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O ‘lobby’ no Brasil: o que podemos importar dos EUA

‘Um país cresce e se desenvolve muito quando o setor privado e público trabalham juntos e com transparência na formatação e execução de políticas públicas de qualidade’

Raul Cury Neto. ADVOGADO E CONSULTOR DE RELAÇÕES GOVERNAMENTAIS

Como já é sabido por grande parte da sociedade, o lobby no
Brasil sempre teve uma conotação negativa. A falta de regulamentação e o
“jeitinho brasileiro de fazer relacionamento”, fizeram com que esse mercado
sempre navegasse na obscuridade e cercado por práticas altamente questionáveis
no que tange a relação entre empresas e governo.

Entretanto, é passado da hora de ressignificar o termo e trazer à tona sua
real definição. Um país cresce e se desenvolve muito quando o setor privado e
público trabalham juntos e com transparência na formatação e execução de
políticas públicas de qualidade. Esses dois setores devem ser parceiros – e não
inimigos.

Recentemente, tive o privilégio de
fazer parte de um seleto grupo de executivos que participaram da II Missão de
Global Advocacy e International Lobbying, em Washington, D.C. Uma
iniciativa do Irelgov, em parceria com a AMCHAM e a George Washington
University (uma das referências mundiais na área de Relações Governamentais), e
com o apoio da VITTORE Partners.

O programa, que durou uma semana, colocou o grupo brasileiro de volta para
sala de aula, onde discutimos de maneira interdisciplinar os vários pilares da
área de relações governamentais. Além disso, todos os dias, após o período de
aulas, nós visitamos entidades públicas e privadas para entender quais são as
melhores práticas do lobby nos Estados Unidos.

Muitas coisas despertaram minha atenção ao longo da missão, mas a principal
delas foi a transformação pela qual a área está passando, mesmo no país onde
lobby é “referência mundial”. Um dos mais importantes
componentes dessa transformação é a revolução tecnológica, que está delimitando
novos campos de atuação para as Relações Governamentais.

Se antes o relacionamento entre empresas e governo era feito praticamente de
maneira pessoal e por meio da mídia tradicional, hoje é indispensável o uso de
tecnologia e das redes sociais para estabelecer essa comunicação. Até porque, a
sociedade é um dos stakeholders (públicos estratégicos)mais
importantes desse processo e os cidadãos estão, sim, cada dia mais ativos e
presentes no debate político.

Sim, as pessoas comuns (sociedade civil) são parte fundamental de qualquer
ação de lobby nos USA e têm grande impacto e interferência
nas políticas públicas! 

Outro fator que têm crescido muito ao longo dos anos naquele país (e que tem
começado a gerar reflexo direto aqui no Brasil atualmente) é a relevância da
área dentro das organizações. As Relações Governamentais estão ganhando um
papel estratégico dentro das empresas, principalmente porque o nível de
confiança que os empregados têm perante as empresas americanas é o maior de
todos os tempos, muito mais que o governo, e outras entidades (conforme
pesquisa atual que nos foi mostrada em uma das aulas).

Em uma realidade onde são as pessoas que escolhem onde querem trabalhar e
não o oposto, a comunicação interna precisa engajar e impactar os colaboradores
de maneira a fazê-los a acreditar no negócio e contribuir positivamente para a
sua prosperidade. Por outro lado, a comunicação externa (que vai desde a
comunicação com o cliente, com a sociedade, com a comunidade local, com o
governo, entre tantos outros stakeholders), precisa
construir o posicionamento da organização e se relacionar bem com os seus
públicos para fortalecer a imagem e adquirir públicos fieis à empresa e suas
causas.

A confiança da população é um fator extremamente importante para o sucesso
de uma empresa, que pode ser arruinado em questão de dias com uma crise de
imagem. Falamos muito sobre gerenciamento de crises e a relevância de ter ações
preventivas, evitando eventos e circunstâncias que acarretem danos à imagem.
Abordamos alguns casos importantes e históricos e, por estarmos em um grupo de
executivos brasileiros, acabamos discutindo bastante esse ponto nos casos de
Mariana e Brumadinho, inclusive o fator reincidência.

As visitas aos órgãos públicos e privados também foram muito enriquecedoras.
Conhecemos uma grande consultoria internacional de lobby e
pudemos entender melhor todo o processo e estratégia de Relações Governamentais
adotados em mercados fora dos USA. Visitamos também um dos principais
Institutos de Relações Governamentais Americano, que tem por objetivo dar todo
suporte para seus clientes (pessoas jurídicas e físicas) no que tange a
matéria, incluindo apoio na montagem de uma área dentro de um cliente, suporte
às negociações e, até mesmo, auxilio nas melhores estratégias de lobby dentro
do congresso americano.

Também visitamos o congresso americano e o gabinete de um congressista
Democarata, experiência riquíssima onde pudemos entender um pouco da história
de como funciona a política na maior democracia do mundo.

Ao longo desses dias, uma coisa ficou muito clara. O mapeamento de stakeholders e
o levantamento das ferramentas de engajamento e comunicação com os públicos
alvo são os principais pilares de estruturação e sustentação da área. Só
conseguimos desenvolver boas práticas de lobby quando
entendemos a fundo o segmento em que a organização está inserida, o ambiente
político externo e o público com o qual a organização deseja conversar.
Exercícios e técnicas de negociação também fizeram parte do nosso treinamento.

A leitura de ambiente e comportamento, assim como técnicas de engajamento e
persuasão, entraram no currículo ao longo dos dias na universidade.
Principalmente, porque as mudanças propostas para políticas públicas são sempre
transformações de médio e longo prazo. Não se transforma o ambiente público de
um dia para o outro.

Além disso, a conversa envolve muitas partes, muitas discussões e debates e,
muitas vezes, um longo caminho de persuasão a ser construído. Portanto, saber
engajar e manter os stakeholders certos incluídos na conversa é algo
fundamental para o sucesso de um projeto em Relações Governamentais.

Um aspecto muito importante da II Missão de Global Advocacy e
International Lobbying, foi entender as melhores práticas da área nos Estados
Unidos, percebendo que mesmo lá não existe fórmula ideal. Trazer isso para o
Brasil exige uma grande adaptação e não podemos simplesmente reproduzir o
modelo americano. Teremos que encontrar o nosso caminho, pois as culturas e
realidades são totalmente diferentes.

Há muitos anos o Brasil vem discutido a necessidade de regulamentação da
profissão, mas o assunto nuca foi prioridade. Entretanto, e após tantos
escândalos políticos e de corrupção, e diante de várias tragédias nacionais, o
debate está se tornando mais sólido e real, inclusive com o envolvimento de
vários setores da sociedade, sendo que a expectativa é que o projeto de lei
seja aprovado e efetivado ainda esse ano. Promover a transparência na relação
entre público e privado é uma das prioridades na área e dos profissionais
envolvidos. Nesse sentido, o crescimento do Compliance e do combate à corrupção
tem ajudado a impulsionar a regulamentação do setor.

Fazer parte dessa equipe foi um privilégio, além de uma incrível experiência
de carreira. Contribuir para o debate, conhecer grandes profissionais
brasileiros da área e interagir com alguns dos mais renomados profissionais do
setor nos USA foi o ponto alto dessa viagem.

Ainda
temos muito trabalho pela frente aqui no Brasil e me comprometo, no que
depender da minha atuação profissional e pessoal, a ser parte ativa para as
mudanças que necessitamos no setor, compartilhando tudo o que aprendi durante
essa jornada fantástica em Washington.

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