A tragédia, amigo, é a véspera da farsa

O que é comédia? Resposta: é a soma de tragédia mais tempo. Tempo necessário para que um fato ou acontecimento chocante ganhe o distanciamento necessário que permita transformá-lo em piada.

É o que nos ensina o personagem de Alan Alda no filme “Crimes e Pecados”, dirigido por Woody Allen em 1989. (E se você odeia o cineasta, sorry, o importante é ter saúde).

Pois somado o tempo à invasão trágica do Capitólio, na terça-feira (6), por uma turba incitada pelo derrotado Donald Trump e, em breve, teremos uma, comédia besteirol em cartaz.

Gosto do gênero e lamento que os estúdios de Hollywood tenham deixado de investir nele como dantes.  Bolsonaro é personagem à espera de autor, e já deu “canjas” no satírico “Death to 2020’” e no educativo “Explicando o Coronavírus”, ambos disponíveis na Netflix. A respeito de Donald “Orange” Trump há farto material à disposição, que pode ser enriquecido agora com a aparição de Jake Angeli, viking de butique, e um dos cabeças (com chifres) na invasão ao congresso.

Angeli até agora não parece incomodado com a pecha de “terrorista doméstico” a ele atribuída pela imprensa americana. Durante a invasão, foi o viking fake, que também se autointitula “xamã”, quem se abancou da cadeira de Nancy Pelosi na Câmara dos Deputados sem se preocupar com consequências. E elas virão.

Ao menos 14 policiais ficaram feridos e quatro pessoas morreram. Entre elas, a ex-militar Ashli Babbitt, 35 anos, morta por um tiro disparado por um segurança do Capitólio quando tentava escalar uma pilha de cadeiras que separava os manifestantes da área onde estão localizados os gabinetes dos congressistas.

Babbitt, assim como Angeli, integrava o movimento QAnon, que defende a teoria de que Trump combate uma seita de pedófilos adoradores de Satanás que controla o mundo.

Sei, é trágico demais pensar que Babbitt acreditasse na ideia e por ela se dispusesse a arriscar sua vida. No devido tempo, aplacada a dor, ainda faremos do acontecimento uma farsa cômica. Para o bem de nossa sanidade e não a de Trump e Jake Angeli. No caso deles, não há cura.

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