A Vogue não ‘branqueou’ Kamala Harris. Ela é mulata

Cesse essa bobagem de que Kamala Harris, a vice-presidente eleita dos EUA, foi branqueada em capa da edição da revista “Vogue”.  Os críticos da internet (Umberto Eco sabia o que estava dizendo quando os rotulou de forma ofensiva) implicaram até com o par de tênis Converse All Star calçado por Kamala na foto, alegando que a liturgia do cargo não permite essa informalidade.

Ora, ora. Na posse dos eleitos em 2019, no Brasil, um deputado federal posou de chapéu de cowboy com a namorada no colo, enquanto sua colega, ex-prefeita de município de Santa Catarina, apelou para o corte profundo e vertiginoso do decote. Nesse caso sim a liturgia foi vilipendiada, mas os poucos que protestaram foram lepidamente chamados de “reaças”.

Kamala Harris é mulata porque a palavra etimologicamente significa mestiço. Procurar outra tradução é o mesmo que fuçar na origem do substantivo “rapaz”, cujo significado traz à luz expressões como rapina e rapinagem (ladrão para bom entendedor). Certa vez, ouvi de um representante do Movimento Negro Unificado uma longa ladainha em razão do uso da palavra mulato em reportagem. Se pudesse ele a queimaria em praça pública ou a proibiria por decreto como fez Getúlio Vargas com o termo “amante”.

A imprensa definiu Kamala Harris como negra e não parda que seria a designação correta aos sedentos pela identificação da raça – já direi o que penso desta última. Em tempos de “Black Live Matter” vale tudo para classificar os descendentes de escravos por mais problemático que seja limitar a escravidão, no espaço-tempo, somente ao continente africano e aos últimos séculos. Escravo deriva de “slave” em inglês, palavra que, por sua vez, tem origem no termo eslavo, povo escravizado aos montes pelos romanos e, mais recentemente, pelos nazistas durante a segunda guerra.

Vá lá, considerar-se negro é uma ação positiva que reforça a luta contra o preconceito, mas induz a erro e renega, no caso do Brasil, um de nossos maiores orgulhos: a miscigenação. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), em 2019, mostram que a maioria dos brasileiros ou 46,8% se declarou parda; 42,7% brancos; 9,4% pretos; e 1,1% amarelos ou indígenas. Os sociólogos, entretanto, têm somado os números de pardos e negros para declarar que a população do Brasil pertence, predominantemente, à “raça negra”. É uma fraude estatística e um erro genético que deveria ser descontinuado.

Em vez disso, com espantosa cumplicidade da mídia, o reforçamos. No início dos anos 2000, Ali Kamel, hoje diretor de jornalismo da Rede Globo, publicou um livreto intitulado “Não Somos Racistas”, com tal sucesso que chegou a ser vendido até mesmo nas gôndolas de supermercados. Ele não só defendeu a miscigenação no país, como deu provas suficientes de que as diferenças genéticas do homo sapiens não são fixadas em linhas raciais. Esse é um item desprezível na escala da evolução.

Kamala Harris tem sido chamada de afro-americana, o que ofende aqueles zelosos pelos filhos legítimos da Mãe África. Donald Harris, o pai, hoje aos 83 anos, é um mestiço jamaicano com um pé na afrodescendência e outro no continente europeu. A mãe, Shyamala Gopalan Harris, falecida em 2009, era indiana. Diga-se que Kamala, que é advogada e foi procuradora-geral da Califórnia, é a primeira mulher a ocupar a vice-presidência da mais poderosa nação do planeta que, diferente do que ocorre no Brasil, não é um cargo figurativo. O vice também preside o Senado, hoje com 50 republicanos de um lado e 50 democratas de outro. Pois Kamala Harris será o voto de Minerva. Ou seja, terá a prerrogativa do desempate quando ele for necessário. E nem sempre ele é.

Barack Obama, o primeiro presidente mulato da história dos EUA (“meu pai era negro como breu, minha mãe branca como leite”), enfrentou acusações infundadas por parte de Donald Trump, entre outros, de que seria um estrangeiro de origem africana, nascido no Quênia, e convertido ao islamismo. Kamala Harris não sofrerá com tais maledicências. Obama passou parte da infância na Indonésia. Harris tem os dois pés fincados na América e uma carreira que, se comparada, foi mais exitosa do que a do ex-presidente democrata.

A edição da “Vogue” que traz a vice-presidente na capa é a de fevereiro. Anna Wintour, a poderosa editora da revista, negou peremptoriamente qualquer truque fotográfico para clarear a pele de Kamala Harris na foto. Não há por que duvidar disso. Quem assistiu a posse de Joe Biden na TV, não questionaria a epiderme de Harris e não há motivo para dar continuidade a essa polêmica. Ela é mulata como eram as “Mulatas do Sargentelli”. A simples menção a esse grupo de dançarinas, aliás, quando a “novilíngua” obriga-nos ao ascetismo verbal, é suficiente para causar arrepios àqueles que advogam que a raça negra é merecedora de um resgate cultural que não dá margem a questiúnculas diversionistas.

Pois não se deve esquecer jamais os 388 anos de escravidão no Brasil, as viagens longas e degradantes nos porões dos navios, os castigos físicos e o número incalculável de mortos. É sob essa perspectiva que a miscigenação deve ser reforçada. Foi, em nossa história, o momento em que tocamos o ombro na civilização e definimo-nos a todos como raça. A única possível. Humana por óbvio.

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