A derrubada de monumentos, parte 1. Valores de ontem e de hoje

I – O valor dos monumentos.

Os monumentos públicos, como estátuas, bustos, placas comemorativas, visam a recordar fatos ou pessoas, a homenagear indivíduos e a glorificar-lhes dadas realizações. As estátuas e bustos mantêm memória do homenageado, de seus aspecto, fisionomia e, sobretudo, feitos; eles recordam aos pósteros que vulto em questão existiu e desenvolveu ações que se julgaram valiosas, que receberam o aplauso e a admiração da sociedade em dado momento, o que motivou a que a comunidade exaltasse as realizações e seu autor mediante o monumento.

Para a compreensão dos monumentos é mister espírito histórico: examinar o papel benéfico ou maléfico dos vultos no contexto em que viveram, nas circunstâncias em que atuaram, no quadro de valores por que se pautaram.

Os valores cambiam ao longo dos tempos; o bom e o mau, o louvável e o reprovável são-no relativamente ao estado de coisas em que o são. Imbuir-se de espírito relativo ou histórico, afirmado pelo Positivismo de Comte[1], deve ser a primeira lição de quem examine o passado e o primeiro critério de quem se arvore em juiz de homens e das respectivas ações.

Nossos valores, de 2020, diferem dos que plasmaram a mentalidade das gerações precedentes à nossa; nossas prioridades, nossos critérios de comportamento e de convivência são outros dos que nortearam figuras como Alexandre, Carlos Magno, D. Pedro I e tantos outros. Se há um critério de verdade, de imparcialidade, até de simples bom senso, é este: a consciência de que não podemos julgar homens de antano exclusivamente pelos nossos critérios axiológicos, como se nos fossem contemporâneos, como se vivessem agora e houvessem desenvolvido suas ações no presente, sob nossos critérios de bom e mau, certo e errado. Não se pode menosprezar os filósofos gregos por haverem professado o politeísmo, em que descremos; é injusto verberar D. Pedro I por não haver proclamado a república, mas é sensato entender que em meio essencialmente politeico os gregos ilustrados também o fossem e que na posição política em que Pedro I se encontrava estaria além do conceptível para o seu tempo aventar-se que ele se convertesse em agente republicano. Por mais que (por exemplo) recusemos a escravidão, temos de, com sentido histórico, entender que no século XIV, quando os portugueses iniciaram a importação de escravos para a Europa, ela era tida por normalíssima e causaria perplexidade se alguém a impugnasse. Ninguém, ao tempo, fez-se abolicionista, porém despertar-nos-ia justa repugnância se, nos dias atuais, alguém almejasse escravizar pessoas ou povos: a cada tempo, os seus valores, costumes e instituições.

  Cada vulto histórico saliente atuou consoante o espírito de sua época e não conforme o da nossa. O certo, o bom, o errado, o mau, exerceu-os segundo os critérios de seu tempo e de sua geração, de que possivelmente nos dissociamos. Por sua vez, estátuas, bustos, placas também exprimem o etos, a mentalidade, os valores da comunidade ao tempo em que foram erigidos. Assim, a ereção das estátuas de Floriano, Tiradentes, Castro Alves, do mausoléu de José Bonifácio, representam o louvor que os brasileiros de 50, 60, 70 anos atrás exprimiram aos próceres do civismo, da poesia, da vida pública. Os brasileiros de décadas atrás viram nesses homens valores e méritos, reconheceram-lhes contribuições positivas, ainda que possivelmente eles apresentassem aspectos menos louváveis ou censuráveis, ainda que nem toda a sua atuação houvesse sido louvável.

Por isso, os monumentos são seletivos em seu ânimo: eles não simbolizam necessariamente a totalidade da vida e da agência do homenageado, mas, seletivamente, glorificam o bom, o melhor, o socialmente benéfico, o digno de homenagem. Ainda que os homenageados sejam também merecedores de censura por outros aspectos, na ponderação de maldades e bondades acabam por prevalecer as segundas sobre as primeiras e para consagrá-las é que se erigem monumentos.

Com o andar dos tempos e a mutação das sensibilidades, as novas gerações ou parte delas podem tornar-se sensíveis a dados aspectos da atuação dos homenageados, mais do que o foram as gerações promotoras dos monumentos, a outros. Certa geração, por exemplo, de paulistas nos bandeirantes admirou o espírito de iniciativa, a persistência, a capacidade de enfrentar adversidade, o espírito de planejamento da agricultura, o entrosamento de brancos, índios e negros, a sinergia dos integrantes das bandeiras, a expansão do território brasileiro, a constituição de povoados (antecessores de inúmeras cidades atuais). São valores individuais e sociais, de relevante merecimento. Os paulistas de duas ou três gerações atrás, no seu quadro de valores, discerniram na saga dos bandeirantes o que os sensibilizava e o que encareciam.

