Azar de quem não lê Dalton, que completou 95 outonos

A imprensa paranaense, como não é de se admirar, deixou passar Dalton Trevisan em branco. Azar. Sei de fonte de segura que ele está chegando bem, muito bem, aos 95 outonos. Há dois meses, a modo de provocar os jornais, mandei recado a Dalton. Uma mensagem breve, só veiculada em papel impresso: “Dalton, fique em casa. Assinado: Curitiba, a ingrata”. Provavelmente ele não leu. E se leu, não se importou.

Não me coloco entre aqueles (raros) que gozam ou que fingem gozar da intimidade do escritor (uma multidão). Nunca o encontrei. Nunca procurei encontrá-lo. Nunca em minha carreira de repórter me foi dada a missão de abordá-lo, mesmo conhecendo o seu roteiro.

Da Ubaldino Amaral à Amintas de Barros, com paradas na Livraria do Chain, e de lá para caminhos tortuosos que não incluem o calçadão da XV de Novembro e a Boca Maldita porque ah, os chatos. Livrai-nos Deus.

A última tentativa de um jornalista de entrevista-lo ocorreu há cinco anos, em 2015, na véspera de seus 90 anos. Ele fora enviado pela Folha de S. Paulo, jornal que por repetidas vezes tentou ouvir o escritor, sem granjear sucesso.  O problema foi a intromissão. E deveria ser uma introdução.

Caso se passasse por um leitor e pedisse a Dalton que autografasse um de seus livros, o contista não recusaria. Não é do feitio do Dalton, dizem aqueles raros, ser mal educado. Se indagasse sobre o que ele estava lendo e lhe pedisse indicações, a recepção seria ainda melhor. O escritor, que, informam outra vez os raros, se arrepende amargamente de deixar que o associem a Nelsinho, o personagem da quase-novela “Vampiro de Curitiba”, adora falar de livros. Os alheios.

A estratégia do jornalista, contudo, foi a pior: indagou se Dalton Trevisan era Dalton Trevisan. O escritor respondeu: “Não, você está me confundindo com outra pessoa. Dalton não sou eu”. Lá se foi uma pauta pelo ralo. Claro, a reportagem de qualquer forma foi escrita (nada se perde, tudo se transforma), porém o resultado é um sabor amargo de confusão de identidades.

Dalton não publica desde 2014. Seu último livro de contos foi “O beijo na nuca”. Desde então, ele segue escrevendo, porém sem a disposição de entregar um livro anualmente ou de revisar e de reescrever compulsivamente cada nova edição. Por causa da pandemia, ele suspendeu suas caminhadas diárias e deixou a cargo de uma assistente, contratada recentemente e em razão da covid-19, o cuidado com a correspondência e com as obrigações corriqueiras.

Dois artigos publicados em jornais nesse fim de semana – que não são do Paraná – conjugam preguiça e ressentimento ao abordarem a importância da literatura de Dalton Trevisan. A ponto de resumirem a importância de sua obra, que soma mais de 40 livros, a três títulos publicados no início da carreia do escritor: “Novelas Nada Exemplares”, “ Cemitério de Elefantes” e o já citado “O Vampiro de Curitiba”.

Parte-se de uma afirmação primária de que seriam estes os volumes que venderam mais de 3 mil exemplares, indicador indigente dos best-sellers brasileiros, e, portanto, os de melhor lavra. “Desgracida”, publicado em 2010, e “Capitu Sou Eu”, sete anos antes, com cuidadosa edição e distribuição da Record, editora que nunca abriu mão do autor curitibano, foram bem de público, de crítica e de polêmica. Esta, aliás, uma característica de Dalton, suscitada ora por suas narrativas eróticas, ora por personagens esculpidas cruamente sobre pessoas reais. Não, Dalton não é Gabo. Nem Curitiba é Macondo.

Imperdoavelmente, um dos artigos publicados a propósito do aniversário de Dalton esquece que ele conquistou o prêmio Camões em 2012, mesmo ano em que foi laureado com o Machado de Assis pela Academia Brasileira de Letras. Dalton não promove noite de autógrafos ou saraus literário. Não é um recluso no Brasil e um incluso fora dele. Há registro de entrevista concedida pelo escritor ao Jornal da Tarde, em 1968, quando contava 43 anos. Mas nunca depois. Há quem diga, como fez o autor de “Chá com o Vampiro”, que sua excentricidade é parte de seu marketing e, portanto, de sua fama literária. Dalton seria gregário por natureza, mas sua ânsia de  reconhecimento o teria condenado à solidão.

Por fim, um dos artigos trata da influência de Dalton Trevisan na literatura. O crítico tira da cartola a afirmação de que “dificilmente ele é citado por jovens escritores”. A sentença esquálida diz menos sobre Dalton e mais sobre ressentimento. Aquele de toda sorte que grassa no Paraná e explica a falta de reverência da imprensa e do mundo literário – se é que ele existe – ao melhor escritor brasileiro da atualidade. Repare: eu disse “da atualidade”. Dalton recusaria qualquer rótulo que não fosse adequado ao tempo e ao espaço. Se é de obituários que anseiam os sedentos (Dalton diria hienas) de fama póstuma, é bom saber que o escritor curitibano vive e viverá.

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