Alinhada com protestos, mídia concede beneplácito da dúvida e quer separar joio da tribo

As imagens da depredação do Fórum Cível de Curitiba, na segunda-feira, não combinaram em nada com o que o repórter narraria, horas depois, no telejornal. Por alguma razão, ele preferiu conceder o beneplácito da dúvida aos manifestantes que protestavam contra o racismo no centro da capital paranaense, e que, depois, seguiriam em passeata até o Centro Cívico, onde estão localizadas as sedes dos três poderes do estado do Paraná. 

Era uma manifestação pacífica até o momento em que as pedras estilhaçaram os vidros das estações de ônibus, as placas de sinalização foram destruídas e o prédio do fórum foi atacado. Então os responsáveis pelo quebra-quebra já não pertenciam ao protesto. Eram alienígenas, infiltrados e sujeitos à averiguação dos organizadores. Bem-aventurados os que nada esperam porque não se decepcionarão. 

Em São Paulo, membros de torcidas organizadas engrossaram (em duplo sentido) um protesto ‘antifas’ e pró-democracia na Avenida Paulista, no mesmo dia e local em que ocorre o já habitual desfile de bolsonaristas. Estes nunca risonhos, mas obviamente sacudidos. 

Jornalista da Folha de S. Paulo, que reforçava a turba de torcedores, viu quando a seguidora do presidente da República, de posse de um taco de beisebol com a inscrição “Rivotril”, iniciou um bate-boca com manifestantes. Segundo o jornalista, foi ela o estopim do confronto de torcedores com a polícia.  

Mais uma vez a mídia concedeu aos manifestantes pró-democracia o benefício da dúvida. Era sim um protesto pacífico, mas tudo se acabou no desaforo. 

Desviemos nosso foco agora para os protestos nos EUA contra a morte de George Floyd – um gesto brutal e covarde da polícia, certamente. A TV exibe o correspondente estrangeiro, ofegante sob a máscara de proteção, empenhado em separar o joio da tribo. Uma coisa são os manifestantes empunhando cartazes, outra são os saqueadores e vândalos que fazem ameaça até à imprensa por registrar imagens que podem identificá-los. Mas é difícil distinguir quem é quem. 

Ouvido, um professor de direito penal diz que é possível enxergar no quebra-quebra e nos saques, justificativas que perpassam a desobediência civil. Se comprovada tal ação, caberia uma excludente de culpabilidade. 

Parece razoável, afinal liberdade é uma calça justa e desbotada. Mas incomoda. Na mesma medida, aliás, que aquele caixão carregado por apoiadores de Bolsonaro em meio à pandemia. Ou na cena de agressão contra repórteres fotográficos cercados por sujeitos parrudos e de má índole. 

Há predisposição, por parte da mídia, em enxovalhar Bolsonaro, Trump e seus seguidores. Eles são, de fato, brucutus, toscos, grosseiros, alexitímicos (para usar o termo da psicologia que designa a falta de sentimento), etc. Entretanto, salvo em editorial, não é papel da imprensa reforçar essa imagem, ainda mais quando faz isso pecando pela omissão. 

Os vândalos de Curitiba participavam da manifestação, não eram desgarrados. Os saqueadores dos EUA vistos pelas câmeras integravam o protesto e circulavam entre os que desobedeceram ao toque de recolher em diferentes cidades. As torcidas organizadas, têm um histórico tão longo de violência e mortes, que seria inconsequente associá-las a qualquer ato em favor da democracia. A neonazistas com certeza. 

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