A bomba relógio da volta às aulas

Os jornais trouxeram a notícia de que 16 estados, incluindo o Distrito Federal, irão retomar as aulas presenciais nos próximos dois meses. É assustador. O quadro da pandemia não decresceu. Nem ao menos se estabilizou. A curva da doença em algumas regiões voltou a atingir índices preocupantes comparáveis aos piores dias do ano passado. E mesmo assim os governadores fincam o pé e insistem no retorno às atividades normais sem dar qualquer garantia de que aqueles que se dirigirem para a escola não serão agentes propagadores da covid-19 com o potencial de uma bomba relógio.

Os luminares acreditam que o uso de máscara por parte dos alunos, o distanciamento de dois metros entre as carteiras e a adoção de um sistema híbrido, que implica em revezamento semanal no comparecimento às aulas presenciais, pode resultar em algum benefício. O quadro, convenhamos, é de indigência. Em um ano, o país notabilizou-se por fazer o pior. Não se trata apenas do negacionismo do presidente da República, este por si só um agente pernicioso da desinformação. Trata-se também do péssimo comportamento da população. O brasileiro ignorou a doença ao escolher as férias na praia, as aglomerações de fim de ano e as baladas na madrugada. E ao ignorá-la ele a disseminou. Há o caso da juíza do sorvete que postou fotos de aglomeração em Angra dos Reis (RJ), da enfermeira que tomou a vacina e dela fez troça, do jornalista que, responsável pela informação, decidiu desinformar a população elogiando a iniciativa de donos de bares e restaurantes da Itália em resistir à lei.

Não se trata de um ato orgulhoso de desobediência civil. Trata-se de inobservância estúpida. Que pode ser coroada, em sua desfaçatez, na retomada das aulas presenciais sem a inclusão dos professores no grupo prioritário de vacinação. Segundo o Ministério da Saúde, comandado por um general especialista em logística que cometeu erros crassos em logística, os mestres só serão imunizados na quarta fase, a penúltima.

Enquanto isso, seguem expostos ao vírus nas salas de aula, porque para eles não se prevê rodízio, mesmo estando mais propensos a contrair a doença. Tal como foi noticiado, o Brasil foi o país com a pior gestão pública durante a pandemia. Está na última posição em relatório produzido pelo Lowy Institute, com sede na Austrália, a partir de pesquisa com 98 governos. E o descalabro não para por aí. Considere-se também a “picaretagem” que tomou conta da campanha de vacinação no território brasileiro. Em Manaus, investigação para apurar fraudes e fura-filas resultou no pedido de prisão preventiva do prefeito e da secretária de saúde. Sem cerimônia, eles permitiram que familiares e amigos com vínculos políticos e econômicos pulassem à frente dos grupos prioritários. Sempre sacudidos e risonhos. Em Santa Catarina, há denúncia de venda de vacinas a empresários e, em Curitiba, a prefeitura suspendeu a aplicação do imunizante nos profissionais de saúde porque errou feio na organização. Todos os funcionários de uma maternidade da capital, por exemplo, tiveram agendada a sua vacina para o mesmo dia e horário. O “cérebro” autor dessa façanha deve ser estudado por especialistas.

Um cenário com tal indigência deveria servir de argumento suficiente para que os governadores dos 16 estados da federação revejam sua decisão de retomar as aulas presenciais. Mas eles parecem inflexíveis. Certamente não miram nas consequências previsíveis de seu ato, mas em um futuro próximo. Aquele que aponta para a eleição de 2022. Haja irresponsabilidade.

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