira não se viessem a dormir às naus […] e assim se foram.” In CORTESÃO, p. 136. Porém no dia subseqüente regressaram, por os índios não os quererem lá. 

[15] REDONDO, p. 46-7; FERREIRA, p. 58; CORTESÃO, cap. 81. Neste capítulo, é indispensável A descoberta do Brazil, de Faustino da Fonseca (Lisboa, 1900); juntamente com Pedro Álvares Cabral, de Eduardo Metzer Leone (Lisboa: Editorial Aster, 1968), são dois livros de máxima relevância e que merecem ser introduzidos no Brasil.

[16] Tomás Ribeiro Colaço apud LEONE, p. 232.

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