A biblioteca do desembargador

Nem precisava, mas o desembargador Yedo Simões, do Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas, resolveu abrir as portas de casa para mostrar sua biblioteca verdadeira. Esta cheia daquilo que nela costuma-se guardar: livros. Na semana passada, ele participava de teleconferência das Câmaras Reunidas, na qual os desembargadores analisam diversas pautas, quando derrubou painel ‘fake’ atrás de sua cadeira que exibia estante cheia de obras as mais variadas. Não era uma mentira, apenas um fundo justificável, afirmou. Pessoas da família transitavam atrás dele.

Os colegas, talvez solidários, talvez contidos, talvez desatentos – o que é mais provável – não demonstraram reação, mas a imagem viralizou. Daí, com o orgulho ferido e a intelectualidade posta à prova, Simões resolveu gravar vídeo mostrando que era, de fato, um apreciador de livros e, não bastasse isso, tinha-os a mancheias. Todos físicos e folheáveis.

Renato Aragão, o comediante e, poucos sabem, advogado formado pela Universidade Federal do Ceará (turma de 1961) fazia rir quando revelava as artificialidades do cenário. Eram portas que não davam em lugar algum, telefones que tocavam misteriosamente sem estarem plugados, frutas de cera, pães de isopor e coleções de livros cujas lombadas eram esculpidas em caixas de madeira. Se ele, personificando um causídico ou um executivo de multinacional, lia algum deles? A resposta com trocadilho: nem a pau.

Há suspeitas – nunca comprovadas – de que Cristiano Zanin, o advogado de Lula, ao exibir estante de livros velhos em sessão do STF – a que julgou a suspeição do ex-juiz – teria mostrado o que era um quadro pintado. A polêmica só não se instalou, apesar dos comentários nas redes sociais, porque foi naquela mesma ocasião que o ministro Gilmar Mendes veio às lágrimas depois que a colega Cármen Lúcia mudou de opinião e o acompanhou em seu voto, afinal vencedor.

Por que nove entre dez advogados, juízes e jornalistas têm a biblioteca como cenário em suas aparições na TV? Porque elas depreendem sabedoria. Demétrio Magnoli, cientista político e comentarista político da GloboNews, se viu em apuros, no ano passado, quando, por razões técnicas, precisou exibir sua biblioteca ao fundo, e preferia as flores de sua sacada. Ao comentar o seu incômodo e o juízo que dele poderia fazer o telespectador, se viu em guerra com os colegas do programa. Todos ostentando devidamente a sua porção livresca.

Vale lembrar, por fim, a foto do então candidato à presidência Fernando Henrique Cardoso publicada nos jornais, em que ele aparece diante de sua vasta biblioteca. Ato contínuo, o cartunista Angeli decalcou a imagem e dela extraiu charge impressa na Folha de S. Paulo no dia seguinte. Era o mesmo FHC risonho e sacudido. Mas sua biblioteca fora substituída por uma coleção de gibis do Pato Donald, Mickey e Tio Patinhas.

Coluna publicada no Diário Indústria e Comércio em 9 de fevereiro de 2022.

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