A distância versus à distância: por que a crase deve diferenciar uma e outra?

Por que a crase deve aparecer na expressão à distância? Porque facilita o seu reconhecimento, já que as palavras a distância podem ocorrer em situações parecidas. Vejamos.

– O substantivo precedido de artigo definido ocupa a função sintática de sujeito, objeto direto ou predicativo:

A distância entre nós é grande.

Vimos a distância de uma estrela a outra.

A preocupação era a distância do lugar.

– Com o a craseado precedendo o substantivo, porem, a sua funcao so pode ser de locução adverbial, a qual exprime uma circunstancia de modo:

À distância é que se pode observar melhor o fenômeno.

Vimos à distância somente o que nos permitiram ver.

A preocupação era permanecer à distância naquele lugar.

Alguns autores classificam a ocorrência dessa crase como facultativa. Mas há quem seja categórico, como o etimologista, professor de literatura, linguista e escritor Deonísio da Silva:

“As placas do DNER põem crase em ‘obras à (sic) 100 metros’. E o Ministério da Educação (MEC), não sei a quem consultou para isso, obriga as universidades a escreverem ‘educação a (sic) distância, que deve ter crase. Sugiro que o governo mande o MEC tomar emprestada ao menos uma crase do DNER e escrever corretamente ‘educação à distancia’, com crase.” (JB Online, 18/9/2009)

Explicação

As locuções adverbiais de circunstância – modo, meio, lugar, tempo – são formadas pela sequência preposição a + substantivo ou adjetivo. A maioria delas tem a ver com o modo, respondendo à pergunta “como?” Por exemplo: “Comprou o carro à vista.” Comprou como? À vista.

Nas locuções adverbiais masculinas, como a pé, a cavalo, a caráter, a frio, a gás, a gosto, a lápis, a meio mastro, a nado, a óleo, a prazo, a sério, a tiracolo, a vapor etc., não se acentua o a, que é uma simples preposição.

Nas locuções circunstanciais femininas, contudo, embora esse a possa ser mera preposição, é

de tradição acentuá-lo por motivo de clareza. Compare nos exemplos abaixo o significado da

frase sem o acento e com ele:

Favor lavar a mão. – Favor lavar a mão (e não à máquina).

Caiu a noite (anoiteceu). – (o idoso) Caiu à noite.

Cortei a faca. – Cortei à faca.

Coloque a venda (faixa nos olhos). – Coloque à venda.

Fotografou a distância (de um ponto a outro).

Fotografou à distância.

Ensino a distância (entre isto e aquilo). Ensino à distância.

Vamos estudar a distância. Vamos estudar à distância!

É por essa questão de clareza que se recomenda e geralmente se acentua o a nas locucoes femininas circunstanciais, para que a preposição não seja confundida com o artigo definido. Nesses casos não funciona o artificio de ver como e que se comporta uma expressão similar no masculino, pois excepcionalmente não haverá correspondência de a com ao. Por exemplo, escreve-se vender à vista, ainda que se escreva vender a prazo.

Determinação: à distancia

Com a distância determinada, especificada, o a deve ser obrigatoriamente craseado:

Favor se manter à distancia de dois metros pelo menos.

Cientistas esperam medir 60 mil galáxias à distância de nove bilhões de anos-luz.

Ficou à distância de uns 10 km do alvo.

Então, embora se considere facultativa a crase fora da situação específica acima, achamos preferível usá-la porque a presença do acento facilita a leitura, como já vimos. É também por essa razão que a Revista Bonijuris adota sempre a grafia à distância quando se trata da locução adverbial.

*Maria Tereza Queiroz Piacentini, autora dos livros “Não Tropece na Língua” e “Não Tropece na Redação”, ambos editados pela Bonijuris.

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