A má interpretação do relativismo (ou: leia Arthur Virmond de Lacerda)

Li e reli o artigo escrito por Arthur Virmond de Lacerda que trata de esclarecer os conceitos de relativo e absoluto em Augusto Comte (link aqui). Lacerda é professor de História do Direito na Uninter, em Curitiba, e escritor prolífico. Sua produção abastece três blogs: um de direito romano, outro de positivismo, filosofia da qual é adepto (não no sentido lusitano, que significa torcedor, mas no de estudioso) e outro ainda de direito romano. Este, por sinal, o meu preferido. Reunidos ou impressos, os textos perfazem cerca de 300 páginas. É, portanto, um respeitável livro, escrito com a mesma linguagem que o professor declina em suas aulas (para quem teve o privilégio de assisti-las): didática, reta e, ouso dizer, divertidamente ilustrada.

Universidade é método. Você toma um assunto e lê aqui e ali o que consegue recolher. Erra mais do que acerta, é fato. Perde tempo com escritos que são apenas referenciais ou decepciona-se com aquilo que encontra no buscador do Google. Pior se é um monoglota ou lê mau o inglês ou o espanhol, porque descobre que o tema ou autor que lhe interessam não oferece tradução em português e, se oferece, é ruim. Um exemplo barato: vide a tradução de “O Homem Diante da Morte” de Philippe Ariès, obra fundamental editada pela editora Francisco Alves, que faliu, e cujo catálogo foi recentemente comprado pela editora da Unesp – Universidade Estadual Paulista. O título do Livro 1 diz em português brasileiro: “O tempo dos jacentes”. Na tradução em português luso é bem mais inteligível: “O tempo dos que jazem”. Parece um detalhe; entretanto, qual parece ao leitor mais esclarecedor e bem menos pernóstico? E trata-se do mesmo idioma.

Mas doutor, divago. Falava de método e, em suma, é o que o professor nos proporciona. Mostra um caminho, muitas vezes trilhado por ele mesmo para, com o perdão do estilo pernóstico, “saciar-nos a curiosidade”.

Há tempos me bato com o relativismo. Não, certamente, o relativo entendido como “dependente de”, “relacionado a”, “condicionado a”, mas aquele, equivocado que “justifica” ou “compensa” algo.

Escrevi anteriormente (link aqui) um caso que exemplifica minha argumentação: o ataque ao semanário francês “Charlie Hebdo”, em 2015. Ora, li e ouvi quem replicasse que a morte de doze pessoas – entre elas, cartunistas famosos – seria um castigo do Islã ou, em palavras politicamente corretas, um desrespeito aos povos oprimidos, fiéis ao profeta Maomé.

Eis que surge o relativismo de botequim que, aliás, é pródigo em bobagens. O corrupto de hoje só surgiu por conta do corrupto de ontem. O preso que lá está é um mártir ou um bode expiatório e foi condenado porque contrariou os interesses do capitalismo. Ou: pegaram Jesus para Cristo e não o Judas traidor da pátria. Repare nas expressões “mártir”, “Cristo” e “pátria”. Elas dão bem a medida do que a justificativa e a compensação significam para esse relativismo do fim do mundo.

Volto a Lacerda para discutir outro assunto em pauta: a referência. Termo que, aliás, é caro a Comte porque o positivismo, em miúdos, é calcado na observação. Ao abordar os conceitos de relativo e absoluto, o professor imediatamente se socorreu de autores respeitados. Citou a obra de Ivan Lins, “Introdução ao Estudo da Filosofia” (Rio de Janeiro, 1955); trecho de livro de Luiz Hildebrando Horta. “O Absoluto e o Relativo à Luz do Positivismo” (1945) e o próprio Augusto Comte, que tratou de esmiuçar os conceitos em posfácio ao seu “Sistema de Política Positiva”, publicado em 1854.

Pois a referência, ora vejam, tornou-se dispensável nos livros didáticos na visão do recém-nomeado ministro da Educação, que depois recuou (verbo muito conjugado no governo do presidente ungido). O nome do ministro julgo aqui de bom alvitre não referenciar. Isso não é relativismo. É vendeta.

BLOGS DE ARTHUR VIRMOND DE LACERDA:

https://positivismodeacomte.wordpress.com

http://arthurlacerda.wordpress.com

https://direitoromanolacerda.wordpress.com

compartilhe

Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no twitter
Twitter
Compartilhar no linkedin
LinkedIn
Compartilhar no email
Email

Leia também:

Dura vida de advogado

A mesma Folha de S. Paulo que anunciou, equivocadamente, a morte da monarca da Inglaterra, na manhã de segunda-feira – “Rainha Elizabeth

Um painel para sempre

Há seis meses, a Associação dos Condomínios Garantidos do Brasil (ACGB/Vida Urbana) inaugurou um painel de azulejos em homenagem aos profissionais da