Aos brasileiros e paulistas de hoje ou parte deles anima, possivelmente, outra axiologia. Já não serão entusiastas do espírito de iniciativa, da persistência infatigável, do arrojo perante o desconhecido, do destemor, da vastidão do território nacional; impressiona-os a sujeição de índios e negros, a escravidão, a violência na destruição de reduções jesuíticas, a desigualdade entre pessoas tal como a entendemos. São visões que se completam, com a diferença de que uns atentaram em dados aspectos, que se lhes afiguraram gloriosos e outros, os contemporâneos, atentam em outros aspectos, que se lhes afiguram deploráveis.   Aliás, parece-me assinalar as gerações pretéritas a exaltação das qualidades e as atuais, a denúncia dos males. Aquelas eram admiradoras, estas são indignadas; aquelas atentavam mais no lado positivo e estas, no negativo. Daí a atitude, diversa e até oposta, em relação aos vultos preferidos por umas e recusados por outras, sua consagração monumental por umas e a condenação dos mesmos monumentos por outros.

  Na medida em que exprimem cosmovisões e o espírito de sua época, os monumentos são documentos históricos. Dos que não nos sensibilizam, diremos:

Naquele tempo, eles valorizavam vultos assim; não mais hoje.

  Neste caso, lá conservemo-lo como testemunho de estado de espírito passado, como prova da mutabilidade dos valores e até das verdades. Os monumentos de vultos esquecidos contêm-nos o ensinamento da evolução das coisas humanas. Eles ensinam-nos que as épocas diferenciam-se entre si também pelo enaltecem. Poderemos ponderar: não queremos vultos assim: o monumento adverte-nos do que ansiamos por evitar; induz-nos por outros caminhos. Com ele concluímos: o homenageado errou e que aí continue aí como advertência.

  Dos que nos empolgam, diremos:

Este monumento consagra valores que perduram.

Neste caso, lá conservemo-lo como testemunho de estado de espírito que se mantém, como prova da duração de valores e até de verdades. Os monumentos de vultos lembrados contêm-nos o ensinamento da conservação das coisas humanas. Eles ensinam-nos que as épocas igualam-se entre si também pelo que enaltecem. Poderemos ponderar: queremos vultos assim: o monumento aviva-nos a consciência do que devemos conservar; induz-nos ao mesmo caminho. Com ele concluímos: o homenageado acertou e que aí continue como inspiração.

  Dos que novamente prestigiamos, diremos:

Por anos, este monumento andou esquecido, mas ultimamente lembramo-nos dele.

Neste caso, lá conservemo-lo, como testemunho de estado de espírito que se constituiu, desfez-se e ressurgiu, como prova das oscilações dos valores e até das verdades. Os monumentos relembrados contêm-nos o ensinamento da oscilação das coisas humanas. Eles ensinam-nos que as épocas igualam-se e diferenciam-se entre si com intermitências. Poderemos ponderar: queremos vultos assim: o monumento restaura-nos a consciência de valores que retomamos; induz-nos ao caminho de outrora. Com ele concluímos: o homenageado acertou e que aí continue como exemplo.

  Nos três casos, quer apreciemos, quer desapreciemos o vulto, o monumento porta mensagem. Não porta mensagem nenhuma a ausência de monumento, o vazio de evocações, o nada que não nos serve de exemplo nem de contra-exemplo.

  Na medida em que os monumentos veiculam o estado de espírito que resultou na sua ereção, eles são legítimos e erigidos legitimamente. Eles intentam exaltar o bem, o bom, o proveitoso da ação de seus homenageados. Raramente os monumentos consagram santos, quer no sentido católico, quer em sentido metafórico; usualmente glorificam homens superiores por alguma faceta de sua ação social e não necessariamente homens acima de qualquer crítica ou inerrantes.

Os monumentos também realçam a continuidade histórica e a herança de civilização das gerações em relação às que as antecederam: cada uma recebe o estado de coisas cultural produzido pelas anteriores e transmiti-lo-á com mais ou menos modificações às porvindouras. Vetores de cosmovisões, enaltecedores de contribuições socialmente úteis, os monumentos são também símbolos da influência das gerações que se sucedem, caráter distintivo da humanidade.

Os monumentos prestigiam o bom, sem dissimular o mal e os erros eventualmente praticados pelo homenageado. Porém derrubá-los é modo material e simbólico de repudiar o possível mal que hajam praticado ou a atuação reprovável consoante a sensibilidade do presente, sem reconhecer o bem que praticaram e que os tornou merecedores de consagração pública.


[1] Dentre as sete acepções de positivo, uma é precisamente a de relativo: relacionado com, dependente de, condicionado por, associado a estado de coisas.

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