A derrubada de monumentos, parte 3. Flávio Suplicy de Lacerda

III – O busto de Flávio Suplicy de Lacerda.

Em 15 de maio de 1968, grupúsculo de estudantes radicais derribou o busto do reitor Flávio Suplicy de Lacerda, instalado nos jardins da reitoria da Universidade Federal do Paraná. Em 2014, 5 ou 6 baderneiros novamente derribaram-no, a troco de o então ex-reitor haver sido “ministro da ditadura”, ou seja, do regime de 1964.

 1) Flávio foi ministro da Educação no governo do Marechal Castelo Branco, que não foi ditador. Logo, não foi “ministro da ditadura”, expressão evidentemente pejorativa e tendenciosa.

2) O mandato do então presidente Castelo Branco destinava-se a completar o interregno governamental do presidente deposto, João Goulart, e findar em 31 de janeiro de 1966, porém foi prorrogado até 15 de março de 1967. Flávio exerceu funções durante o primeiro período e não no de prorrogação.

3) Flávio foi homenageado como reitor, pelos então mais de 15 anos como tal, em que tornou a UFPR, de privada e paga, em pública e gratuita. Os arruaceiros que lhe derribaram o busto, estudavam de graça graças ao homem que vilipendiaram.

4) Flávio construiu e abriu o Hospital de Clínicas, que há décadas vem servindo a milhares de cidadãos, majoritariamente pobres.

5) Flávio construiu os 3 prédios da reitoria, tudo quanto havia em 1971 do Centro Politécnico, a Casa da Estudante Universitária; criou a orquestra universitária, o restaurante universitário, a biblioteca central, a imprensa universitária, a universidade volante etc. Também ampliou o prédio “histórico” da praça Santos Andrade, cuja fachada reformou, com o aspecto que atualmente é o seu.

6) Com sua atuação, Flávio beneficiou direta e indiretamente milhares de pessoas, a quem permitiu acesso gratuito à educação, contudo porque exerceu o ministério por ano e meio, derrubaram e depois novamente derrubaram e furtaram o busto de quem foi reitor por 21 anos e obrou copiosamente em prol dos seus concidadãos, inclusivamente dos alunos baderneiros e dos professores extremistas que, aqueles, perpetraram, e estes, insuflaram, a depredação do patrimônio público representado pelo busto, que ao presente não foi reposto.

7) A isso coloquialmente chama-se de cuspir no prato em que se comeu.

8) Em 25 de maio de 2017, o Conselho Universitário da UFPR aprovou a criação do Museu do Percurso, mostruário parcialmente ao ar livre, a compor-se de quatro marcos: edifício José Munhoz de Mello (antiga sede da Polícia Federal, na rua Ubaldino do Amaral), busto de Flávio Suplicy de Lacerda, edifício D. Pedro II (que ladeia a reitoria), onde se previu instalação de marco evocador do cerco que em 1968 estudantes lhe fizeram; por fim, busto por se constituir de José Rodrigues Vieira Neto (professor da UFPR, cassado pelo regime militar), a ser disposto na praça Santos Andrade ou no edifício “histórico” da UFPR.[1]

9) A criação do tal Museu decorreu de intenso diálogo e foi consensual; sua aprovação deu-se no colegiado superior da universidade e, apesar disto, até julho de 2020, o busto do reitor Lacerda ainda não foi reposto no seu lugar originário. Por quê?

O leitor interessado em conhecer a atuação de Suplicy de Lacerda, poderá ler O Magnífico Reitor, de Arthur Virmond de Lacerda Neto, volume 31 da Estante Paranista (Instituto Histórico e Geográfico Paranaense, Curitiba, 1988).


[1] Aqui a notícia respectiva, em fonte oficial da UFPR: https://www.ufpr.br/portalufpr/noticias/coun-aprova-por-unanimidade-parecer-que-cria-museu-do-percurso-e-soluciona-por-meio-de-consenso-construido-pela-reitoria-da-ufpr-impasse-sobre-busto-do-ex-reitor-flavio-de-lacerda/.

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