A crise dos gurus de esquerda

A nova esquerda: fiz que fui, não fui, acabei ‘fondo’.

Em setembro deste ano (2018), Noam Chomsky veio ao Brasil. Acompanhado da mulher Valéria, uma brasileira com quem está casado há quatro anos, ele cumpriu o roteiro de todo intelectual de esquerda que se preza: visitou Lula.Clóvis Rossi, colunista da Folha de leitura sempre obrigatória, já havia notado a esta altura que Chomsky é um daqueles que não têm audiência nas suas próprias terras (no caso,os EUA), “mas se dedicam a vender suas teses para a bugrada da América Latina”,esta disposta a comprar qualquer miçanga que venha de fora.

O problema de Chomsky, no entanto, é mais embaixo. Ele é um guru da esquerda que se esbalda em contradições. É o tipo que tal como o jogador de futebol fez que foi, não foi e acabou ‘fondo’.

No ano passado, Chomsky declarou à revista “Democracy Now”:

“É simplesmente penoso ver que o Partido dos Trabalhadores no Brasil, que de fato levou adiante medidas significativas [não pôde manter as mãos longe dos cofres]. Eles se juntaram a uma elite extremamente corrupta, que está roubando o tempo todo, e tomaram parte nisso, desacreditando-se”.

Menos de um ano depois, ao desembarcar no aeroporto Afonso Pena, na Grande Curitiba, para visitar Lula na prisão, Chomsky era outro. Um homem otimista disposto a recordar que, há 20 anos, quando conheceu o líder petista, ele lhe dissera que ganharia a eleição à presidência, como de fato ganhou. Então, à porta da cela, despedindo-se após uma hora de conversa, consolou Lula:  “Vamos continuar na luta, não desista que as coisas acontecem”.

Chomsky era ali um poço de incongruências. À BBC Brasil, horas antes, ele havia sugerido uma “comissão da verdade” para olhar o que ocorreu com o PT e admitido que Lula “tolerou muita corrupção, assim como (Hugo) Chávez na PDVSA”, a estatal de petróleo da Venezuela. “A corrupção no Brasil e em toda a América Latina é chocante. E isso já há muito tempo”.

Poucas semanas antes,fora a vez de Boaventura de Sousa Santos cumprir o beija-mão na cadeia improvisada da Superintendência da Polícia Federal, na capital paranaense. O intelectual português (de esquerda, por óbvio) não só visitara Lula como também fizera uma palestra na meca acadêmica do lulopetismo, a Universidade Federal do Paraná.

O programa anunciava o tema Direitos Humanos, mas Sousa Santos livrou-se dele rapidamente, alegando falha na comunicação (ele fala português). Tratou de falar sobre o que lhe interessava: Democracia e Direito na Encruzilhada. Talvez porque inspirado na prisão de Lula. Talvez porque àquela altura já ensaiara uma frase de efeitopara definir o juiz Sérgio Moro, então um simples juiz de primeiro grau, e não o superministro que se anuncia. “O que vemos é uma situação paradoxal: Sérgio Moro é um juiz pendente e não independente”.

Sousa Santos é um socialista que resolveu adaptar-se ao mundo em que vivemos, capitalista por excelência. Diz que a democracia é um encadeamento dedutivo, um corolário do capitalismo. Esqueçam, portanto, o fracasso do mundo socialista, até porque ele foi esquecido. O que importa agora é a democracia e o capitalismo é sua doença.Mas isso não significa propor outra coisa. Não, ao menos, a sua antítese.

O que importa agora é ligar uma luz de teste nos governos e descobrir se a democracia anunciada é de baixa,média ou alta intensidade. “A América Latina de 20 em 20 anos esquece o que acontece nos últimos 20 anos”, afirma ele, apropriando-se de um aforismo de Ivan Lessa,sem o devido crédito.

O que ocorre, diz ele, é que a democracia, cá abaixo da linha do Equador, está sendo sequestrada pelo capitalismo vil e não por aquele que levou Estados Unidos e Europa a nadar de braçada na economia. Repare: quando um intelectual diz que o contrário de capitalismo não é socialismo, mas democracia, um dos dois está doente (o intelectual ou o socialismo). No caso de Sousa Santos, os dois.Claro que ele evocou Lula no encerramento. Se o caro leitor pensou no clichê “a esperança venceu o medo”, acertou. Mas com um toque lusitano: “É necessário incutir algum medo àqueles que só têm esperança e alguma esperança àqueles que só têm medo”. Pronto. Isto é a nova esquerda.

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