Notícias

A arquitetura da destruição na versão tupiniquim

O vídeo em que o secretário da Cultura, Roberto Alvim, parafraseia Goebbels é mesmo de causar arrepios. Se Regina Duarte dissesse agora “Eu tenho medo”, minha reação seria idêntica: “Eu também”. Por Marcus Gomes

O vídeo (veja abaixo) em que o secretário da Cultura, Roberto Alvim, parafraseia o ministro da Propaganda do regime nazista Joseph Goebbels é mesmo de causar arrepios. Se Regina Duarte dissesse agora “Eu tenho medo”, minha reação seria idêntica: “Eu também”.

Ok, Roberto Alvim é um discípulo de Olavo Carvalho, um dramaturgo de pífia produção, mais conhecido por dizer coisas horríveis sobre a atriz Fernanda Montenegro quando ocupava uma das diretorias da Funarte. Agora, apenas três meses depois de ser nomeado secretário especial de Cultura, decide que, ao anunciar o Prêmio Nacional das Artes, deve fazê-lo incorporando, em corpo e espírito, o chefe da propaganda nazista.

Seria cômico não fosse sério. Estamos falando de um órgão do governo federal autorizado a criar, com dinheiro público (é sempre bom lembrar), o cenário exibido no vídeo. Um homem cercado de símbolos tradicionais – a religião, a pátria, o líder – para, “em nome do povo”, determinar ora em diante (e ele fala em década) qual será o destino da cultura brasileira:

“A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada”, diz Alvim, repetindo quase que ipsis litteris o que Goebbels afirmara a diretores de teatro, segundo a biografia do nazista escrita por Peter Longerich.

Não vivemos apenas a era da ignorância, vivemos também a era da insanidade. Se Alvim queria chamar a atenção, ele conseguiu. Resta saber se esse tipo de comportamento histriônico se dá sob orientação do governo. Diria que não dada a combalida influência do presidente e de seus nomeados (exceção para a Economia e Justiça) em qualquer esfera da sociedade. Mas que assusta, assusta.

Quem assistiu ao documentário “Arquitetura da Destruição”, de Peter Cohen (1989), narrado em alemão por Bruno Ganz, e já direi quem é ele, sabe onde Alvim se inspirou. Música de Wagner, ataques à arte degenerada, toques de flauta para o nacionalismo, a tradição e fé cristã e afronta aos limites constitucionais do estado laico, democrático e de direito.

O que causa admiração é que Alvim não gravou o vídeo sozinho. Ele foi produzido pelo departamento de comunicação do governo e carimbado com sua logomarca. Ninguém alertou o secretário sobre os riscos de parafrasear Goebbels, criar um cenário tal como foi exibido, fazer apologia ao nazismo e de julgar sensato ditar as regras da “verdadeira” cultura? Há notícias afirmando que, em novembro passado, Alvim já havia elogiado a estética e os valores semelhantes da Alemanha de Hitler. Se é isso mesmo, o jeito é repetir o coronel Kurtz interpretado por Marlon Brando em “Apocalipse Now”: “o horror, o horror”.

Em tempo, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, diz que Alvim passou dos limites e pediu o seu afastamento da Secretaria Especial de Cultura. Se isso ocorrer, será o terceiro secretário exonerado da pasta em pouco mais de um ano. Olavo de Carvalho, em vídeo postado nas redes sociais, disse que Alvim “talvez não esteja muito bem da cabeça” e a Confederação Israelita afirmou que o discurso nazista do secretário é “inaceitável”.

Bruno Ganz, falecido no ano passado, é o ator que interpretou Hitler no filme “A Queda”, de Oliver Hirschbiegel, Oscar de melhor filme estrangeiro em 2005. O fato de ele ter narrado o documentário “Arquitetura da Destruição” diz muito sobre a sua aversão ao nazismo.

>>> PARA LER: “Nazismo, Cinema e Direito”, de Gabriel Lacerda (Elsevier, 176 páginas, R$ 34).

>>> PARA VER: “Arquitetura da Destruição”, de Peter Cohen (DVD, Amazon, R$ 37).

compartilhe

Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no twitter
Twitter
Compartilhar no linkedin
LinkedIn
Compartilhar no email
Email

Leia também:

Dura vida de advogado

A mesma Folha de S. Paulo que anunciou, equivocadamente, a morte da monarca da Inglaterra, na manhã de segunda-feira – “Rainha Elizabeth